Assassin’s Creed e o real significado de uma péssima adaptação

Se você conhece a série de jogos, talvez o título pareça um enorme engano. Entretanto, é preciso mais que apenas a presença de certos elementos do material original para que um filme seja considerado uma boa adaptação.

Mesmo sendo quase uma repetição do enredo do primeiro jogo da franquia, Assassin’s Creed não consegue representar todo o clima vivido pelos jogadores. No longa, temos Callum Lynch (Michael Fassbender) no lugar de Desmond Miles, conhecido pelos fãs do jogo. O filme narra a história do nosso protagonista que troca o corredor da morte por uma estadia não voluntária no centro de pesquisas Abstergo, uma das sedes da ordem dos Templários. Nesse momento, descobrimos que Callum é descendente direto de um dos maiores nomes da ordem dos Assassinos e um dos últimos a ter em mãos a Maçã do Éden, artefato que contém todo o conhecimento sobre o livre arbítrio humano. Utilizando o dispositivo Animus, ele é capaz de rever as memórias do seu antepassado e descobrir o paradeiro desse poderoso item. Perdido no meio dessa rivalidade de facções, nosso protagonista precisa decidir se deve seguir o Credo de sua família mesmo que isso signifique participar de uma seita que foi responsável pela morte de sua mãe.

Essa “grande mudança” foi o motivo para a Ubisoft, empresa produtora do jogo, afirmar que o filme revolucionaria o gênero de adaptações. Infelizmente, trazer um novo nome para uma história repetida não garante uma verdadeira inovação. Do ponto de vista cinematográfico, o longa tem pouco a acrescentar, destacando-se principalmente nas ambientações históricas precisas. Outro ponto alto de Assassin’s Creed é o seu elenco renomado, formado por dois vencedores do prêmio de Melhor Ator/Atriz do Oscar, Marion Cotillard e Jeremy Irons, e por Michael Fassbender, o conturbado e talentoso queridinho da América.

Além da falta de um elemento revolucionário prometido, o modo que a divisão entre as cenas do passado e presente é feita, torna o filme confuso e pouco imersivo. Com transições abruptas marcadas por uma trilha sonora carregada e não harmônica, a sensação de viver em outra época nunca é verdadeiramente alcançada, diferentemente da experiência dos jogadores da franquia.

Apesar disso, as cenas de ação do longa trazem a maior proximidade com o modo de funcionamento dos Assassinos nos jogos. Fazendo uso do aspecto de furtividade e das acrobacias nos telhados da cidade, o filme consegue nos lembrar de diversos momentos de gameplay. Além disso, as quedas e as imperfeições nos feitos incríveis dos Assassinos consegue trazer um aspecto real e humano. Entretanto, o exagero em tornar o Animus uma mistura entre um touro mecânico gigante e um cinema holográfico gera questionamentos sobre a lógica de alguns elementos do longa. De fato, a visualização de uma cadeira como retratado no jogo não cria grande entusiasmo no espectador, mas poderia resultar em maior imersão nas cenas do passado sem a necessidade de mostrar uma projeção confusa em uma sala escura e misteriosa…

Talvez o grande fracasso do filme esteja justamente em seu enredo. Vivendo em um mundo que escolheu não fazer parte desde a morte de sua mãe, o filme não consegue nos convencer das reais motivações de Callum em sua jornada. Mais inquietante ainda é a explicação pouco aprofundada para o conhecimento presente na Maçã do Éden e a falta de uma demonstração de poder desse artefato, tornando a “ameaça iminente” pouco crível e palpável.

A grande revolução dos filmes baseados em jogos não ocorreu dessa vez, mas pode ser o início de uma das maiores franquias do gênero. Podemos apenas esperar e torcer.

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