Mais um para a conta

Não há dúvidas que Woody Allen é um dos maiores ícones do cinema. O diretor e roteirista de 80 anos é recordista de indicações ao Oscar e tem uma legião enorme de fãs que admiram a sua assinatura única em seus roteiros. Raramente um filme do nova-iorquino decepciona. Mesmo que alguns sejam meio fracos, seus filmes ainda assim preservam as suas características principais e fazem com que o ingresso não seja dinheiro jogado fora.

Desde que começou a fazer cinema, lá no início da década de 70, o diretor manteve a impressionante façanha de lançar um filme por ano, todos escritos por ele. Um hábito desses que consiga manter um certo nível de qualidade é algo muito difícil de se atingir, mas com personalidade, Woody Allen conseguiu driblar as críticas, fazendo com que seus filmes sejam assistidos apenas com o peso de seu nome. Mas é claro que, com essa carga de trabalho intelectual, algumas obras não ficarão tão boas. Esse é o caso do seu trabalho mais recente, “Café Society”.

Existem algumas fases bem nítidas da longa carreira de Woody Allen e, aparentemente, uma nova fase começou com seus últimos 3 filmes. Nessa nova parte, o diretor assumiu uma posição um pouco saudosista, fazendo filmes levemente cômicos que não irão marcar sua história como grandes obras, mas serão usados para puro entretenimento e distração. “Café Society” é mais um filme que passará batido, mas que vai servir para tapar o buraco daquela tarde chuvosa sem nada para fazer.

O filme distrai, mas tem dois aspectos que incomodam um pouco. O primeiro é um roteiro que, por mais que tenha o selo de qualidade Woody Allen, conta uma história vazia que leva nada a lugar nenhum. É uma história bobinha sem a profundidade que esperamos do diretor, mas que pelo menos não perde as oportunidades de nos presentear com o seu humor inteligente quando é conveniente.

O segundo ponto foi a escolha fraca do elenco. Os atores agraciados com o privilégio de trabalhar com Woody Allen esse ano trabalharam com competência, mas não se encaixaram nos personagens selecionados. Jesse Eisenberg poderia ser um grande intérprete dos clássicos protagonistas dos filmes do diretor, mas a sua irritante falta de carisma o impede de voar tão alto. Kristen Stewart foi a musa eleita da vez, mas pelos mesmos motivos de Eisenberg, ficou completamente desajustada em seu papel. O que mais sofre, e dessa vez sem culpa, é Steve Carell, chamado de última hora para substituir Bruce Willis, que abandonou o projeto. Foi uma substituição que não funcionou muito bem, já que o papel interpretado por Carell cairia como uma luva em Willis, que tem pouquíssimas características em comum com o eterno Michael Scott.

O filme mata aquela saudade anual que temos do diretor, mas infelizmente não temos a chance de ver Woody Allen no brilho. É bem possível que não voltaremos a vê-lo já que o cineasta já está ficando velho e a aposentadoria não parece estar tão distante. No entanto, nem tudo está perdido. No final do mês teremos a chance de ver a estréia do diretor na nova era da televisão. No dia 30, Woody Allen lançará a série “Crisis in six scenes”, produzido pela Amazon, em que ele atua, escreve e dirige. Já tem trailer na internet e, pelo que podemos ver, talvez seja aqui que nos reencontraremos com o bom e velho Woody Allen.

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