Esta era a “minha” Placar

Se você teve uma infância “futebolística”, deve ter feito algum jornalzinho sobre campeonatos de botão. Eu levei a coisa um pouco mais longe…

Por Alexandre Giesbrecht | Twitter | 22 de julho de 2017


Quando a revista Placar deixou de ser semanal, eu tinha catorze anos e comprava-a com regularidade havia três (mais precisamente, desde a edição 894, do início de julho de 1987). A revista esteve a um passo de fechar de vez, porém uma manobra de Juca Kfouri salvou-a, e ela passou a ser publicada todos os meses, com edições temáticas. Apesar de hoje eu considerar essa fase muito boa, ela não era o que eu queria ver na época: uma revista semanal falando de futebol, da rodada do fim de semana.

Assim, resolvi fazer minha própria revista. Só que eu tinha um problema, por não ter material para o conteúdo, como fotos e até textos dos jogos a que eu não assistia — apenas um jogo por rodada era transmitido pela televisão naquela época. Se eu não poderia falar das rodadas a que assistia nos campeonatos Paulista e Brasileiro, então eu criaria meus próprios campeonatos e falaria deles. Aliás, eu nem precisaria criá-los, pois eu já os organizava, com a minha mesa de botão e as dezenas de times que eu tinha, muitos deles herdados do meu pai.

Meu número 1, inclusive, foi o título do primeiro Campeonato Brasileiro que organizei por pontos corridos. A revista saiu com data de 10 de outubro de 1991, o que significa que demorei pouco mais de um ano entre o embrião da ideia e ela ser colocada em prática. O nome da revista era Gol Botão. Eu nunca fui muito criativo para esse tipo de coisa, mas fiquei incomodado com o nome. Já para o número 2, resolvi trocá-lo para Escore, um título descaradamente inspirado na Placar. Essa seria a “minha” Placar.

Se eu tivesse aquela idade hoje em dia, usaria o computador para diagramá-la. Provavelmente aprenderia a usar o InDesign ou algum programa semelhante e buscaria as fotos na Internet. Seria bem mais simples do que a alternativa que eu tinha à disposição naquele tempo: usar régua, lápis, caneta, lápis de cor e até compasso. O primeiro computador “de verdade” da minha casa só chegaria no primeiro semestre de 1993, meio ano após a Escore ter suas atividades encerradas.

Fazer a revista daquele jeito tinha duas vantagens que eu não poderia prever. Devo ter aprendido alguma coisa de diagramação, pois se compararmos o primeiro e o último números parece haver bem mais do que um ano entre eles. Teria sido um grande pontapé inicial se eu tivesse seguido carreira. Também comecei a escrever com letra de forma, em vez da cursiva que eu usava todos os dias na escola. Foi assim que me acostumei a escrever assim, ficando até com uma letra bonita no processo.

Porém, se a minha letra era bonita, meus desenhos eram o oposto, apesar de eu ter passado minha infância inteira desenhando histórias em quadrinhos. Eu tinha consciência dessa minha limitação, então usava e abusava da régua e do compasso para reproduzir os escudos de times que fossem geométricos. Os pôsteres também eram feitos assim, pois, para reproduzir times de botão, bastava desenhá-los com o compasso e completar com escudos simplificados de cada time. O pôster abaixo saiu na edição número 3 e foi uma das minhas poucas aventuras com desenho na Escore, restritas a alguns dos primeiros pôsteres. Outra foi neste pôster do São Paulo, publicado no número 5, de 7 de novembro de 1991. Dá para ver por que tive de apelar a outros desenhistas.

Pôsteres publicados nas Escore números 3 (24 de outubro de 1991) e 4 (31 de outubro de 1991). Arte: Alexandre Giesbrecht.

Como se pode ver, apesar de os campeonatos não terem nenhuma base na realidade — eu instaurei os pontos corridos no Brasileiro com mais de uma década de antecedência e apenas oito clubes na primeira divisão — , as escalações seguiam o que eu encontrava no “Tabelão” da época ou nas fichas técnicas que saíam nos jornais.


Capa da Escore número 3. Arte: José Luiz Madeira do Val.

O melhor desenhista que eu conhecia era meu vizinho José Luiz do Val, e felizmente ele se dispôs a desenhar as capas e outros conteúdos eventuais para a Escore, sob minha direção de arte. Esses desenhos são o que chama atenção nessas revistas até hoje. Afinal, tratava-se de campeonatos de botão, né? Acho que nem meu irmão tinha paciência para assistir aos jogos, e nem posso culpá-lo por isso.

A primeira capa que ele desenhou foi justamente no número 3, reproduzida ao lado com as cores um pouco acentuadas, sob o título “Santos atropela”. A matéria, de apenas um parágrafo, ocupava metade da página 3 e falava da vitória santista por 4 a 2 sobre o Porto Seguro, campeão da edição anterior do Brasileiro (havia um Brasileiro por quadrimestre no meu calendário). No fim desta página, incluí uma galeria com todas as 54 capas.

O Santos esteve na frente durante o jogo inteiro, desde a saída, quando Paulinho abriu o placar. Quando ele fez 2 a 0, o jogo praticamente acabou para o campeão. Paulinho fez 3 a 0, e aí começou o festival de gols. Na saída, Jacó fez 3 a 1. Novamente na saída de bola, Paulinho fez 4 a 1. Na saída deste gol, Jacó descontou mais uma vez e fez o último gol do jogo. Agora, a situação do Porto Seguro é extremamente desconfortável. O time ocupa a penúltima colocação[após duas rodadas] e na próxima rodada enfrenta outro time que não pode perder, o São Paulo, enquanto o Santos pega o vice-líder [Coritiba].

O Porto Seguro era o time que meu pai montou nos anos 1960, sendo seus colegas de classe os jogadores. Eu conhecia vários deles, e o Jacó citado no texto é tio da minha esposa. Além do pôster do Grêmio, aquela edição trouxe um do Santos no verso, que não continha o tosco desenho de minha autoria; apenas os botões e o goleiro. Na página 11, que funcionava como terceira capa (a maioria das edições tinha doze páginas), havia outro pôster, este desenhado pelo meu vizinho, com os mascotes dos oito times da primeira divisão do meu Campeonato Brasileiro: Corinthians, Coritiba, Fluminense, Grêmio, Palmeiras, Porto Seguro, Santos e São Paulo.

Pôster dos mascotes da segunda edição do “meu” Campeonato Brasileiro. Arte de José Luiz Madeira do Val.

A última página da edição, como seria tradição até o último exemplar, trazia três seções fixas, todas inspiradas em seções que meu pai inseria nas revistas em quadrinhos que desenhava, quase três décadas antes — e que ele provavelmente se inspirou em outro lugar. A primeira delas era “Futebolteste”, com uma pergunta com cinco alternativas de resposta diferentes. A partir do número 5 e até o 25, foram três perguntas por edição, depois voltando a ser apenas uma até o fim. Em todos os casos, as respostas só vinham na edição seguinte.

A segunda seção era “Inesquecíveis do passado”, com a biografia semanal de algum craque do passado. O conteúdo era extraído da edição número 1.063 da Placar, publicada em setembro de 1991, com “as fichas completas dos 765 principais jogadores de todos os tempos”. Foram publicadas na Escore 28 fichas, na seguinte ordem: Pelé (cuja biografia foi dividida em cinco partes), Garrincha, Zico, Friedenreich, Gylmar, Picasso, Leão, Lorico, Ferrari, Barbosinha, Ademir da Guia, Pagão, Zizinho, Nílton Santos, Sepp Maier, Berti Vogts, Franz Beckenbauer, Paul Breitner, Rainer Bonhof, Jürgen Grabowski, Gerd Müller, Wolfgang Overath, Horst-Dieter Höttges, Félix, Brito, Piazza, Carlos Alberto Torres e Clodoaldo.

A terceira seção era “Futeboloscópio”, com a biografia de algum jogador da época. Foram 44: Müller, Neto, Paulinho McLaren, Raí, Edu Marangon, Dener, Gaúcho, Evair, Serginho Chulapa, Luiz Henrique, Júnior, Carlos, João Paulo, Lothat Matthäus, Frank Rijkaard, Darko Pančev, Andoni Zubizarreta, Chris Waddle, Gheorghe Hagi, Dejan Savićević, Oleksiy Mykhaylychenko, Steve Nicol, Eric Gerets, Nelsinho, Biro-Biro, Thomas N’Kono, Rubén Paz, Ruud Gullit, Gary Lineker, Jorginho (lateral), Salvatore Schillaci, Manfred Kaltz, Peter Beardsley, Jean-Pierre Papin, Oscar Ruggeri, Jesper Olsen, Pierre Littbarski, Paul Gascoigne, Edivaldo, Paulo Roberto, Valdo, Toninho Cerezo, Careca Bianchesi e Darío Pereyra.

Essas duas seções eram as únicas que falavam do futebol “de verdade”, em detrimento dos fantasiosos campeonatos de botão. Até mesmo o “Futebolteste” era com dados dos torneios disputados no chão do meu quarto. Mais tarde, introduzi também a seção “Você é o juiz”, que trazia perguntas sobre as regras oficiais do futebol de mesa para a Federação Paulista.

Nos números 3 e 4, ainda incluí seções com escudos de clubes. Na primeira vez, desenhei com compasso e régua os escudos do América de Pernambuco e do America do Rio. Até que gostei do resultado. Na edição seguinte, desenhei os escudos do Brasília e do Blumenau, que também ficaram bons diante das condições, O problema é que esse processo era demorado demais, algo inviável para uma revista semanal com redação fixa de uma pessoa e tiragem manual de um exemplar. A seção acabou abolida.

Capa da Escore número 7. Arte: José Luiz Madeira do Val.

No número 7, mais uma mudança importante na ainda curta vida da revista: mudei o logotipo. O motivo foi o mesmo do fim da seção de escudos, economia de tempo. O logotipo anterior precisava ser desenhado com régua, enquanto o segundo podia ser feito com um jogo de letras em estêncil que eu tinha. Muito mais simples. Este seria o logotipo usado até o fim da revista.

Com o fim do ano se aproximando, precisei acelerar o II Campeonato Brasileiro, para ele terminar antes de dezembro acabar. A edição número 9, que tinha como destaque o Londrina campeão da Copa do Brasil (após vencer o Cruzeiro por 2 a 0 na final), trazia os números após a penúltima das catorze rodadas — alguns times ainda tinham um jogo atrasado. O Fluminense liderava, com quinze pontos, mas até o vice-lanterna Palmeiras (onze pontos e dois jogos por fazer) tinha chances matemáticas. Os demais concorrentes eram São Paulo, Porto Seguro (ambos com catorze pontos e dois jogos por fazer), Coritiba (catorze pontos e um jogo), Santos (treze e um) e Corinthians (doze e dois). O único time fora da briga era o já rebaixado Grêmio.

Diante desse emocionante cenário, lancei o primeiro número Especial de Escore, “As chances de cada um”, com oito páginas detalhando as chances de cada time. As páginas dedicadas a Corinthians, Coritiba, Fluminense, Palmeiras e São Paulo ganharam desenhos de José Luiz, enquanto a do Porto Seguro ficou com um tosco desenho meu. (José Luiz não gostava muito de desenhar o Calvin, mascote que eu dera ao meu colégio por causa de uma camiseta feita para a olimpíada interna, então mais tarde combinamos de trocar o personagem de quadrinhos por um esqueleto.) O Santos, clube com menos chances, ficou com o rodapé da página do Palmeiras.

O número 10 trouxe a cobertura do bicampeonato do Porto Seguro, garantido no empate sem gols com o São Paulo, num dos jogos da terceira rodada que tinham sido adiados sei lá por quê. O Fluminense teria ficado com o título no saldo de gols caso vencesse o jogo contra o Corinthians, pela última rodada, mas o empate por 2 a 2 deixou apenas Porto Seguro e São Paulo na disputa, com a vantagem do empate para o time colegial.

O Porto está preparado para sair novamente para o jogo. Alguém avisa que faltam dez segundos. Roland atrasa para Degen, que dá um toque de leve para Jacó, que recebe e, um segundo depois, ouve o apito do juiz e dá um chutão na bola. O Porto é bicampeão! Depois de começar mal o campeonato, o Porto reagiu, caiu no segundo turno, mas ganhou do Grêmio e empatou com o São Paulo. Agora, só falta vencer a Libertadores e, depois, o Dundalk, no Mundial.


O fim do ano proporcionou a chance de fazer novas edições especiais, embora nestes casos fosse mantida a numeração normal. O número 11, de 19 de dezembro, trouxe “O time do ano”, que foi o Porto Seguro, bicampeão brasileiro e campeão paulista. Em seguida, no número 12, a “Retrospectiva 1991”, que trouxe apenas as tabelas dos campeonatos disputados naquele ano e duas páginas com “quem subiu” e “quem desceu”, além de um “Futebolteste” especial com sete perguntas.

Capa da Escore número 13. Arte:Alexandre Giesbrecht.

O número 13 foi a “Edição dos campeões”, contendo apenas três times: Porto Seguro (“×3”), Fluminense (campeão carioca) e Londrina. Na capa, desenhei os três escudos. Nos respectivos capítulos, desenhei os mapas do Brasil e dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro, estes usando a técnica de quadriculado, à custa de um atlas geográfico escolar. Os modelos foram as “Edições dos Campeões” da Placar nos anos 1980, com quadros com a campanha e o artilheiro de cada time, além de pôsteres de todos os campeões. Graças aos pôsteres, esta foi a Escore com mais páginas: vinte.

Por fim, o número 14 trouxe “O que esperar de 1992”, basicamente um compêndio com as tabelas dos torneios que seriam disputados naquele ano. Como o desenhista José Luiz estava de férias de verdade, nenhuma dessas edições contém a arte dele. Naquele mês de janeiro, eu também fui viajar, e a Escore deixou de sair. Nem faria sentido ela sair, já que os campeonatos também estavam interrompidos.

O número 15 só foi sair em 13 de fevereiro. Agora, o “Tabelão” do Brasileiro trazia as fichas técnicas de todos os jogos. Também nessa edição foi apresentado o primeiro time oficial que adquiri, na Lima Botões: o Nacional. Três edições depois, apresentei meu segundo time oficial, a Alemanha, o que explica a série de jogadores da seleção campeã mundial de 1974 na seção “Inesquecíveis do passado”. Esse time seria o que mais usei durante minha participação na Federação Paulista de Futebol de Mesa, entre 1995 e 1997, mas essa é uma outra história.


Durante as vinte primeiras edições, as capas da revista que eram desenhadas por José Luiz tinham uma temática mais simples, geralmente baseada apenas na situação dos times no campeonato. Aquelas desenhadas por mim eram ainda mais simples, limitadas pela minha limitação com o lápis na mão. Em março de 1992, entretanto, tive a ideia de usar capas de revistas americanas da DC Comics como inspiração.

Pôster publicado na Escore número 20. Arte: José Luiz do Val.

O primeiro desses desenhos não foi usado na capa. Ele entrou como pôster na página 4 da vigésima edição, talvez para preencher espaço. Mas que preenchimento! Ele ilustra a confortável situação do Fluminense após seis rodadas em que ganhara todas as partidas, enquanto os rivais se digladiavam meramente pelo segundo posto. O fantasma em questão é o do rebaixamento, que estava ameaçando o então lanterna Corinthians. Esse desenho foi inspirado na capa de Justice League of America número 56, de novembro de 1991. A capa em questão tinha apenas um personagem (Ajax, o Marciano), ocupando o lugar que na versão tupiniquim ficou com o mascote do Fluminense. Eu tinha comprado uma caixa de lápis de cor com 120 cores no início do ano, e essa arte foi uma excelente oportunidade de usá-la.

O Palmeiras do primeiro semestre de 1992. Arte: José Luiz do Val.

O palmeirense José Luiz teve a oportunidade de fazer algo diferente no pôster do número 21. Até ali, os pôsteres eram responsabilidade exclusivamente minha. Naquela edição, ele pôde desenhar seu time do coração, na versão imediatamente anterior à chegada da Parmalat. Nesse pôster, estão: Carlos, Andrei, Tonhão, César Sampaio, Jorginho Cantinflas, Edu Marangon, Marques, Evair, Toninho, Dida e Betinho. Ele faria o mesmo na semana seguinte, com o arquirrival Corinthians em caricaturas ainda mais detalhadas, embora com dois detalhes, como o desenho de um frango na camisa do goleiro Ronaldo e uma protuberante barriga em Neto. Infelizmente, a experiência durou apenas dois números, e na edição seguinte meus pôsteres feitos com compasso estavam de volta.

Até o número 25, fiz a Escore em papel carta. A partir do número 26, passei a fazer em A4. Provavelmente, isso se deveu a meu pai comprando um calhamaço diferente. Com o novo papel, a revista passou a ser um pouco menor, embora continuasse com as mesmas doze páginas.

Capa da Escore número 28. Arte: José Luiz Madeira do Val.

A capa do número 28, que destacava o rebaixamento do Coritiba, foi inspirada na capa de Justice League of America número 40, de julho de 1990. A degola estava sendo decidida ponto a ponto com o Londrina e só foi definida na última rodada. O Fluminense tinha sido o campeão do III Campeonato Brasileiro com três rodadas de antecipação, sem perder um único ponto durante toda a campanha. (Dá até vergonha de postar essa capa aqui, por causa do grosseiro erro gramatical que cometi em uma das chamadas.)

O IV Campeonato Brasileiro estava por começar, emendado ao fim da edição anterior, e isso serviu como motivo para o segundo número de Escore Especial, com o “Guia do Campeonato Brasileiro”, outra influência da Placar. Cada time ganhou uma página contendo um quadro com a escalação “oficial” (que seria usada na tábua de artilharia ao longo do torneio) e outro com o retrospecto contra os demais adversários. O jogo que mais tinha ocorrido até então era Corinthians × São Paulo: foram oito Majestosos, com uma vitória corintiana e sete empates, o que sugere que eu era menos parcial do que eu me lembrava.

A edição também incluía a tabela do campeonato, com direito a espaço para anotação de pontos (que eu não usava, já que tinha a tabela oficial em um caderno quadriculado), e dois rankings. Um era inspirado no ranking Placar, que atribui dez pontos ao campeão e um ponto ao lanterna — mas não me recordo de como funcionava o restante da pontuação, já que havia apenas oito clubes. O outro era uma mera somatória de pontos conquistados ao longo das três edições do Campeonato Brasileiro. O primeiro era liderado pelo Porto Seguro, e o segundo, pelo Fluminense.

As revistas da DC Comics não eram a única inspiração para as capas. Várias chamadas foram inspiradas em edições antigas da Placar, a que eu tinha acesso ou pela minha incompleta coleção ou pela galeria de capas publicada na edição número 1.000 da revista, de 1989. A partir do número 30, passei a usar o mesmo formato que a Placar usou em meados de 1970, com uma barra vertical lateral com algumas chamadas ao lado da imagem principal. Esse formato durou cinco edições.

Numa dessas capas, a inflação galopante que o Brasil vivia foi abordada: “Congelamos o preço! Continua só mil e duzentos cruzeiros!” Esse tipo de mensagem era comum em revistas de verdade, inclusive, obviamente, na Placar. Para efeito de comparação, o número 1 da Gol Botão “custava” 240 cruzeiros, enquanto a última edição, publicada exatamente um ano depois, saía por 2.100 cruzeiros. É claro que, apesar de exibirem o preço nas capas, nenhuma delas estava mesmo à venda.

Enquanto as capas do “Caderno da Copa” foram desenhadas por Ricardo Vasconcellos, José Luiz Madeira do Val seguiu desenhando as capas da Escore.

O número 32 trouxe a cobertura da minha Copa do Mundo, focada num encarte chamado “Caderno da Copa”. A capa do encarte também trazia um desenho, desta vez tendo outro amigo como autor: Ricardo Vasconcellos. Ele nem gostava de futebol, mas adorava desenhar e ficou responsável pelas capas dos três números do “Caderno da Copa”, enquanto José Luiz ficou com as capas das edições. Vasconcellos seria o responsável pelas capas dos números 35, 36 e 37, todos do mês de julho, provavelmente devido às férias de José Luiz.


Nessa altura, a revista tinha sofrido mais modificações. No número 31 (11 de junho de 1992), os pôsteres semanais foram publicados pela última vez, com Mixto e São Paulo. Depois disso, os únicos pôsteres a sair seriam os do campeão e vice brasileiros do IV Campeonato (respectivamente, São Paulo e Corinthians), no número 42, e os do campeão e vice paulistas (respectivamente, São Paulo e Palmeiras), no número 36. Acho que minha tentativa de imparcialidade já tinha ido para o brejo.

A revista, que já ganhara um editorial desde o número 17, também ganhou um expediente a partir do número 32. Na 37.ª edição, criei a seção de uma Loteria Esportiva fictícia, baseada nos jogos dos meus campeonatos e inspirada na seção que Placar publicou durante os anos 1980. Ela tinha espaço para a “declaração da zebra”, um trocadilho infame que era ilustrado por um dos dois desenhistas. Uma das páginas abaixo, extraída do número 48, não contém a zebra, porque nenhum dos dois desenhistas estava disponível antes de a revista ter suas atividades encerradas.

Para apresentar a nova seção, pela primeira e única vez foi usado um encarte diagramado de verdade. Não em um computador, mas numa máquina de escreve elétrica que meu pai tinha comprado e permitia uma diagramação linha por linha (com justificação!). O encarte foi impresso e grampeado no meio da revista, como Jornal Escore — uma década e meia antes do Jornal Placar, o que significa que ao menos uma coisa seguiu o caminho contrário e foi copiada da Escore para a Placar!

Exemplos da seção “Façam suas apostas” (publicados nos números 37, 41 e 48).

A última página, que já continha “Inesquecíveis do passado”, “Futeboloscópio” e “Futebolteste”, ganhou a companhia de “Histórias da bola” a partir do número 38. Em cada edição, eu copiava uma crônica do jornalista Sandro Moreyra que havia sido publicada em Placar ao longo dos anos 1980. A primeira teve o goleiro Manga como personagem e saíra originalmente na Placar número 756, de 16 de novembro de 1984. Foi a única cuja origem identifiquei em Escore…

Até os escudinhos para botões eu tentei introduzir na Escore, porém, sem ter como fazer os escudos dos times de uma maneira minimamente decente, “trapaceei”: no editorial, eu avisava quais escudinhos poderiam ser solicitados, via correios, a cada semana. (Com tiragem de um exemplar, é óbvio que nunca nenhuma carta chegou à redação.)

Para o IV Campeonato Brasileiro, dei uma de CBF: virei a mesa e aumentei a quantidade de participantes, de oito para doze. Com a mudança, ampliei a cobertura em Escore, com uma tabela de classificação mais detalhada — esta inspirada na da revista argentina El Gráfico, que meu pai sempre trazia em suas frequentes viagens a Buenos Aires — , um gráfico com o gol mais bonito da rodada, uma tabela com todos os confrontos do torneio e até uma premiação Bola de Prata, se bem que não sei como era calculada, já que apenas as melhores médias eram apresentadas.

A cobertura do Campeonato Brasileiro com doze equipes foi bastante ampliada em Escore.

Nos textos sobre os jogos, as flâmulas decorativas foram inspiradas num recurso gráfico usado pela Placar entre 1981 e 1982, na seção “Placar mundial”. Já o gráfico com o gol mais bonito da rodada era relativamente fácil de fazer. Bastava que, no momento do gol, eu já fizesse um rascunho do lance, para depois fazer o desenho definitivo com a régua.

Em outubro de 1992, o fôlego da revista estava acabando. Não pela falta de leitores, já que a quantidade deles mantinha-se estável. E não estou falando de zero, não. Um amigo na escola gostava de ler a revista. Ou, mais precisamente, ver os desenhos, tenho quase certeza. Não por acaso, a Portuguesa, time dele, chegou à primeira divisão do meu Campeonato Brasileiro. Mas divago…

O fôlego da revista estava acabando porque o meu fôlego estava acabando. Quase no fim do segundo colegial, eu ainda não sofria a pressão do vestibular, mas provavelmente já não tinha mais o mesmo prazer em levar adiante o “projeto”. Estava sendo difícil encaixar a revista (e os campeonatos) na minha rotina, algo de que eu mesmo era o culpado, já que fui aumentando exponencialmente a quantidade de jogos por fazer. Apesar das datas na capa da revista, não era incomum haver atrasos, e esses atrasos foram ficando cada vez maiores.

O número 47 ficou com a capa em branco até hoje. Também ficou em branco o espaço que seria dedicado ao mascote são-paulino no guia do V Brasileiro cuja segunda parte estava sendo publicada nessa edição. A edição seguinte ficou com um desenho de José Luiz que nunca colori e, assim como na semana anterior, o mascote do Fluminense nunca foi desenhado.

Essas edições ainda foram grampeadas, mas o derradeiro número, o 49, de 15 de outubro, nem chegou a esse estágio. A edição de primeiro aniversário da revista ganhou uma capa mequetrefe em que simplesmente escrevi em letras nem tão garrafais assim “1 ano de Escore”, além de duas chamadas menores: “Verdão se recupera no clássico” e “Cruzeiro afunda cada vez mais…”. Desta vez, foi o mascote do Palmeiras que não deu as caras. Nas páginas centrais, comecei um infográfico com a trajetória da revista, mas ele nunca foi finalizado.

(Por falar em grampear, vale lembrar como eu fazia para ter os grampos na lombada sem ter um grampeador especial. Eu pegava um grampo solto e, com a revista aberta, marcava onde deveria fazer os furos, para que ele se encaixasse perfeitamente. Os furos eram feitos com a ponta seca do compasso. Depois de inseridos, eu dobrava as pontas dos grampos com uma régua, tentando deixá-las arqueadas.)

Esta não foi nem de longe minha última aventura com uma revista. Em 1993, já com um computador, aprendi a mexer no Word de maneira mais avançada ao tentar diagramar uma revista (sem periodicidade nenhuma), usando fotos do jornal escaneadas com um scanner de mão preto-e-branco. Em 1996, comecei a acessar a Internet e criei meu primeiro site. Seis anos depois, junto com alguns amigos, comecei TheSlot.com.br, um site que funcionava como uma revista semanal sobre o hóquei no gelo da NHL. Sempre fui fascinado pelas numerações das revistas, e este foi meu projeto mais longevo, chegando ao número 302, publicado em junho de 2011. A página de edições anteriores, em que é possível navegar por todas as “capas”, é um orgulho até hoje.

Por falar em página com todas as capas…


Todas as 54 capas de Escore

Foram 49 números regulares, dois especiais e três encartes, com um total de 608 páginas publicadas.

Às margens lamacentas do Nicolau Alayon

Histórias do futebol antigo e também do moderno

Alexandre Giesbrecht

Written by

Publicitário, designer gráfico, historiador esportivo e escritor. Também escrevo sobre histórias da cidade e de alguns veículos da mídia.

Às margens lamacentas do Nicolau Alayon

Histórias do futebol antigo e também do moderno

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade