A Nova Marvel de Doutor Estranho

Diferente de todos os anteriores filmes do Universo Cinematográfico da Marvel, Doutor Estranho se destaca por fugir daquilo que define seus antecessores, ser um filme de super-herói. Além dos efeitos incríveis e suas sequências caleidoscópicas, é notável que apenas, com mais da metade do filme, exista qualquer menção para a existência de um papel de mocinho. Trazendo o grande lema da Casa das Ideias desde da era de Stan Lee, o novo longa da empresa é um filme sobre a pessoa por trás da máscara e não apenas seu alter-ego poderoso.

Como uma boa história de introdução, Doutor Estranho é capaz de criar um personagem que poderíamos ver no mundo real. Com uma consultoria médica que invejaria os produtores de Luke Cage, o filme traz o ambiente hospitalar com naturalidade e precisão. É nesse contexto que conhecemos Stephen Strange, um neurocirurgião arrogante e prepotente que poderia facilmente ser um velho amigo do amado Tony Stark. Entretanto, nem tudo pode ser perfeito. Sofrendo um acidente, Stephen acaba com sequelas graves em suas mãos, impedindo-o de seguir em sua profissão. Desesperado com a ideia de perder seu talento que lhe torna único, nosso protagonista beira a loucura buscando tratamentos alternativos até descobrir o templo de Karma Taj, onde mesmo paraplégicos teriam voltado a andar.

Assim, Stephen Strange começa sua jornada para a cura física e espiritual, lembrando em parte a busca por conhecimento pessoal narrada em Batman Begins. Conhecendo a anciã, vivida por Tilda Swinton, somos apresentados a uma extensa gama de universos e dimensões que parecem ter saído de uma mente inundada por LSD. Apesar de parecer uma viagem complexa e louca, Doutor Estranho consegue fazer com que seu público entenda perfeitamente o conceito do Multiverso, ainda não introduzido no Universo Cinematográfico da Marvel. Isso é possível pela narração gráfica excepcional que é livremente inspirada nos quadrinhos originais de Stan Lee e Steve Ditko. Em meio a toda essa psicodelia visual, é impossível não lembrarmos das belas sequência vistas em A Origem e em 2001: Uma Odisseia no Espaço.

Outro ponto essencial para o sucesso do filme é a escolha de possivelmente o melhor elenco em um filme de introdução da Marvel. Além das brilhantes atuações de Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton nos personagens centrais, todo o elenco de apoio torna a produção impecável. Vivendo o antagonista, Mads Mikkelsen é um exemplo de atuação mínima e precisa. Mesmo com pouco tempo de tela, somos capazes de entender sua motivação sem que seja necessário recorrer para os odiados monólogos entre o mocinho e o vilão. Entretanto, devemos destacar a atuação de Rachel McAdams. Com um papel terciário, foi capaz de criar um lado mais humano e compreensível em Stephen Strange, apesar do romance criado entre seus personagens beirar o cliché. Ainda contamos com a participação de Chiwetel Ejiofor e Benedict Wong, conhecidos por seus respectivos papéis em 12 Anos de Escravidão e Marco Polo.

Infelizmente, a Casa das Ideias não consegue acertar em todos os quesitos. A empresa cai mais uma vez em velhos preconceitos, ao mudar o personagem do Ancião, um velho mestre asiático, para o padrão estético branco europeu, como o de Tilda Swinton. Apesar de sua atuação excelente, a prática de “whitewashing”, que ocorre quando uma personagem de outra etnia é substituída por um representante branco, contribui para que a pequena presença de asiáticos na Marvel seja ainda menor. É inegável que a empresa tem tomado atitudes para diminuir a desigualdade de gênero muito presente no mundo dos quadrinhos, como ao selecionar uma composição de diretoras mulheres para a segunda temporada de Jessica Jones. Todavia, quando algumas práticas antigas ainda existem, devemos questionar se essas mudanças tem uma intenção moral ou uma puramente oportunista?

De um modo geral, o longa é um bom passo na direção de produções melhores por parte da Casa das Ideias. Sendo apenas o segundo filme da Fase 3 da Marvel, Doutor Estranho tem um clima muito diferente dos demais. Além da qualidade técnica e o teor místico, sua maior distinção é conciliar o humor leve dos filmes de super-heróis com uma profundidade e seriedade de dramas mais adultos. Com uma narrativa que pouco interfere no mundo dos Vingadores e de outros personagens sem utilizar destruições globais irreversíveis, seu grande acerto é se manter pequeno.