Muito além do que se vê


É difícil escrever sobre Los Hermanos. Não deveria. Ás vezes parece tão fácil falar qualquer coisa sobre uma das suas bandas favoritas, mas, ao encarar o teclado, percebo que é uma tarefa difícil retribuir na mesma moeda os presentes que ganhei dos barbudos.Trocar palavras por palavras. É uma baita covardia.
Como bem sabem, a banda carioca voltou esse ano para fazer uma turnê nacional depois de 3 anos for ada estrada. O motivo? Comemoração dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro. O fuzuê do retorno aos palcos fez com que a banda escolhesse rodar o país e matar as saudades de seus milhares de fãs, certamente o público mais fiel do Brasil.
Marcelo Camelo, Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba conheceram-se na Puc e gravaram suas primeiras fitas em 1997. Ao ganhar popularidade no público underground do Rio de Janeiro, a banda assinou contrato para fazer seu primeiro álbum em 1999. A proposta do primeiro álbum é interessante, apesar de não gostar tanto (só da primeira metade). Um mistureba de rock com carnaval. E não é um carnaval feliz. Apesar de muito animadas as músicas, a temática é de alguém que foi abandonado pouco antes do carnaval e, ainda que desolado, não perde a oportunidade de participar dessa festa.
A música responsável por torná-los famosos no país inteiro não era nem para ser incluída neste álbum. “Anna Julia” integrou o álbum depois de muitas investidas da produtora e acabou promovendo o primeiro trabalho do grupo. O sucesso de “Anna Julia” fez com que tocassem em todos os locais do Brasil, dando a eles inclusive projeção internacional. Receberam indicação ao Grammy 2002 e ninguém menos que George Harrison gravou uma versão em inglês da canção. Muita moral.
Destaques de “Los Hermanos”: “Pierrot”, “Quem Sabe”, “Anna Julia”, “Primavera”, “Tenha dó”
O segundo álbum, “Bloco do eu sozinho”, ganhou meu respeito e admiração pela banda. É difícil achar exemplos de músicos que abrem mão do sucesso garantido para fazer o som que querem. Em 2001, a banda brigou com a gravadora e mudou completamente o seu estilo, largando a batida rock para uma levada mais suave. Como consequência, a banda parou de tocar nas rádios populares. O que ao mesmo tempo acarretou em uma diminuição considerável de público, gerou uma maior fidelidade dos que restaram. As vendas também caíram, mas o álbum foi sucesso arrasador de crítica. Rodrigo Amarante ganhou também mais espaço para compôr ao lado de Marcelo Camelo. É um belo álbum que definiu o estilo real da banda.
Destaques de “Bloco do Eu Sozinho”: “Todo Carnaval tem seu Fim”, “Retrato para Iaiá”, “A Flor”, “Sentimental”, “Deixa Estar”, “Mais uma Canção”, “Adeus Você”
A obra-prima de Los Hermanos ainda estava por vir. “Ventura” coleciona, na minha opinião, as mais completas músicas da banda. Com este disco, a banda consolidou sua legião de fãs que passaram a se multiplicar por todo o país. O novo estilo tinha sido abraçado pelos ouvintes e a banda voltou ao cenário comercial. Apesar de diversas pérolas como “O vencedor”, “ Cara estranho” e “Último Romance” (esta última decreta que Amarante é um puta compositor), a música que mais se consagrou foi “Conversa de Botas batidas”, inspirada em fatos reais. Além de belíssima, a música conta a história de um casal de idosos que fugiam de seus casamentos para se encontrar em um antigo hotel no centro da cidade, até que o prédio desabou e, ao invés de evacuarem como o resto das pessoas, optaram por ficar juntos.
Destaques de “Ventura”: o álbum inteiro, simplesmente perfeito.
Em 2005, o 4º disco da banda não teve tanta repercussão. “4” é um disco mais calmo, sem grandes sucessos. Na minha opinião, o álbum se salva por poucas músicas, tais como “O Vento”, uma das melhores da banda, “Morena”, “Dois Barcos” e “Condicional”. Ainda assim, vale a pena escutar.
Com o acúmulo de projetos individuais, a banda entrou em hiato em 2007. Assim permanece desde então, sem compôr mais nada. Assustadoramente, a banda continua a ganhar cada vez mais seguidores. Em 2012, fizeram uma turnê nacional para comemorar os 15 anos de banda e foi um grande sucesso de público. Esse ano, a festa ocorre novamente.
Los Hermanos é uma banda que divide muito as opiniões. Quem gosta, venera. Quem não gosta, detesta. Música de corno, barulho, deprimente, desafinados, etc. Argumentos não faltam pro lado de lá. O tema preferido da banda é a solidão, o coração partido. Verdade. Não deixam de ser boas.
O talento que Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante possuem para compôr é inquestionável. Não só pela beleza da poesia, mas pela originalidade dos arranjos. Das guitarras complexas, passando pelos vocais que deslizam pela melodia, aos metais cantaroláveis, Los Hermanos provou o que a música brasileira tem de melhor, trazendo para o samba e bossa nova, elementos de rock alternativo.
Como já disse e volto a dizer. Não é fácil falar sobre Los Hermanos. Transcende as palavras da mesma forma que suas músicas transcendem as letras e acham caminhos sinuosos para te emocionar. Para todos nós que achamos conforto nas palavras e melodias de Camelo e Amarante, que já nos arrepiamos com “Conversa de Botas Batidas” e que vamos botar o Pierrot para chorar este fim de semana: tenham um ótimo show


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