Placar vai deixar a Editora Abril, e eu tenho algumas sugestões para que a mudança dê certo


Por ALEXANDRE GIESBRECHT | Twitter


Graças a uma reportagem que falava dos tratos de um jogador com seus cabelos, esse tipo de matéria “extracampo” passou a ser conhecido na comunidade da revista Placar no finado Orkut como “xampuzinhos”. Não consegui encontrar a edição exata em que ela saiu, mas deve ter sido entre o segundo semestre de 2006 e o primeiro de 2007. Eu costumava publicar na comunidade uma resenha sobre cada edição, que depois agrupei num blog para arquivá-las. Na resenha da edição de junho de 2007 (quando eu estava especialmente rabugento), eu já citava os “xampuzinhos”: “Pelo menos não usaram a página a mais para perguntar sobre o xampu dele ou sobre a foto dele no site.”

Mas outra metáfora para essas matérias também era usada: “PlaCaras”, em referência óbvia à revista de fofocas que então também era publicada pela Editora Abril. Pois bem: hoje foi anunciado que a Editora Abril vendeu a revista Placar para a Editora Caras, junto com outros títulos.

Sou leitor da revista há cerca de 28 anos e sempre tive uma relação de afeto com ela. Para mim, a Placar não tem leitores; tem torcedores. Isso nunca ficou mais claro do que quando descobri a comunidade do orkut. Ali havia outros apaixonados como eu, que gostariam de vê-la voltar a ser semanal e voltar a tratar o futebol da mesma maneira como tratava nos anos 1970 e 1980, por mais que fosse tudo um devaneio — isso sem falar que a revista dos anos 1970 era bem diferente da dos anos 1980. É muito fácil sugerir mudanças quando não é o nosso dinheiro investido no produto.

Ainda que muitos de nós soubéssemos que várias de nossas propostas estavam bem longe da realidade, algumas delas pareciam bem factíveis, especialmente nossa principal bandeira: que o futebol fosse tratado apenas dentro de campo. Para mim e vários outros, não fazia sentido falar da vida pessoal dos jogadores, a não ser que isso claramente afetasse seu desempenho em campo, e, ainda assim, com restrições. Acredito que tenha sido, sim, nossa constante crítica que levou a revista a rever esse tipo de matéria, que acabaria praticamente sumindo da revista.

Não acredito que a mudança de editora vá fazer com que a revista volte a apostar nos “xampuzinhos”, e tive a garantia de uma fonte da Editora Abril: “Ir para a Caras não significa mudança na linha editorial. Não teremos que adotar uma linha de futebol celebridades.” É uma excelente notícia, porque, nos últimos tempos, a Placar tem sido uma revista muito melhor que a de meados dos anos 2000. Não perfeita, mas em geral é uma leitura agradável. Isso não significa que a revista não deva mudar de alguma maneira, e não existe fórmula mágica para isso, tanto é que não vou dar palpites a esse respeito.

Mas não falo apenas do conteúdo das páginas: também é importante sua relação com o leitor como um todo. Na época da comunidade no Orkut, alguns membros da redação participavam dos debates com alguma assiduidade. É claro que eles não gostavam de algumas das críticas — e alguns exageravam, mesmo —, mas sempre levavam na boa e procuravam encará-las como construtivas. Eles defendiam várias posições, mas também sabiam reconhecer quando algo não tinha dado certo. Uma vez, cinco dos membros da comunidade foram convidados para conhecer a redação, quando puderam até fazer “reivindicações”. Tive o prazer de ser um deles, e foi um dia extremamente divertido.

Visita de alguns integrantes da comunidade Placar do Orkut à redação da revista, em 9 de março de 2007

Com o fim do orkut, a integração diminuiu consideravelmente, mesmo diante da proliferação de redes sociais. A conta de Twitter da Placar resume-se a um repositório de links para textos do site (muitos deles de três ou quatro parágrafos), alguns com erros de português (como este) e todos digitados na própria página do Twitter, em vez de ser automatizados (se até eu consegui criar uma conta automatizada para postar meus textos, por que a Placar não consegue?). A página no Facebook também resume-se aos links.

Interações em redes sociais? Só de leitores para ela, sem nunca receberem uma resposta. Alguns desses tuítes aparecem na revista mensal, porém numa seleção quase restrita aos elogiosos. Algumas “cartas” são respondidas na respectiva seção, mas, geralmente, as respostas são usadas apenas para explicar uma situação ou defender-se de uma reclamação.

Leitor gosta de ser paparicado, gosta quando a revista lhe dá atenção. Isso é válido para o consumidor de qualquer produto. Tomemos como exemplo esta interação de um consumidor em potencial, que foi respondida pela conta associada ao produto que ele buscava. Ele não recebeu a resposta que gostaria, mas certamente agora tem uma imagem mais positiva da marca. Placar, que é um produto com que o leitor certamente tende a ter mais empatia, já que fala exatamente da paixão dele, teria tudo para manter uma relação parecida.

E não podemos nos esquecer do rico acervo da revista: fotos, reportagens, tabelas, fichas técnicas. Parte do acervo está online, dentro do Google Livros, mas a digitalização foi feita sem o cuidado necessário, e vários números ficaram faltando nos índices, embora muitos deles estejam, de fato, disponíveis por meio de pesquisas específicas. A qualidade das fotos é bastante superior à dos acervos dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, porém ainda longe de ser a ideal.

Ideal, mesmo, só escaneando as fotos originais, que estão quase esquecidas no Dedoc da Abril. Quando lá fiz uma pesquisa, em 2008, boa parte desse acervo não estava nem disponível digitalmente: tudo funcionava como uma biblioteca das antigas. Sem uma boa equipe, provavelmente será muito difícil organizar esse acervo, mas agora, com a mudança de casa — supõe-se que o acervo vá junto — , seria uma boa oportunidade de começar a fazer isso. Essas fotos ninguém tem. Ninguém.

Como “torcedor” da Placar, desejo muito sucesso na nova casa. Espero que a mudança faça bem para a revista e ela não tenha o mesmo destino do Jornal da Tarde, outra publicação com que eu tinha uma relação próxima. Nenhuma sinapse no meu cérebro tem a ilusão de que ela volte a ser semanal, mas algumas células das minhas entranhas insistem em ter tal vã esperança. São os resquícios daquele garoto de onze anos que abriu a edição número 894 da revista pela primeira vez, naquele distante mês de julho de 1987.


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