A Qualquer Custo: um Clássico Moderno

Em meados do mês de Agosto de 2016 o diretor David Mackenzie lançou o despretensioso A Qualquer Custo. O filme não é uma mega produção e nem foi lançado mirando nas premiações, porém o drama texano parece ter caído nas graças na academia. A qualidade técnica da filmagem e das atuações acabou rendendo quatro indicações para o Oscar: melhor filme, melhor edição, melhor roteiro original, além de melhor ator coadjuvante para Jeff Bridges.

A Qualquer Custo conta a história de dois irmãos que roubam bancos para financiar a papelada da herança que o próprio banco cobra. Enquanto isso, uma dupla de policiais está investigando os roubos. A estrutura da história é o velho conhecido gato-rato que, aliado à elementos clássicos de Western, funciona muito bem.

Uma das coisas mais interessantes da trama são as interações das duplas. Os irmãos Toby (Chris Pine) e Howard (Ben Foster) tem uma relação complexa de amor fraternal. Howard é um sociopata capaz de colocar medo em qualquer um, enquanto Toby é um personagem com senso de moralidade e que se sente mal fazendo tudo aquilo. Os policiais Hamilton (Jeff Bridges) e Parker (Gill Birminghan) tem uma relação de mestre e pupilo. O roteiro sabe explorar muito bem a comparação dessas amizades que, mesmo sendo diferentes, são semelhantes em essência. É importante notar que isso só ganha peso por conta das excelentes atuações. Todos estão bem no filme e, ainda assim, Jeff Bridges consegue se destacar com uma atuação brilhante, sendo merecidamente indicado.

Assim como “La La Land”, o diretor faz uma espécie de homenagem misturado com atualização de um gênero clássico. O filme se passa nos dias atuais, mas não dispensa os clichês do Velho-Oeste. O xerife mandão, herói com moralidade duvidosa, anti-herói, o “bar”, todos esse elementos estão presentes. Mesmo sendo bem interessante essa brincadeira com os símbolos, o excesso de homenagens causa um tipo de engessamento na trama, que parece não evoluir tanto quanto o filme merecia.

A fotografia e ambientação são pontos que também merecem destaque. Apesar de ser filmado no Novo México, acreditamos que toda aquela trama está se passando no Texas. A fotografia é tão quente que passa a sensação de calor e secura para o espectador. O diretor foi bastante corajoso ao mostrar uma faceta americana que nem sempre estamos acostumados a ver no cinema, uma América preconceituosa e conservadora. Alguns personagens tem uma discurso xenofóbico, principalmente contra os latinos, impossível de dissociar da eleição do presidente Trump.

Mesmo com alguns problemas de ritmo e de trama, é um filme excelente. O espelho narrativo entre as duplas é um dos fatores mais interessantes, o velho e o novo, o rebelde e o conservador, que no fundo são muito parecidos. A américa retratada chega a machucar o espectador, porém é muito real. Acima de tudo, em tempos de Trump e de polaridade extrema, “A Qualquer Custo” é um filme necessário.

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