Moonlight — O filme que vai colocar a Academia contra a parede

Vocês realmente vão premiar La La Land?

Apesar disso aqui ser uma página de homenagem à cultura pop, sabemos que cinema não é só diversão. Não é só entretenimento. Cinema pode sim te bajular por quase 3 horas com um musical otimista e colorido, mas no fim da sessão a realidade inunda a sala de projeção e num estalar de dedos acaba essa magia anestésica única da sétima arte. Assim como ele te distrai, o cinema serve também pra te chacoalhar e pregar seus pés no chão e essa é a sua função mais relevante. Cinema raiz.

Dito isso, escrever sobre Moonlight não é a tarefa mais fácil. Aqui do alto dos meus injustos privilégios históricos e sociais, me cabe apenas raspar a superfície de um filme com temática tão profunda que somente alguém mais qualificado conseguiria escavar. Mas vamos lá.

O filme que poderá remotamente vencer La La Land na categoria de Melhor Filme, conta a história de Chiron, um jovem negro do subúrbio de Miami, em 3 diferentes momentos marcantes de sua vida, 3 calvários na via crucis do autoconhecimento. No entanto, com todos os obstáculos que a vida de Chiron lhe impõe, sua maior dificuldade será ser ele mesmo e não o que querem que ele seja.

Apesar de muito bonito, o filme é brutal. A solidão da sexualidade e o sufocamento da comunidade são os 2 pilares principais que sustentam o filme. A direção desencontrada impecável de Barry Jenkins, com desfoques e jogos de câmera rotativos, ajuda a passar essa impressão de confusão e desconforto do protagonista com o ambiente que vive.

Os 3 momentos do filme são muito bem construídos. O primeiro, “Little”, quando criança, mostra seu desconhecimento de quem ele é, lidando com a mãe viciada em crack e cuja ajuda do traficante Juan é fundamental. O segundo, “Chiron”, já o mostra adolescente, sofrendo bullying e mostrando o conflito entre sua identidade própria e aquela exigida pela comunidade em que vive. O terceiro, “Black”, já aborda um Chiron calejado, assumindo uma faceta confortável, mas falaciosa, uma tática de sobrevivência social, mas completamente deturpada e prejudicial.

O filme atenta para a questão da opressão de uma sociedade racista e machista que sufoca, impondo obstáculos e rótulos ao homossexual negro nos Estados Unidos, impedindo-o de ser quem realmente é. Essa prisão subjetiva e padronizada causa os mais diversos efeitos na vida de Chiron. As opções que lhe restam parecem ser sintomáticas de uma sociedade racista, como o encarceramento e a marginalização.

A direção e a fotografia do filme são um show à parte. Sem dúvidas, a fotografia mais bonita entre os indicados. Barry Jenkins, que também assina o roteiro, faz da sua câmera um tornado, com takes nervosos e impacientes, tornando real a atmosfera opressora em torno do protagonista.

Além da direção absurda, há um certo estranhamento acerca dos atores indicados neste Oscar. Naomi Harris e Mahershala Ali, favorito ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, justificam suas indicações. As demais atuações, principalmente dos atores que interpretam Chiron, bizarramente não foram reconhecidas pela Academia. Todo o elenco, composto apenas por atores negros, merecia ganhar um caminhão de Oscars. É definitivamente uma das maiores qualidades do filme.

Duas coisas breves não podem ficar fora de um post sobre Moonlight: a primeira é a trilha sonora dramática e impecável do filme que consegue ainda achar um espacinho pra colocar uma música do Caetano Veloso. A segunda é a cena final do filme, uma das mais bonitas que veremos esse ano, que coroa essa obra-prima com uma beleza sutil danada.

Depois de assistir a esse impactante e relevante filme, que trata de um assunto tão delicado como a posição de uma minoria dentro de uma minoria, ficará difícil de engolir e não sentir vergonha da provável consagração de La La Land como o Melhor Filme de 2016, sem tirar qualquer mérito. O otimismo de La La Land, um filme completamente oposto ~mais branco impossível~, bate de frente violentamente com a pertinência atual de Moonlight. Realmente, a Academia vai ter que fazer uma escolha duríssima.

A temática do autoconhecimento é das mais comuns no cinema e literatura, mas geralmente quem percorre essa jornada costuma ter total liberdade para isso. O filme deixa claro que nem todo mundo tem o luxo de se autoconhecer. Para alguns grupos sociais não existe outra posição senão aquela que dizem o que você é. Moonlight nos mostra essa dor de ser obrigado pelas mais diversas forças externas e internas, palpáveis ou invisíveis, a ser um quadro na moldura errada. Mesmo que não ganhe, o filme tem uma relevância atemporal que não o vai deixar ser esquecido. Já é um vencedor, mesmo sem troféu.

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