Os merecidos Emmys de American Crime Story

Pensem em um grande ídolo nacional. Pode ser dos esportes, da música, da televisão, da política. que seja. Uma pessoa adorada e admirada por todas as pessoas de diferentes idades, um herói nacional. Pensaram? Não deve chegar perto do que o jogador de futebol OJ Simpson foi para os norte-americanos na década de 70 e 80. Em um país ainda marcado por um forte e expressivo racismo, OJ foi um dos maiores ídolos negros que os Estados Unidos já viu.

Talentoso, carismático e bonito, OJ Simpson tinha tudo que uma agente de publicidade deseja. Além da sua carreira bombástica nos campos de futebol americano, OJ estrelou diversos comerciais e ainda se tornou ator de cinema. Todos queriam ser OJ Simpson e lembravam com o ídolo com grande carinho e admiração até junho de 1994 em que tudo mudou. Depois do fim de um casamento tumultuado por agressões domésticas por parte de Simpson, sua ex-mulher Nicole Simpson e o amigo Ronald Goldman foram encontrados mortos, brutalmente assassinados. Diante de provas contundentes, OJ Simpson foi acusado de ter matado o casal. O resto dessa história foi considerado o julgamento do século, cujo deslinde foi tão bizarro e comoveu tanta gente que poderia muito bem virar um filme. Ou uma série…

No último domingo, a série American Crime Story: The People vs OJ Simpson varreu o Emmy, conquistando os prêmios mais importantes da sua categoria, inclusive o de Melhor Minissérie. A série aborda em 10 episódios o julgamento do astro OJ Simpson, mostrando de dentro dos escritórios de advocacia e da Procuradoria a visão do julgamento mais midiático que esse mundo já viu. A gigante cobertura da imprensa, um país dividido em crentes e descrentes da inocência de Simpson, a atuação simbólica da policia racista de Los Angeles, o drama pessoal daqueles diretamente envolvidos no processo, tudo isso foi abordado com maestria pela série, para que ninguém do ramo de direito consiga botar defeito nessa obra que mostrou detalhadamente o caos que processos criminais como esse podem virar.

O famoso episódio das luvas

O roteiro inteligente nos coloca dentro dos bastidores do julgamento e podemos acompanhar todos os lados possíveis dessa moeda polidimensional. Em cada episódio compramos o lado de OJ, de seus advogados, da promotora Marcia Clark, dos membros da Procuradoria, dos jurados, dos fãs de OJ, enfim, uma visão completa. Além disso, o roteiro ainda consegue dialogar com maestria com os tempos atuais, principalmente quando vemos a família Kardashian, com as filhas ainda crianças, tomando cutucadas sublimes pela sua fama banal.

Além disso, o elenco é talentosíssimo e foi reconhecido pela premiação do Emmy. No domingo, Sarah Paulson, que viveu com perfeição a promotora Marcia Clark, a principal peça da acusação, abocanhou o Emmy de Melhor Atriz. Stephen K. Brown levou o Emmy de Melhor Ator Coadjuvante por viver o assistente de Marcia Clark, Christopher Darden, muito atacado durante o processo por ser um homem negro combatendo as alegações de racismo pela defesa. Por fim, levou o prêmio de Melhor Ator Courtney B. Vance, no papel do advogado Johnnie Crochane, ativista contra o racismo que entrou no time de advogados de OJ Simpson para dar a importante conotação política que travestiu o caso.

Sarah Paulson, Stephen K. Brown e Courtney B. Vance

Tirando os premiados atores, ainda contamos com Cuba Gooding Jr. no papel de OJ Simpson, John Travolta no papel do advogado principal de Simpson, Robert Shapiro , e o retorno do eterno Ross, David Schwimmer, no papel de Robert Kardashian, melhor amigo de Simpson e patriarca da família Kardashian. Todos muito bem em seus papéis, apesar de não levarem o prêmio para casa.

O que impressiona de fato na série é a profundidade que a história consegue alcançar. Ao reconstruir a história do julgamento de OJ Simpson, American Crime Story consegue abordar questões sociais importantes como o machismo da sociedade americano e o racismo da polícia californiana na década de 90, que não mudou muita coisa desde então, mas com certeza seguraram um pouco a barra após a publicidade deste processo. Além disso, para quem se interessa por séries de direito ~não falo de Suits ou How to get away with murder, falo de séries de direito DE VERDADE ~, American Crime Story pode dar uma boa dimensão de como funciona o processo de uma forma bem didática e interessante, sem criar ganchos fictícios para prender o espectador. É uma história real tão impressionante, com tantas reviravoltas, que a obra consegue brilhantemente prender até o fim contando apenas fatos que realmente aconteceram.

Para a geração de 90 que não assistiu a esse julgamento, American Crime Story faz uma bela reconstrução e mantém vivo o debate sobre os impactos e efeitos de um processo penal midiático na sociedade. Já recomendamos em algum Água de Salsicha Recomenda e agora que recebeu seu certificado oficial de excelência voltamos a recomendar com ainda mais segurança.

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