A reciclagem de “The Birth of a Nation”

Em 1915, chegou aos cinemas norte-americanos o clássico filme “O Nascimento de uma Nação”, do diretor D.W. Griffith, espalhando uma mensagem bem controvertida para as plateias do país. O filme faz uma forte propaganda para a Klu Klux Klan e ajudou a impulsionar a proliferação destes grupos racistas radicais no país. O resultado foi o fortalecimento do discurso da supremacia branca e o agravamento dos ataques a negros que no início do século XX ainda eram violentamente privados da maioria dos seus direitos civis.

Agora, 100 anos depois, chegou a hora de apagar essa mancha na história do cinema norte-americano. Desde 2009, Nate Parker, ainda figurinha nova nos cinemas, trabalha para adaptar a história de Nat Turner, um escravo negro que liderou uma grande rebelião no sul dos Estados Unidos, provocando a morte de dezenas de brancos donos de escravos. Com extremas dificuldades para vender o filme — basicamente pelo fato de estúdios recusarem um filme com protagonista negro já que esse tipo de obra não costuma vender bem internacionalmente — , Nate Parker conseguiu reunir 11 grupos de investidores para compôr a caixa de U$ 10 milhões para rodar o filme e o projeto saiu do papel 6 anos depois, em 2015.

Escrito, produzido, dirigido e protagonizado por Nate Parker, “The Birth of a Nation” foi exibido pela primeira vez no Festival de Sundance deste ano, o grande festival dos filmes independentes e um dos mais importantes da sétima arte, e a recepção foi extremamente positiva. O filme foi o maior vencedor do Festival, levando os prêmios de Melhor Filme do Grande Júri e do Público. O filme chega aos cinemas brasileiros no dia 26 de janeiro de 2017, mas os cariocas devem ter a chance de assisti-lo mais cedo no Festival do Rio, em setembro.

Nate Parker fez questão de utilizar o mesmo título do filme racista de D. W. Griffith de 1915. “O Nascimento de uma Nação” não só é um dos filmes mais celebrados do cinema, como foi um dos pilares sobre os quais a super-poderosa indústria cinematográfica norte-americana se ergueu. A ironia em usar o mesmo título para retratar uma rebelião de escravos nos tempos sombrios da história dos Estados Unidos carrega uma mensagem que chega com conveniência para o país nesse momento. Em meio a protestos do “Black Live Matters”, um filme que empodere os afro-descendentes para combater o racismo cairá bem e os lembrará que essa luta não é nova e que muitos já entregaram suas vidas para mudar essa realidade.

Além disso, o filme também ganha importância pelo seu contexto histórico. “Aqueles que não podem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo” é a frase hoje estampada na entrada do Museu de Auschwitz, escrita por George Santanya. Ao contrário dos alemães, os norte-americanos enterraram a sua história e dificilmente assumem que sua nação foi formada em cima de um genocídio indígena e da exploração de mão-de-obra escrava. Apenas ano passado foi inaugurado o primeiro museu de história negra nos Estados Unidos, para lembrar a memória da escravidão. Assim como “12 Anos de Escravidão”, filmes como “The Birth of a Nation” servem para lembrar os horrores da história e marcar na memória das jovens gerações que eventos como aquele nunca poderão voltar a acontecer.

Por último, esse filme também deverá chacoalhar o cinema norte-americano, principalmente a Academia. Depois de dois anos seguidos sendo acusados de racismo por não indicar negros e produções negras para nenhum Oscar, essa poderá ser a chance de colocar essas produções de volta ao páreo. O filme teve um excelente desempenho no Festival de Sundance e pelo trailer já podemos ver que o filme vai ser bom. Além do fato de que filmes como esse merecem a publicidade que os indicados ao Oscar geralmente recebem, uma indicação traria de novo os holofotes merecidos para os filmes independentes que tem se destacado pela sua qualidade, apesar de não ter o apoio de grandes estúdios. O cinema só tem a ganhar.

“The Birth of a Nation” chega com o objetivo de reciclar a história e questionar a atemporalidade dada a clássicos como “O Nascimento de uma nação” que, apesar de ser sacralizado como uma das mais importantes obras do cinema, é feito em cima de uma temática racista e já rechaçada pelos avanços dos direitos humanos na sociedade global. Uma das mais eficazes formas de combater o racismo é o reconhecimento dos erros de nossa sociedade para assim criarmos uma consciência coletiva capaz de impedir seus reflexos no futuro. Precisamos de mais obras como essa que elucidam o passado e relembrem as futuras gerações das atrocidades que o ser humano foi capaz de cometer.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Rafael Barreto’s story.