Ação não é Ação Dramática: ou porque certos filmes são chatos

Jaqueline M. Souza
Feb 9, 2017 · 7 min read
The Crown consegue, por vezes, o grau de construção necessário para transformar ações pequenas como ajoelhar ou acenar na porta de um avião em ação dramática. O domínio da ação dramática permite criar conflitos sutis e engajar o público mesmo com tramas minimalistas.

Celso Sabadin recentemente fez uma crítica a respeito dos filmes exibidos no Festival de Tiradentes. Falou sobre como a não-ação e uma pretensa contemplação teriam tomado conta de certa parte dos filmes selecionados em festivais, deixando-os vazios e cansativos. Ironizou a quantidade de café que se passava e tomava pelos personagens desses filmes.

Na hora pude até visualizar. Eu, assim como você, já assistimos esse mesmo filme, várias vezes. Longos planos de café sendo passado. Personagens indo ao banheiro. Personagens fumando em suas salas amplas e cobertas de cultura pop. Ou simplesmente olhando pela janela. Quando essas obras conseguem se desvencilhar dos apartamentos, o máximo que teremos é uma jovem olhando para um horizonte.

Não posso deixar de lembrar das palavras de Guillermo Arriaga em um workshop que ministrou:

“ Fui jurado na competição oficial dos festivais de cinema de Veneza e San Sebastian. Posso dizer-lhes que há uma grande tendência de se fazer filmes baseados na chatice, na vida de gente chata. Vi filmes onde o cara acorda, escova os dentes, tira o leite da geladeira, caminha, senta-se, bebe o leite… E chegamos a meia hora de filme.

Há uma tendência muito grande de mostrar esses mundos chatos. Não está errado. É um reflexo do que estão vivendo muitos dos cineastas contemporâneos. Mas a outra tradição à qual pertence, por exemplo, Shakespeare, ou os gregos. Se há está tradição contemporânea em que não se passa nada, há também outra tradição em que tudo acontece. É muito importante compreender sem julgar ou criticar a que tradição vocês querem pertencer. Isso nos ajuda a decidir que tipo de escrita queremos fazer. Qual é a vida do escritor ou do cineasta contemporâneo? Em geral são de classe média ou classe média alta, que vivem em uma cidade, em um apartamento e que tem uma vida perfeitamente estruturada. Alguém que acorda as sete da manhã, toma um banho e café da manhã, pega o ônibus, vai ao trabalho, almoça, volta a trabalhar, chega em casa, fala com alguém que está em casa, dorme e acorda. […] Esse tipo de existência se reflete no cinema. […] A gente começa a necessitar de cicatrizes. Como não tem cicatrizes, porque são uma geração muito protegida, fazem tatuagens para recordar momentos de suas vidas. Essa geração pertence a uma tradição que tem que contar o mundo de forma suspensa, detida, porque sua própria existência é detida, suspensa. Que tipo de filmes vocês gostam de ver? Quando Andrei Tarkovsky decide fazer um filme com todos esses movimentos lentos é porque quer que sigamos atentos a todos os detalhes e que fazer sentir que a vida transcorre a um ritmo.”

Concordo muito com Arriaga a respeito de que os cineastas e roteiristas contemporâneos carecem de experiência de vida para criar obras que vão além de um vazio existencial superficial. Mas também acredito que o autor não precisa viver uma situação para poder falar sobre ela. Ele só precisa ser sensível a sua existência, suas causas e seus efeitos. (Já falamos sobre isso , no texto sobre Empatia aplicada na Escrita). É preciso olhar ao redor e ver além de sua própria experiência. É preciso enxergar quão dramático o mundo é. Quando um fictício Charlie Kaufman pergunta para um fictício Robert Mckee, em Adaptação, sobre como escrever roteiros parecidos com a vida ou o mundo- onde nada acontece- a resposta do personagem é:

A segunda citação seguida de Adaptação! ;)

“Nada acontece no mundo? Você está fora de si? Pessoas são assassinadas todos os dias. Há genocídio, guerra, corrupção. Todo dia, em algum lugar do mundo, alguém sacrifica sua vida para salvar outra pessoa. Cada dia, alguém, em algum lugar toma uma decisão consciente para destruir alguém. As pessoas encontram amor, as pessoas o perdem. Pelo amor de Cristo, uma criança vê sua mãe ser espancada até a morte nos degraus de uma igreja. Alguém passa fome. Alguém trai seu melhor amigo por uma mulher. Se você não consegue encontrar esse material na vida, então você, meu amigo, não conhece porcaria nenhuma da vida! E por que PORR@ você está desperdiçando minhas duas preciosas horas com o seu filme? Eu não tenho nenhum uso para ele! Eu não tenho nenhum uso para ele!”

Sim, o drama está ao nosso redor, o tempo todo. E não é preciso pensarmos em situações limites como a morte de uma mãe na escadaria da igreja ou eventos grandiosos como um acidente de avião. O drama reside também nos detalhes, nas pequenas situações do dia-a-dia. Aí reside a diferença entre os filmes bons e os “chatos”. Um olhar desatento irá deixar passar em branco a ação dramática e se ater exclusivamente a ação. Assim, como os filmes que falamos lá em cima, onde passar e tomar café ocupa um sequência inteira sem qualquer significado.

Por isso, sempre que pensamos em ação em um roteiro devemos pensar em ação dramática. Isso leva mesmo os filmes mais introspectivos a engajar o espectador, sem qualquer necessidade de eventos grandiosos. Obviamente, nem todas as ações de um roteiro precisam ser dramáticas, mas alterná-las com beats em diálogos, irá possibilitar uma mise-en-scene mais rica, assim como não deixará a trama excessivamente alicerçada sobre diálogos.

Fazer um café é ação. Correr é ação. Chorar é ação. Sem a devida construção, nada disso é Ação Dramática. Ação dramática significa que há bastante conflito, informação, tensão, incerteza que acrescentem dramaticidade à ação.

“Trama significa um evento arranjado de acordo com uma ideia governante, e tendo seus conteúdos se tornando aparentes por seus personagens. Ela é composta de muitos elementos e consiste em um número de ações dramáticas, uma após o outra, que se tornam eficazes de acordo com uma estrutura.” — Gustav Freytag, A Técnica do Drama

Sem a dramaticidade, a ação é mero movimento, é ação passiva sem drama. Entre os elementos que qualificam uma ação como ação dramática, podemos citar:

“Uma ação, em si, não é dramática. Estar apaixonado, em si, não é dramático. Não é a paixão, mas a representação da paixão que leva a ação que é a tarefa da arte dramática; não representar um evento em si, mas o seu impacto na alma humana é a missão da arte dramática.” — Gustav Freytag, A Técnica do Drama

Então como podemos transformar nossas ações em ações dramáticas?

Primeiramente, é necessário entender que a ação dramática é um beat em forma de ação, isto é, é um pedaço pequeno de história representando através de uma ação física e que seja essencial para o desenrolar da trama. A ação dramática pode ser uma cena inteira ou um mero gesto. Com estudo da técnica e atenção aos conflitos humanos até a ação mais simples, pode ser dramática.

Em O Aviador, Howard Hughes (Leonardo DiCaprio) é um milionário obsessivo compulsivo, sendo sua maior obsessão com germes e a necessidade de limpeza. Em uma determinada cena, Errol Flyn, o famoso ator, se aproxima de sua mesa de jantar de forma agitada. Os pratos de jantar chegam e Errol rouba uma ervilha do prato de Howard. Uma ervilha! É o necessário para desestabiliza-lo e fazê-lo sair do ambiente com Katherine, o que virá a estreitar os laços entre eles. O roubo de uma ervilha talvez não fosse ação dramática para um outro personagem, mas aqui é porque tem relevância, a partir do momento que conhecemos a misofobia do personagem- e causa nele uma reação.

Cena de O Aviador

Outro ótimo exemplo de um pequeno gesto transformado em Ação Dramática pode ser visto no terceiro episódio da primeira temporada de Os Sopranos, “Denial, Anger, Acceptance”.

Charmaine Bucco tem um restaurante com seu marido, mas o lugar é incendiado por Tony Soprano. Tony e Artie, o marido de Charmaine, são amigos de infância e após o incêndio, Artie passa por problemas financeiros. Tony dá dinheiro para ajudar Artie ( já que incendiou seu restaurante), enquanto Charmaine e Carmela, a esposa de Tony, organizam um jantar para arrecadar dinheiro para um hospital pediátrico. Charmaine fica responsável pelo buffet e acredita estar ajudando a amiga. Carmela não sabe que foi Tony que incendiou o restaurante do amigo, mas sabe que Tony deu-lhe dinheiro. Carmela tenta o tempo todo manter a imagem de amiga e apoiadora.

Em determinado momento no começo do episódio, Charmaine vai a casa de Carmela e a seguinte cena ocorre entre Carmela e sua empregada.

Família Soprano: Carmela chama a emprega com um gesto com a mão, o que é observado por sua amiga.

Mais a frente no episódio, durante o jantar, Carmela repete o gesto, que sem o plant que estabelece o significado e sem o contexto da história não teria relevância alguma.

Família Soprano: é o gesto de Carmela que revela sua relação de poder sobre a amiga, mudando a dinâmica do relacionamento entre ambas. Isso é Ação Dramática.

O gesto tão simples, revela para Charmaine o real sentimento de Carmela por ela, e automaticamente muda a dinâmica entre as personagens. Um gesto banal feito com a mão, com o devido contexto, revela sobre o personagem, move a história e resulta em uma reação. Ação dramática.

Para bem escrever e pensar ações dramáticas é necessário perceber que certas ações só têm resultados com determinados pessoas e ainda dentro de certas circunstâncias. Estar atento a estas ações do dia-a-dia, que são mais do que aparentam ser e mudam o rumo das coisas, é essencial para conseguir trabalhar com ações dramáticas e não simplesmente ações. Dominar a ação dramática exige atenção à psicologia humana, um olhar atento ao mundo a sua volta e disposição. Com disposição, consegue-se transformar até fazer o café da manhã em ação dramática.

Tertúlia Narrativa

A Tertúlia Narrativa é um coletivo de criação e estudos de…

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