Fab Lab Inatel

Raphael Cardoso Mota Pereira
8 min readMay 30, 2022

O clássico espaço maker surgiu na garagem de um criativo que decidiu fazer suas próprias coisas. Atualmente, esses espaços estão surgindo com diferentes formatos e lugares, como nas universidades e empresas, impulsionados pela disrupção tecnológica da fabricação digital. Neste artigo vamos entender como a cultura do faça você mesmo (DIY) está empoderando os criadores, e também vou compartilhar algumas experiências no Fab Lab Inatel.

DIY, Makers Spaces e Movimento Maker

Historicamente, as primeiras revistas de bricolagem e hobby surgiram após as grandes guerras mundiais, e incentivaram uma legião de pessoas a fazerem as suas próprias coisas (Do-It-Yourself). Esse fenômeno partiu da necessidade de obter produtos que estavam em escassez no mercado, por causa do esforço de guerra que consumia muitos recursos e tempo das fábricas.

A escassez do pós guerra e a rebeldia da contracultura.

No fundo, ser criativo e fazer as próprias coisas tem um toque de rebeldia. Afinal, o maker deixa de optar por produtos disponíveis no mercado para criar a sua própria realidade. E esse tom de contracultura do movimento maker foi reforçado a partir de outros movimentos, como o movimento punk, que produzia suas próprias coisas, como: música, roupas e revistas, mas acima de tudo um novo comportamento.

Surgimento do computador pessoal e da internet.

Com o surgimento do computador pessoal e da internet o movimento maker ampliou as suas capacidades técnicas e incorporou a cultura hacker, que equivocadamente associamos a crimes cibernéticos. Na verdade, o hackear é um atitude positiva frente a realidade, quando você decide fazer o ‘sistema’ funcionar ao seu favor.

Nesse período o movimento DIY saiu da garagem e ganhou o mundo través de fóruns na internet. Diversos fórum dedicados ao tema possibilitavam as pessoas aprenderem muito rápido sobre como criar coisas. Makers disponibilizavam projetos inteiros, com listas de materiais, dicas de fabricação e montagem. O instructables.com é uma dessas comunidades que cresceram e atualmente possuem milhares de projetos open-source e open-hardware, assim como o hackaday.com e hackster.io são comunidades incríveis.

Atualmente, o movimento maker virou um mercado bilionário e reúne milhares de pessoas em feiras internacionais como o makerfaire.com. Essa cultura transbordou para outras tribos, principalmente para as áreas de PD&I de empresas e universidades, que são formadas em maioria por criativos hands-on.

A Rede Fab Lab

A Rede Fab Lab surgiu como uma iniciativa de divulgação educacional do Center for Bits and Atoms - MIT, uma extensão da pesquisa em fabricação digital e computação. Como sabemos o Massachusetts Institute of Technology (MIT) é a meca da engenharia no mundo, e do Center for Bits and Atoms sugiram diversas patentes que incorporavam o CNC, CAD e CAM.

Neil Gershenfeld, professor de empreendedorismo e idealizador da Rede Fab Lab.

Essa base tecnológica criou o que conhecemos como manufatura digital, e com o passar do tempo a disponibilidade tecnológica criou uma disrupção na indústria da manufatura. Por isso, a economia maker tem se destacado como uma das mais expoentes para o futuro dos produtos personalizados, com logística descentralizada e custo de produção cada vez mais barato.

As tecnologias CNC possibilitaram métodos mais eficientes de manufatura de subtração e adição.

Em 2005 a National Science Foundation concedeu ao MIT o valor de $ 14 milhões em subsídios para semear os Fab Labs nos EUA, uma iniciativa com o objetivo de estimular o empreendedorismo. No Brasil o movimento começou por volta de 2012 com tímidos três Fab Labs de garagem, depois instituições abraçaram o projeto e apareceram mais Fab Labs. Surpreendentemente em 2015 já eram doze, em 2017 mais de 40 Fab Labs, e atualmente centenas.

Resumindo, um Fab Lab é também uma plataforma de aprendizagem e inovação: um lugar para jogar, criar, aprender, mentorar, inventar. Ser um Fab Lab significa conectar-se a uma comunidade global de alunos, educadores, tecnólogos, pesquisadores, criadores e inovadores — uma rede de compartilhamento de conhecimento que abrange 30 países e 24 fusos horários.

Fab Lab Inatel

Atuei no Núcleo de Empreendedorismo e Inovação do Inatel, com a implantação do Fab Lab Inatel, ministrando treinamentos para formação de makers e mentorando projetos para alunos da graduação, startups do Programa de Incubação e projetos sociais com a comunidade.

A implementação do espaço é o desafio mais custoso, mas por outro lado é o mais prático. Com um orçamento certo é possível reformar o espaço, mobiliar e equipar dentro de um modelo recomendado pela Fab Foundation. E é importante frisar que o Fab Lab pode ser profissional, acadêmico ou comunitário, o que muda completamente a régua de orçamento.

Por outro lado, implementar uma cultura mão na massa baseada em colaboração e aprendizagem pode ser um desafio significativo. Pois, esse valor intangível, deve ser cultivado através do desenvolvimento de pessoas e práticas continuadas dentro do espaço.

Por isso, no período em que fui gestor no Fab Lab Inatel procurei desenvolver cinco valores chave para o desenvolvimento de uma cultura Maker Attitude Entrepreneur, são elas:

Pessoas e Projetos: Em primeiro lugar, apoiar o desenvolvimento de pessoas através de seus próprios projetos.

É natural que o Maker Team (pessoas que trabalham nos espaços maker) fique muito orientado ao desenvolvimento de projetos. Contudo, o centro do desenvolvimento deve ser as pessoas, pois a cultura faça você mesmo tem como objetivo empoderar os usuários do espaço. Por isso, desenvolvemos pessoas através de seus próprios projetos.

Projetos realizados por alunos e startups.

Mindset orientado a problemas: Oferecer metodologias como Design Thinking e o Lean Startup.

Em um ambiente repleto de recursos para construir quase qualquer coisa é tentador cair na “fazeção”. Ou seja, começar a construir coisas que não solucionam necessidades reais podem desconectar o usuário do propósito do espaço. Nesse sentido, o senso de comunidade somado as metodologias ágeis e centradas no usuário são muito importantes para o desenvolvimento de problemas relevantes e significativos.

Treinamentos e sprints de Design Thinking.

Fabricação Digital: Treinar os usuários do Fab Lab Inatel, facilitando o uso de máquinas e outros recursos disponíveis.

Chegar com uma ideia na cabeça em uma plataforma de fabricação digital não vai resolver muita coisa, você precisará digitalizar imediatamente o seu projeto utilizando softwares CAD. E para isso será necessário aprender a projetar, mas não de qualquer forma, e sim com intenção de projeto para cada processo de manufatura. Nesse sentido, os treinamento são fundamentais para formação e empoderamento dos makers.

Programa Inatel Maker — http://inatel.br/maker

Academia e Mercado: Facilitar o diálogo e a reflexão sobre a contemporaneidade e as novas tecnologias.

O espaço maker não pode ficar fechado em si, mesmo que a comunidade interna seja muito grande e diversa. Olhar para fora é fundamental para construir pontes em que os makers percebam oportunidades de negócio, parcerias para aquisição de novos recursos e construção de sentido no desenvolvimento de novos projetos.

EduTec&Cria — https://inatel.br/edutec

Aprendizagem Criativa: Criar experiências incríveis de aprendizado por meio do maker attitude.

O professor ensina e o aluno aprende. Mas, quando o aluno encontra experiências construtivas que ensinam, então chamamos esse processo de aprendizagem criativa. No espaço maker buscamos descontruir o ensino para construir uma forma de aprendizado própria e independente, formando mentes criticas e criativas. No Fab Lab Inatel utilizamos diversos projetos open-hardware que serviram como kits educacionais, como: franzininho.com.br, eng.lofirobot.com, ibmtjbot.github.io; e criamos os nossos kits, como: Horta Viva.

WorkShops e Hackathons.

Depois de conviver em um ambiente maker, é difícil perceber o mundo da mesma forma como antes. Os objetos do cotidiano ganham um novo sentido e os projetos pessoais um novo valor.

Grande abraço e até a próxima!

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