O Paulistano foi o fundador das três primeiras ligas criadas para disputa de campeonatos de futebol na cidade. Foto: cortesia Arquivo Histórico do São Paulo Futebol Clube.

Quando o Campeonato da Cidade virou o Campeonato Paulista?

O Campeonato Paulista foi criado como Campeonato da Cidade de São Paulo, mas não demorou para atrair clubes de fora da Capital. Conheça um pouco dessa história.

A história do Campeonato Paulista começou em 19 de dezembro de 1901, quando a Liga Paulista de Futebol (LPF) foi fundada por cinco clubes paulistanos: São Paulo Athletic, Paulistano, Mackenzie, Germânia e Sport Club Internacional. Às 15 horas do dia 3 de maio do ano seguinte, foi iniciada a disputa do Campeonato da Cidade, com o jogo entre Mackenzie e Germânia, no “Parque da Antarctica Paulista”. A partida terminou com vitória mackenzista por 2 a 1, e o primeiro gol oficial marcado tanto em São Paulo como no Brasil foi de autoria de Mario Eppinghaus. O São Paulo Athletic ficaria com os três primeiros títulos, todos conquistados em jogos-desempate contra o Paulistano.

Não demorou para o Campeonato da Cidade atrair o interesse de clubes localizados fora de suas divisas. Já em 1907, dois clubes de Santos se candidataram a uma vaga no torneio. O Americano já tinha mudado sua sede para a Capital, pois a maioria de seus sócios morava lá, mas tinha sido fundado em Santos por Sizino Patuska (que em 1912 seria um dos fundadores e primeiro presidente do Santos, além de pai de Araken Patuska, ídolo nos anos 1920 e 1930). Já o Clube Atlético Internacional não mudou sua cede e coube a ele a honra de ser o primeiro clube de fora da Capital a disputar o que mais tarde seria conhecido como Paulistão. O Americano terminaria o campeonato de 1907 como vice-campeão, atrás apenas do Sport Club Internacional, mas o Clube Atlético Internacional amargaria a lanterna, tendo vencido apenas um jogo.

A participação do Internacional santista não teve nenhuma partida disputada fora da Capital. Isso só ocorreria no ano seguinte: em 12 de julho de 1908, o Sport Club Internacional desceu a serra, provavelmente num trem da São Paulo Railway, e goleou o adversário quase homônimo por 5 a 0, no primeiro jogo do Campeonato Paulista a não ser realizado num estádio da cidade de São Paulo. E também o último, por quase uma década. Com dificuldades financeiras, o Internacional, que não marcou gols nas seis partidas em que entrou em campo, foi obrigado a perder por w.o. nas quatro últimas rodadas. No ano seguinte, já não participou mais do campeonato e acabaria por ser extinto em 1910.

Como o Americano já era um clube paulistano, a LPF voltou a ser composta apenas por clubes da Capital. Isso perduraria até 1914. O futebol da Capital estava dividido desde o ano anterior, quando o Paulistano deixara a Liga Paulista de Futebol, inconformado com o fato de a LPF deixar de alugar seu estádio, o Velódromo, para os jogos do campeonato — embora o pretexto tenha sido a popularização do esporte, que teria feito cair o “nível social” de jogadores e torcedores e seria a causa dos tumultos em diversas partidas. O Paulistano fundou a Associação Paulista de Esportes Atléticos (APEA), mas inicialmente conseguiu apoio apenas do Mackenzie e da Associação Atlética das Palmeiras. Assim, o campeonato de 1913 da APEA teve apenas os três clubes, e o próprio Paulistano sagrou-se campeão.

Para o ano seguinte, entretanto, o Ypiranga bandeou-se da LPF para a APEA, que ainda ganhou outros dois integrantes: o São Bento e o Scottish Wanderers. O São Bento fora fundado naquele mesmo ano a partir do time do Gymnásio São Bento, que já tinha disputado competições estudantis e de várzea. Muitos dos jogadores desse time de estudantes estavam espalhados entre os clubes que disputavam o Campeonato da Cidade. O padre Keaton, professor do colégio, sugeriu que eles fossem reunidos no novo clube, incluindo a maioria dos jogadores do Americano, campeão de 1913 da LPF. Assim, o Americano também deixou a LPF, mas também não se filiou à APEA, que tinha incentivado a debandada dos jogadores do principal clube da liga rival. O clube teria uma efêmera volta à LPF no inacabado campeonato de 1916, mas acabaria extinto naquele mesmo ano.

Anúncio do Gymnásio Hydecroft, publicado no Estadão

Enfraquecida, a LPF tentou buscar clubes substitutos, para seguir fazendo frente à liga concorrente, que não parava de crescer. Ainda em 1913, ela tinha convidado o Santos para seu campeonato, porém o clube desistiria após apenas quatro rodadas, devido ao alto custo de viajar à Capital para todas as partidas. Em 1914, as novidades foram o Campos Elyseos, o Luzitano e o Minas Gerais, todos da Capital, além do primeiro clube do Interior a disputar o Campeonato da Cidade: o Hydecroft Foot-Ball Club, de Jundiaí. O Hydecroft era composto por alunos do Gymnásio Hydecroft, uma das primeiras escolas de Jundiaí. É possível que a ideia da LPF tenha sido reproduzir a experiência do São Bento.

A delegação do Hydecroft sem dúvida aproveitou-se da estrada de ferro São Paulo Railway para alcançar o Parque Antarctica em sua estreia, contra o Sport Club Internacional. Os jundiaienses perderam por 1 a 0, mas estes onze jogadores fizeram história como os primeiros a representar o Interior num Campeonato Paulista, em 19 de abril de 1914: Coriolano; Martinelli e Miranda; Benedicto, Américo e Pedrinho; Fráguas, Bento, Hugo, Fábio e Antoninho. Na partida seguinte, disputada no mesmo estádio em 3 de maio, o Hydecroft conquistou seu primeiro ponto, em um empate por 3 a 3 com o Campos Elyseos. Hugo, duas vezes, e Bento marcaram os primeiros gols do Interior no torneio. O clube conseguiria duas vitórias naquela competição, ambas contra o Minas Gerais (por 1 a 0 e por 2 a 0). Entretanto, os cinco pontos amealhados nas oito rodadas que disputou foram descartados após ele abandonar o campeonato.


Apenas em 1916 o campeonato voltou a contar com um clube de fora da Capital, o Santos, que, desta vez, pôde mandar seus jogos na recém-inaugurada Vila Belmiro. Foi nesse estádio que o título foi decidido, com a vitória do Paulistano sobre o Santos por 5 a 2, garantindo matematicamente o título. O Santos seguiria participando do Campeonato da Cidade, mas os clubes da Capital não gostavam de descer a serra para enfrentá-lo, não só pela viagem, mas principalmente por causa das más condições do estádio local. Em 1919, um dirigente da Associação Atlética das Palmeiras não teve pudor de compara a Vila Belmiro a “um galinheiro”. “Ressabiados, os dirigentes santistas, Urbano Caldeira à frente, fizeram em poucos anos da Vila Belmiro o maior estádio do Brasil na época”, escreveram Valmir Storti e André Fomtenelle no livro A História do Campeonato Paulista.

Nesse mesmo ano, a APEA criou um campeonato entre clubes do Interior, com o campeão enfrentando o campeão da Capital para definir o título extra-oficial de “campeão do estado”. A disputa duraria até 1927, com os times da Capital vencendo todas as “decisões”.

Anúncio publicado pela LAF no Estadão

Além do Santos, o campeonato só teria outra equipe de fora da Capital em 1926, graças a uma nova cisão. O Paulistano saíra inconformado do jogo decisivo do torneio de 1925, uma derrota para o São Bento por 1 a 0: o clube contestou o gol adversário, que teria sido marcado em impedimento, ainda viu uma discussão de Clodô com o são-bentista Varela e optou por deixar o campo sete minutos antes do fim. No dia seguinte, o fundador da APEA desfiliou-se da liga.

Em janeiro, o Paulistano fundava uma liga pela terceira vez. Desta vez, a Liga de Amadores de Futebol, já com um nome demonstrando a disposição de combater o profissionalismo velado que tomava conta do futebol paulistano. Em 11 de janeiro de 1926, a LAF publicou um anúncio buscando a inscrição de clubes e jogadores. A Associação Atlética das Palmeiras, como já tinha ocorrido em 1913, esteve entre os primeiros clubes a apoiar a iniciativa do Paulistano, e outros seis clubes rapidamente se apresentaram. Entre eles, um novo clube de Santos, o Atlético Santista, e o Paulista de Jundiaí.

No ano seguinte, mais quatro clubes “de fora” juntaram-se aos dois torneios paralelos promovidos pelas ligas rivais. Três deles juntaram-se à APEA, que buscava conter o crescimento da LAF: o Corinthians, de São Bernardo do Campo, o Guarani, de Campinas, e o Comercial, de Ribeirão Preto. Na LAF, o novo integrante “de fora” era o Espanha (atual Jabaquara), de Santos. Em 1928, a Ponte Preta chegou à LAF, enquanto a esvaziada APEA diminuía pela metade, permanecendo apenas o Santos como clube de fora da Capital. O cenário era praticamente o mesmo em 1929, apenas com a adição da Portuguesa Santista à LAF.

Esse crescimento da liga mais jovem não impediu que ela acabasse se desintegrando, graças à saída do São Bento, do Atlético Santista e do Sport Club Internacional para a APEA. A dissolução da LAF seria oficializada no início de janeiro de 1930, junto com o anúncio do fim do departamento de futebol do Paulistano. Esses acontecimentos proporcionaram a fundação do São Paulo Futebol Clube, em 25 de janeiro.


Voltando a ser a única entidade máxima do futebol da Capital, a APEA organizou seu campeonato de 1930 com catorze equipes, sendo três delas “de fora”: Atlético Santista, Guarani e Santos. Entretanto, um curioso artigo do regulamento causava uma situação desconfortável. Segundo o artigo 80, das equipes com sede fora da cidade só São Paulo, apenas o Guarani e o Santos podiam mandar seus jogos em casa. Isso não o impedia de receber os adversários em seu campo na Avenida Conselheiro Nébias ou mesmo na Vila Belmiro, e não houve problemas durante quase todo o campeonato, até que, em 9 de novembro, o Santos apegou-se ao regulamento e decidiu não comparecer ao confronto na casa do adversário. O Atlético ficou com os pontos por w.o. No fim do mês, o clube ganharia outra partida por w.o., contra o Ypiranga, mas por motivos diferentes, como explicou O Estado de S. Paulo em sua edição de 2 de dezembro:

Em virtude de dissenções havidas entre membros da diretoria do Ipiranga, dissenções que foram apenas suavizadas na noite de sábado, foi impossível aos diretores esportivos daquele club organizar os quadros que deviam enfrentar, domingo, o C.A. Santista. Assim, em ofício dirigido ao grêmio de Santos, o Ipiranga excusava-se por não poder jogar, entregando-lhe, ao mesmo tempo, os pontos das partidas principal e secundária.

No Paulista de 1931, a Portuguesa foi o primeiro clube a recusar-se a descer para enfrentar o Atlético em Santos. Mesmo utilizando o regulamento como desculpa, a APEA deu os pontos do jogo ao Atlético. Comentando sobre o assunto, O Estado de S. Paulo tomou o lado da Portuguesa.

Quando se debateu o assunto, quase toda gente se manifestou favorável ao Atlético Santista, porque era novo e estava sob o regime de injusta exceção. Fortalecida pela opinião pública esportiva, a entidade dirigente não aceitou o ponto de vista do Santos […]. E não se cuidou mais do incidente, que passou para o rol dos fatos consumados, com grave prejuízo para a comunhão esportiva.
Sim, com grave prejuízo para a comunhão esportiva. Porque ao Atlético Santista e à [APEA] cabia, imediatamente, providenciar no sentido de evitar futuras complicações. Diretamente interessado, o clube santista devia promover um movimento, de molde a definir a sua situação diante dos taxativos dispositivos estatutários. Nunca lhe perdoamos o fato de se ter sujeitado a uma dependência humilhante perante ao Santos, ao entrar para a divisão principal: permitiu que se declarasse, em documento público e solene, que seria admitido na disputa do campeonato da cidade por “nímia condescendência” de um sócio-diretor do grêmio de Vila Belmiro! […] Os dirigentes do Santista, em vez de reagirem contra a anomalia, deixaram-se ficar impassíveis, à espera não sabemos de quê. […]
Pode a Portuguesa de Desportos ser acusada por se firmar nos estatutos? De forma alguma. A Portuguesa de Desportos defendeu um direito, não somente dela, mas de todos os clubes filiados, com sede na cidade de São Paulo, onde se disputa o campeonato que tem o seu nome. Apesar de todas as transigências sentimentais e dos acordos particulares, que não obrigam senão a determinadas partes — ainda não se criou o campeonato do estado, e aquele que existe pertence exclusivamente aos clubes da capital. […]
Os diretores gerais já tiveram muito tempo para reformar artigos dos estatutos, que se contradizem e brigam com o bom senso. Os tais artigos 80 e 111 [o conteúdo do artigo 111 não é mencionado na matéria] já podiam ter sido modificados por uma assembleia, com poderes para tanto. A fusão das sociedades futebolísticas realizou-se em princípios de 1930, e nós já estamos em fins de 1931. […] Por inexplicável comodismo, os estatutos se conservam intactos, como se o futebol paulista não tivesse passado por profundas transformações.

Não por acaso, já no dia seguinte, o mesmo jornal publicou um texto defendendo a criação de um verdadeiro campeonato estadual. Segundo o autor, a recusa da APEA em aceitar outros clubes em seu campeonato estaria causando um retrocesso no futebol paulista, graças aos clubes da capital, tratados como “estacionários”.

Já é tempo de cuidarmos de um campeonato de mais vulto. O campeonato da cidade não satisfaz, porque, além de impor preterições odiosas, arrefece o estímulo e consolida o prestígio de grêmios estacionários. Os clubes das zonas agrícolas têm de ser chamados para colaborar na obra comum. Não se compreende que somente duas ou três sociedades gozem de prerrogativas excepcionais perante a [APEA]. […]
É fato que existe o campeonato do Interior, disputado todos os anos, com relativa regularidade. Que vale esse certame, se os seus vencedores não são chamados a representar um papel de maior evidência? Eles ganham pontos, troféus e alguma fama; porém o seu progresso é emperrado, porque não se lhes proporciona oportunidade para se medir com os considerados “invictos” da Capital. […]
Alguns [clubes do Interior] tentaram manifestar a sua intenção [de disputar o campeonato da cidade], metendo empenhos para sair da obscuridade. Intenção que não se lhes afigurava um absurdo, à vista dos precedentes. Infelizmente, eles foram contrariados por todos que se congregaram à volta da entidade diretora. Repelindo os clubes novos, como se tem feito até agora, o futebol do estado só tende a retroceder. […]
Concordamos que a [APEA], no começo, não podia ir além de certos limites. Porém, hoje ela estendeu a sua influência. Tanto assim que filia clubes de todo o território paulista e organiza campeonatos de zonas, de que participam esportistas de vários municípios. Se filia e inscreve clubes de todo o estado, se é a única autoridade reconhecida pela Confederação [Brasileira de Desportos], está no dever de promover, todos os anos, um torneio de maiores proporções.

Essa sugestão, claro, não foi acatada e também não impediu que o Santos protagonizasse outro w.o. contra seu rival citadino, logo na primeira rodada do returno. Os santistas ainda não sabiam, mas os dois pontos que cederam de graça ao adversário acabariam sendo custosos, pois o São Paulo terminaria o torneio com o título, obtendo justamente dois pontos de vantagem sobre o Santos e o Palestra Itália — não que o Atlético Santista fosse uma garantia de vitória para quem o enfrentava, já que terminou o campeonato numa honrosa quarta colocação, à frente de Portuguesa e Corinthians, e, jogando em casa, empatou com o São Paulo (1 a 1) e derrotou o Palestra Itália (3 a 1).

O campeonato de 1932 não teve tal polêmica, pois, interrompido pela Revolução Constitucionalista, não passou de um turno, e a única partida entre Santos e Atlético teve mando santista. Foi o último campeonato de que o Atlético participou. A má campanha, somada aos gastos para os jogos na Capital, fez com que os sócios optassem pelo fim do time de futebol, passando a dedicar-se a esportes amadores. Como o Guarani já tinha desistido da competição em 1932, o Santos voltou a ser o único clube além-limites da cidade.

Essa situação perdurou até 1935, quando uma nova cisão gerou convites para o Espanha e à Portuguesa Santista, filiados à recém criada Liga Paulista de Futebol. A desfigurada APEA, que tinha perdido Corinthians, Palestra Itália e Santos, prosseguiu com a Portuguesa e o Ypiranga, além de clubes de menor expressão, como o São Caetano Esporte Clube, que só tem o nome e a cidade-sede em comum com o São Caetano atual.

A APEA foi dissolvida no fim de 1936, e o número de participantes do campeonato finalmente teve alguma regularidade a partir de então. Dez clubes participaram do torneio de 1937: Corinthians, Espanha, Estudantes, Juventus, Luzitano, Palestra Itália, Portuguesa Santista, Santos, São Paulo e São Paulo Railway (o atual Nacional). No ano seguinte, o Estudantes deixou o torneio, e foram adicionados Portuguesa e Ypiranga, remanescentes da APEA. Para 1939, o Comercial paulistano substituiu o Luzitano, e os onze participantes foram os mesmos pelas dez temporadas seguintes: oito clubes da Capital e três de Santos.

A novidade em 1948 foi a criação da Lei de Acesso que, permitiria que o campeão da segunda divisão naquele ano subisse para a primeira divisão em 1949. O XV de Piracicaba foi o primeiro clube a se beneficiar da lei. No primeiro ano, nenhum clube caiu, deixando o torneio com doze equipes, mas, a partir de 1949, começou a ser feito o “rodízio” que de fato transformou o antigo Campeonato da Cidade no atual Campeonato Paulista.