A ignorância nunca foi uma dádiva para Edward Snowden

Oliver Stone e Gordon-Levitt contam a história de um herói-traidor para o mundo.

Está em cartaz pelos cinemas a espetacular história de Edward Snowden, o protagonista de um dos maiores vazamentos de documentos de inteligência sigilosos, que ficou conhecido em 2013 como o WikiLeaks e que até hoje é capaz de gerar desdobramentos, 3 anos depois. Uma verdadeira tsunami midiática.

O método e o diretor

Oliver Stone, o diretor do longa.

Oliver Stone sabe contar histórias. É um nome consagrado em Hollywood por títulos inesquecíveis como Platoon(1986), JFK(1991), Born on the Fourth of July(1989) e tem experiência com biografias de figuras polêmicas, assim como ele, que sempre traz pra seus filmes visões declaradas políticas pessoais.

Em Snowden(2016) ele usa um método interessante para contar a história do protagonista. Ele começa o filme com Ed no limiar de jogar tudo no ventilador, conta todo seu processo até lá e termina o filme de onde começou, avançando com a história até seus desobramentos finais. Usa muito a narrativa em off do próprio Ed e todos seus ângulos/jogos de câmera não ortodoxos que são sua marca registrada como cineasta. Tudo isso contribui para uma história que já seria interessante por si só.

A história real

Heroi ou Traidor?

A história revelada por Stone é a de um americano que era genial com todos seus códigos de programação de segurança e que aos 29 anos alcançou cargos respeitáveis dentro dos complexos sistemas de segurança do governo americano na NSA e na CIA.

Acontece que Edward Snowden era uma pessoa de princípios que, quando os via sendo violados, não costumava ficar parado. Ele se viu participando de um enorme sistema de vigilância que utilizava o terrorismo como grande desculpa para perpetuar um domínio econômico e social dos EUA sobre outros grande países, dentre eles o Brasil ,que era um dos que mais sofria com a espionagem americana. O filme nos passa uma sensação assustadora de que todos os nossos dados estão sob domínio do governo americano, sem que eles façam qualquer esforço pra isso.

Não há quase limite algum para os serviços de inteligência norte-americanos, o que para Snowden era algo muito grave para ser justificado apenas como uma questão de domínio necessário, de paz forçada e de segurança nacional anti-terrorismo. Ele queria que o mundo visse o que estava rolando e que o mundo decidisse aquilo tudo. Como ele disse na vida real e o filme mostrou bem, ele achava que havia rolado um acordo, só que nesse acordo todas as pessoas foram esquecidas propositalmente de participarem. E mais, ele queria que as pessoas decidissem se ele era um heroi, um traidor ou ambas as coisas. O episódio ficou marcado como WikiLeaks e até hoje reserva desdobramentos para grandes figuras políticas a nível mundial.

Um exemplo claro do episódio foi o congelamento/enfraquecimento das relações Brasil e EUA nas figuras de Dilma e Obama graças a ciência do governo brasileiro de que nosso país era praticamente uma filial dos EUA em termos de inteligência. Não havia nenhuma independência brasileira quanto a isso. Isso é apenas um milésimo da Tsunami que esse geek causou.

Críticas ao filme e vida pessoal

Snowden e Lindsay

A vida profissional e a vida pessoal de Snowden sofrem altos e baixos marcantes e o filme resolveu tratar disso com uma importância maior do que a necessária. Na visão de muitos críticos, a qual compartilho, a real história deveria ter sido mais desmembrada e muito tempo foi perdido com desdobramentos da vida pessoal de Snowden, traduzida no filme pelo relacionamento conturbado entre Ed e Lindsay(Shailene Woodley, sempre carismática e muito talentosa). Não é que tenha sido uma parte ruim do filme, é até muito divertida e o casal mostra uma química apreciável. A crítica aqui é que por melhor que tenha sido, estava lá a retirar espaço para maiores explicações de uma história com proporções mega. É algo a se refletir.

Gordon-Levitt

Edward Snowden não representa a mesma dificuldade de personificação quando comparado a um Steve Jobs ou a um Stephen Hawking, por não ter sido uma pessoa tão pública assim, de trejeitos tão identificáveis. Entretanto, podemos dizer que a interpretação de Gordon-Levitt é, mais uma vez, no mínimo precisa. O rapaz ganha cada vez mais espaço em Hollywood, sai certamente engrandecido desse papel.

A meteórica aparição de Donald Trump

Como será colocado mais adiante, o filme jamais tenta por a dúvida no espectador para saber se Snowden é um heroi ou não. Ele nos dá uma versão heroica do americano o tempo todo. E coloca uma aparição meteórica de Trump declarando para uma TV americana ao vivo que o americano poderia ser executado. Não era segredo para ninguém que Stone apoiava Hillary, que também aparece no filme de maneira muito menos nociva. Tirem suas próprias conclusões, mas esse é o novo presidente eleito americano.

A música

O astro do rock americano Peter Gabriel fez uma música para o filme e para Snowden. De quebra, a música é absolutamente espetacular, na letra, no ritmo e na melodia. É ela que toca pós/durante o fechamento do filme.

Link dela logo abaixo:

Heroi ou Traidor?

Talvez o filme tenha pecado por nos dar ele sua versão e sua opinião sobre Ed. O próprio filme diz que a intenção de Snowden era sempre que as pessoas decidissem elas mesmas para julgá-lo nessa história. Não sei se posso chamar de manipulação. O fato é que o filme cativa e convence que Edward é um libertador. Um cara que ignorou patriotismos cegos buscando o que era certo para ele e para os direitos fundamentais humanos.

Até hoje ele paga pelo que fez, já que vive em Moscou com a esposa. Até hoje muitos americanos o consideram um traidor completo, por ter roubado informações sigilosas de dentro do governo.

Vocês tirem suas próprias conclusões, mas uma coisa é certa: Esse cara nunca acreditou que a ignorância é uma dádiva. Esse cara foi extremamente esperto e corajoso por ainda estar vivo. Esse cara fez o que acreditava ser feito fazer. Pode ou não pode ser um traidor, é uma boa discussão. Mas, o filme convence que nada tira desse cara um heroísmo. No mínimo é um heroi-traidor, com a licença da invenção.

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