A Filha da Índia que é Filha do Mundo inteiro

O estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro há duas semanas, 21 e 22 de maio, chamou atenção não apenas da população brasileira — onde crimes semelhantes acontecem com frequência lamentável — como também chocou o mundo. Casos de estupro coletivo cometidos contra mulheres infelizmente são comuns em alguns países, podendo ser realizado até mesmo como pena contra algum ato considerado inapropriado pela sociedade. Outro caso de estupro coletivo que mobilizou todo um país e teve repercussão mundial, foi o caso da indiana Jyoti Singh.

Jyoti Singh, estudante de medicina de 23 anos, foi estuprada e espancada em 16 de dezembro de 2012 por 6 homens. O grupo era formado por amigos que viviam em uma área pobre de Nova Déli e um deles era menor de idade. Eles espancaram o amigo de Jyoti que a acompanhava depois de terem ido ao cinema. Era noite, mas não muito tarde, o crime aconteceu por volta das 20 horas, de acordo com imagens de um hotel à beira da estrada que filmou o ônibus passando pelo mesmo ponto duas vezes. A mulher foi atacada com uma barra de ferro e o ataque foi brutal. Após o ataque, Jyoti foi deixada na rua e apesar de ter sido socorrida, não resistiu aos ferimentos graves e morreu 12 dias depois em um hospital em Cingapura.

A Filha da Índia ainda mostra gravações das manifestações que duraram cerca de um mês em todo o país e aconteceram em repúdio ao caso e contra à violência sexual exacerbada no país. Um dia após o crime, milhares de pessoas foram as ruas em protesto a situação de banalização do estupro de mulheres na Índia. Apesar da tentativa da polícia de reprimir as manifestações, fazendo uso de bombas de efeito moral e jatos de água, a população continuou gritando nas ruas e exigindo que a situação de estupro fosse combatida na Índia. Os manifestantes também exigiam pena de morte para os estupradores.

O caso teve sequência com a condenação com pena de morte para 4 dos estupradores. O agressor que à época era menor de idade foi condenado a 3 anos de reclusão, maior pena possível para crimes cometidos por menores. O sexto agressor teria cometido suicídio na prisão, de acordo com a polícia.

Um ano após o crime foi produzido um relatório que propõe formas mais específicas de combate à violência contra a mulher. O relatório produzido pela Comissão de Verma, inclui punições mais severas para estupro e crimes de violência sexual, principalmente os que tem como desfecho feminicídio. Além disso, o protocolo de atendimento policial e médico foi alterado para melhor acolhimento das vítimas e, outra mudança importante foi a fixação do matrimônio que deve ocorrer na frente de um magistrado e ser consensual.

O filme foi lançado no Brasil em setembro de 2015, quando contou com uma visita da diretora à São Paulo, no entanto, nunca entrou em exibição nos cinemas do país. Entretanto, faz parte da campanha sobre direito de mulheres, “Quanto Custa a Violência Sexual Contra Meninas?”, que estima um total de 500 mil mulheres estupradas todo ano no Brasil. O filme pode ser assistido na Netflix ou em exibições do circuito independente. Através dessa plataforma, é possível organizar exibições.

O documentário assim como as notícias frequentes de casos de violência contra a mulher, vem nos alertar para a necessidade de combate urgente à violência de gênero. Dentro de uma sociedade aonde a mulher é pensada como alguém que deve apenas servir à família, não é inacreditável que vejamos crimes tão violentos e tão marcados com esse semblante de posse do corpo feminino pelo homem. Ainda mais se uma mulher foge a esses padrões e resolve ser dona de si e construir algo seu, especialmente se essa construção envolver pensamento crítico e conhecimento. O destino esperado é de que ela seja vista com maus olhos e como alguém que merece ser punida por seu comportamento.

Os criminosos não eram “monstros”, “doentes” ou “pervertidos”, eles eram assim como Jyoti, filhos de uma sociedade que inferioriza e desconsidera a mulher e onde há extrema tolerância a violência contra mulher. No documentário, um dos criminosos, Makesh Singh, se mostrou muito indignado pelo condenação do grupo, já que estupros acontecem com muita frequência no país e raros casos são condenados, especialmente com uma pena tão pesada como a morte. Ele ainda culpabilizou a vítima e disse acreditar que ela merecia ser punida devido ao seu comportamento de estar fora de casa em um horário considerado inapropriado. Makesh relatou que apenas conduzia a lotação durante o crime, não tendo participado do estupro ativamente.

Estupros na Índia não costumam ser condenados com penas de morte, entretanto, devido a forte manifestação popular e a pressão exercida pelo alcance mundial que o caso teve, a justiça indiana puniu os agressores de forma a fazer deles um exemplo, tanto para coibir casos como o ocorrido, quanto para satisfazer a população que esperava por uma resposta firme.

O filme ainda conta com a participação dos advogados dos agressores e de figuras públicas que lutam por direitos das mulheres. Os advogados dos criminosos justificam os atos cometidos contra a vítima e dizem não haver lugar para mulheres em sua cultura. Já as figuras públicas e a família da vítima demonstram no documentário seu desespero perante a urgência em punir casos de estupro na Índia.

Apesar de todo o enfoque dado ao caso de Jyoti, crimes sexuais extremamente violentos contra mulheres continuam ocorrendo a todo momento na Índia. As mulheres são violentadas por grupos por terem se apaixonado pelo “homem errado”, por serem turistas desacompanhadas, por denunciarem seus estupradores, por serem dalits, por estarem sozinhas em casa, por procurarem por um parente desaparecido. Por serem mulheres, apenas. Ser mulher é motivo suficiente para ser violada por um grupo de homens que acredita ter posse sobre o corpo e a vida de toda e qualquer mulher.

Jyoti, assim como eu, assim como muitas mulheres jovens, decidiu viver o seu sonho. Ela que estudava durante o dia e trabalhava durante a madrugada para pagar os seus estudos, apenas precisava terminar o estágio para que concluísse a faculdade de medicina. Jyoti, assim como eu, teve o apoio de seus pais que sonharam do seu sonho. E assim como toda mulher jovem que tem muitos deveres e tarefas a cumprir, se deu o direito de um momento de prazer inocente. Entretanto a película lhe custou caro. O filme? As Aventuras de Pi.

O desejo que arde no peito de todas as mulheres que bradam contra violência de gênero é um só: Que ninguém mais tenha medo de sofrer violência por apenas ser mulher. Pois independentemente da cautela, toda mulher que se joga no mundo e não se deixa ser aprisionada por uma cultura que não a considera, sente medo, muito medo, medo o tempo todo. E não é para menos, a cada 20 minutos uma mulher é estuprada na Índia e, a cada 11 no Brasil.

“Diga não ao estupro.”
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