Cetale morreu na madrugada de 21 de julho de 2013, esquecido talvez até pelos botafoguenses mais fanáticos, mesmo os que o viram vestir a camisa do Botafogo entre o final dos anos 1950 e o início dos anos 1960.

Por ALEXANDRE GIESBRECHT | Twitter


Ao longo de boa parte dos jogos do Nacional no Estádio Nicolau Alayon no século XXI, a última pessoa a deixar as arquibancadas costumava ser o homem da foto acima. Quieto, passava despercebido para a maioria dos torcedores, que não imaginavam estar próximos de um zagueiro que jogou ao lado de grandes personagens, nos principais palcos e vestindo uma das camisas mais icônicas do futebol brasileiro. Seu nome não costuma ser reconhecido quando mencionado: Cetale.

Nascido em 23 de fevereiro de 1939, filho de pai argentino e mãe uruguaia, foi criado na Vila Anastácio, em São Paulo, e seu início de carreira foi no time infantil do Corinthians, na primeira metade da década de 1950. Por sua altura de 1,81 metro (alto para a época), era considerado um dos destaques, como mostrou a matéria “Rato cumpre uma nobre missão no Coríntians”, publicada na Folha da Manhã de 24 de julho de 1955. No ano seguinte, entretanto, transferiu-se para o Nacional, ficando lá até 1958, quando foi levado para o Rio de Janeiro por um olheiro do America. Segundo texto de Albino Castro Filho no blog de Roberto Porto, “treinou dois meses na velha cancha de Campos Salles e chegou a disputar um amistoso contra o Bonsucesso vestindo a camisa do diabo rubro, [mas] o America, que já preparava Djalma Dias, vacilou, e Cetale foi para o Botafogo, levado por Nadim Marreis”.

Aos dezenove anos, estava sendo preparado no time de aspirantes que conquistou o bicampeonato da categoria, em 1958 e 1959, ao lado de Amarildo, Amoroso e outros jogadores que atuariam, mais tarde, no famoso Botafogo dos anos 1960. O fato de jogar nos aspirantes não impedia que fosse convocado para as excursões do clube, como um giro pela Europa, em junho de 1959, que incluiu uma goleada sobre o Anderlecht, em Bruxelas, com Cetale entrando no segundo tempo. “Excursionei o mundo inteiro com o Botafogo”, disse o jogador a Albino Castro Filho. “Conheci mais de cinquenta países e, naquelas viagens, vivi meus melhores momentos no clube.”

6/6/1959
ANDERLECHT 0×5 BOTAFOGO
Campeonato:
amistoso. Estádio: Bruxelas, BÉL. Público: 20.000. Gols: Paulinho (7/1T), Quarentinha (14/1T), Lippens (contra, 25/1T), Quarentinha (26/1T e 25/1T).
Anderlecht: Week; Cogelaers, Koster e Gettemans; Coninck e Lippens; Jurion, Van der Wilt, Stockmans, Mande Boers e Van dem Bosche.
Botafogo: Ernâni; Aírton, Chicão e Nílton Santos; Tomé (Cetale) e Ronaldo; Garrincha, Didi, Paulinho, Quarentinha e Zagalo (Nivaldo).

Ainda uma jovem promessa, dizia-se que seu passe estaria estipulado em quatro milhões de cruzeiros, o terceiro maior valor entre os cinco jogadores que o Estadão de 27 de junho dava como possíveis transferidos à Espanha, atrás de Didi (quinze milhões) e do goleiro Ernâni (cinco milhões). Naquele ano, chegou a ser oferecido, junto com Rossi, ao Atlético de Madri, numa negociação em troca de Vavá, que não foi para a frente. Seu prestígio faria com que fosse convocado para a seleção carioca de novos que enfrentou a paulista, no Maracanã, em 28 de abril de 1960, num jogo cuja renda foi revertida em benefício das vítimas de inundações no Nordeste. Curiosamente, Ademir da Guia, ainda jogador do Bangu, era reserva na seleção carioca e entrou, provavelmente no segundo tempo, no lugar de Válter. A partida terminou empatada em um gol.

7/4/1960
BOTAFOGO 1×1 VASCO DA GAMA
Campeonato:
Rio–São Paulo. Estádio: Maracanã (Rio de Janeiro, RJ). Juiz: Alberto da Gama Malcher. Renda: Cr$ 896.913. Gols: Amarildo (15/1T) e Peniche (22/2T).
Botafogo: Ernâni; Jorge (Marcelo), Cetale e Nílton Santos; Chicão e Frazão; Garrincha, Rossi, Neivaldo, Amarildo e Orlando (Geninho).
Vasco da Gama: Miguel (Itá); Paulinho, Bellini e Coronel; Écio (Orlando) e Russo; Sabará, Roberto (Valdemar), Delém, Pinga e Peniche.

Em 23 de junho de 1960, foi personagem de um caso curioso. Em amistoso contra o Palmeiras, o zagueiro Zé Maria foi expulso, aos 22 minutos do primeiro tempo, por indisciplina, logo após o gol palmeirense. Diante dos protestos de Zé Maria, a partida ficou parada por alguns minutos e, quando finalmente foi reiniciada, Cetale, originalmente no banco, estava em campo. Ele não tinha informado ao representante da federação quem tinha sido substituído, mas o trio de arbitragem, inicialmente, não se deu conta. Cerca de dois minutos depois, um dos bandeirinhas percebeu que o Botafogo ainda estava com onze jogadores em campo e avisou o árbitro, Manuel Ramos.

Nova confusão estava armada, com os botafoguenses cercando o árbitro e rapidamente sendo acompanhados por integrantes da comissão técnica e até dirigentes. Cetale argumentava que o jogo era um amistoso, sem convencer Ramos. A delegação carioca optou, então, por retirar-se de campo, embora sem ir aos vestiários. Os jogadores ficaram na beira do túnel por dez minutos, até os ânimos se acalmarem, e voltaram ao gramado. Cetale estava entre eles, mas, agora, substituindo Neivaldo.

23/6/1960
PALMEIRAS 1×0 BOTAFOGO
Campeonato:
Amistoso. Estádio: Pacaembu (São Paulo, SP). Juiz: Manuel Ramos. Renda: Cr$ 277.225. Gol: Walter Prado (22/1T). Expulsão: Zé Maria (22/1T).
Palmeiras: Waldir de Moraes; Djalma Santos e Waldemar Carabina; Perinho, Aldemar e Geraldo; Ivã, Walter Prado, Moacir, Chinesinho e Cruz.
Botafogo: Manga; Zé Maria e Nílton Santos; Ademar, Pampolini (Ronald) e Chicão; Neivaldo (Cetale 25/1T), Édson (Rossi), Alencar, Amarildo e Zagalo (Bruno).

Em 1961, o técnico Marinho não o relacionara para uma viagem do Botafogo, o que irritou Cetale, segundo o próprio contou, em entrevista sem data publicada no site Terceiro Tempo e que já não está mais no ar. Com o contrato vencido no final daquele ano, parecia não ter mais espaço no clube, mesmo com o presidente declarando que estava preparando um novo contrato para o jogador. Cetale começou a despertar o interesse de outros times, e os jornais publicavam notas a respeito deles, baseadas ou não em fatos. Em dezembro, por exemplo, o Corinthians teria cogitado sua contratação. Mais tarde, já em abril de 1962, o Botafogo de Ribeirão Preto teria chegado a mandar um representante ao Rio de Janeiro para tentar contratá-lo, sem sucesso. Naquele mês, tinha circulado a notícia de que o zagueiro teria sido multado pelo Botafogo (o Estadão de 4 de abril apenas fala em multa, sem citar o alegado motivo), logo desmentida pela diretoria, explicando que não poderia multá-lo, por ele estar sem contrato.

Chegou a ser noticiada, em maio, sua transferência para o Juventus, por quinhentos mil cruzeiros, mas seu destino acabou sendo a Esportiva de Guaratinguetá, embora ele garantisse, décadas depois, também ter tido uma oferta do Internacional de Porto Alegre. No dia 29 daquele mês, o Botafogo informou à Federação Carioca de Futebol que tinha cedido todos os direitos sobre o jogador ao clube paulista, passando a ter condições de jogo no fim do mês seguinte. “Eu tinha proposta do Internacional, mas acabei preferindo ir para o Guaratinguetá”, relembraria, na entrevista publicada pelo Terceiro Tempo. “Fiquei muito arrependido.”

Já em sua primeira partida pelo novo clube, foi citado pelo Tribunal de Justiça Desportiva da Federação Paulista de Futebol, devido às faltas cometidas. Era um procedimento normal, em um tempo em que não havia cartões amarelos ou vermelhos. Cetale acabou absolvido.

25/11/1962
XV DE PIRACICABA 2×0 ESPORTIVA DE GUARATINGUETÁ
Campeonato:
Paulista. Estádio: Piracicaba, SP. Juiz: José Batista dos Santos. Renda: Cr$ 139.900. Gols: Vágner (20/1T) e Nilo (7/2T).
XV de Piracicaba: Orlando; Orlando Maia, Ditão e Cardinale, Fernando Sátiro e Dorival; Ovaldinho, Vágner, Maneca, Nilo e Ubirael. Técnico: King.
Esportiva de Guaratinguetá: Lamim; Rubens, Cetale e Henrique; Tupi e Carlitto; Roberto; Frazão, Nato, Beirute e Oriel. Técnico: Begliomimi.

Após o fim do campeonato, a Folha de S. Paulo mencionou, em sua edição de 20 de dezembro, que o Flamengo teria interesse em contratar Cetale. Com ou sem oferta do time carioca, ele decidiu rumar para a Colômbia, a fim de defender o Deportivo Cáli. “Foi uma experiência boa”, avaliaria, mais tarde. “A diferença técnica entre o futebol brasileiro e o futebol colombiano era muito grande naquela época. O Brasil enfrentava a Colômbia e ganhava até por oito gols de diferença. Hoje, não é bem assim.” Uma operação no menisco, que ele não quis fazer na Colômbia, foi decisiva para sua volta ao Brasil, onde defenderia, ainda, Bonsucesso e Olaria — em 14 de setembro de 1966, o Estadão fez referência a um “Cetali” marcando para o São Cristóvão, em um amistoso contra a seleção da Tunísia.

Mais tarde, ex-companheiros do Botafogo indicaram-no para jogar no futebol dos Estados Unidos, onde defendeu o Toros Los Angeles e o Chicago Spurs. Foi naquele país que ele encerrou a carreira como jogador, passando a trabalhar num projeto voltado para jovens promessas latino-americanas. “Eu falava bem espanhol, por isso fui convidado para trabalhar no projeto, que se chamava Panamericano”, explicava.

Cetale só voltaria a sua São Paulo natal em 1998, já vivendo dificuldades financeiras. “Chegou a morar num albergue público, no bairro do Canindé, com duas mudas de roupa e uma mala de fotos dos tempos gloriosos do Botafogo”, escreveu Albino. “Nos momentos de desespero, e eram muitos, eu abria a minha carteira e só encontrava as duas fotos do Botafogo”, contou Cetale, no mesmo texto. “Então, revirava a mala e ficava olhando minhas fotos com a camisa do Botafogo, e isso ajudava-me a enfrentar as necessidades.” Ele não se separou dessas fotos até sua morte.

Após o jogo entre Nacional e Atibaia, em 18 de maio de 2013, tive a oportunidade de conhecê-lo e testemunhei o orgulho com que ele as mostrava. Ele estava cabisbaixo, sentado na ponta da arquibancada térrea na frente das tribunas do Nicolau Alayon. Quando questionado sobre seus tempos de Botafogo, imediatamente encheu o peito e sacou a foto de sua carteira, para exibi-la. No próprio domingo em que morreu, funcionários do Nacional procuravam separar as fotos de Cetale, para dar-lhes um destino adequado. Uma delas, de um time posado do Botafogo, em que ele está ao lado de Manga e Nílton Santos, entre outros, tinha lugar cativo, plastificada, em sua carteira.

Fiz, nas semanas seguintes, a pesquisa que deu origem a este texto, e gostaria de entrevistá-lo, já com os detalhes à mão. Infelizmente, ele não estava no estádio nas duas partidas seguintes do Nacional. Pouco antes de começar a terceira, em 21 de julho, fui informado de sua morte, ocorrida poucas hora antes. A partida entre Nacional e SEV Hortolândia teve um minuto de silêncio, em homenagem a Cetale, e terminou com o placar de 10 a 0, maior goleada da história do clube ferroviário.

Gosto de imaginar que Cetale deu a assistência em pelo menos metade dos gols.

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