Preacher e o Cristianismo Cético

Tendo terminado sua primeira temporada há pouco menos de um mês, Preacher trouxe uma narrativa com um final que deixa o mais fiel religioso intrigado. O que aconteceria se Deus simplesmente abandonasse a humanidade?

A série dirigida e escrita pela dupla Seth Rogen e Evan Goldberg traz esse e outros questionamentos sobre a essência do que é religião, moralidade e ética. Baseada em um dos quadrinhos mais memoráveis da Vertigo, Preacher conta a história de um pastor que se torna o recipiente de uma das maiores forças do universo, o Gênesis. Com ela, Jesse Custer tem o poder de fazer com que qualquer pessoa obedeça seus comandos, trazendo o melhor e o pior de sua humanidade.

Nessas circunstâncias peculiares, Preacher nos confronta com as barreiras do que é errado, ultrapassando os limites do que é considerado moral e até mesmo normal. Um pastor viciado que envia um de seus melhores companheiros pro inferno. Um empresário mesquinho que despreza qualquer pessoa e suas crenças. Um prefeito e um xerife coniventes com todos os crimes da cidade. Uma cidade de puro pecado.

Mesmo com seu novo poder, Jesse não consegue consertar tudo de errado que acontece em sua cidade. Tentando renovar a fé dos habitantes de Annvilee, esse pastor problemático promete trazer Deus em pessoa para sua pequena igreja. Ao cumprir sua promessa, entretanto, o encontro com Sua Divindade se torna uma decepção para todos, pois o verdadeiro Deus havia sumido do Céu. Com uma sensação de abandono, essa decepção se torna raiva, instaurando o caos completo na cidade.

Essa dualidade entre fé e ceticismo é o cerne da religião moderna. Mais bem visualizado no cristianismo muito abrangente no Brasil, essa controvérsia pode ser vista na discrepância entre a crença e os atos dos fiéis. Ao mesmo tempo que pregam um Deus misericordioso que pede que amemos uns aos outros como Ele nos ama, muitos usam a própria religião como motivo para realizar inúmeros ataques de ódio contra diferentes minorias. Isso pode ser visto claramente na intolerância aos movimentos feministas e LGBT que sofrem diariamente com ofensas e agressões tanto virtuais como físicas.

Apesar de ser apenas uma história fictícia, Preacher se traduz como uma leitura real da sociedade contemporânea. Quando confrontados com nossos problemas e nossos defeitos, adotamos muitas vezes uma postura defensiva. A velha desculpa da vida injusta se torna, muitas vezes, justificativa para tudo de errado que fazemos. Independente da religião, porque precisamos que Deus venha a nós para agirmos de forma correta e moral?