Stanley Kubrick: Parte 2

Conheça mais sobre o gênio por trás de 2001 e Laranja Mecânica


Parte 2/4

Spartacus (1960)

O filme seria inicialmente dirigido por Anthony Mann, um já renomado diretor de Hollywood, mas após brigas com Kirk Douglas (produtor e Spartacus), Kubrick foi convidado para dirigi-lo. O longa conta a trajetória de Spartacus, inicialmente um escravo sendo treinado para se tornar gladiador, que se torna o líder de um grande exército de ex-escravos que tem como objetivo libertar outros escravos e sair da Itália. Em contra-partida o senado romano tem que lidar com a rebelião escrava, mesmo com todas as suas divergências políticas.

Kirk Douglas e Kubrick já haviam trabalhado juntos em Glória Feita de Sangue

Primeiramente, é muito importante perceber que Kirk era um produtor complicado de lidar com, ele e Kubrick brigavam frequentemente. Nem todas as ideias do diretor entraram e outras que ele fora contra entraram. Somado à isso, o longa foi feito para ser um grande sucesso comercial. Por esses dois motivos, é o filme com menos cara de Stanley Kubrick, embora isso não torne o filme melhor ou pior. Em verdade, o filme é muito bom. Diferentemente dos seus contemporâneos, o que se vê na tela não são somente cenas de luta e belos cenários, existe toda uma crítica social e política. O próprio exército escravo era uma referência aos movimentos sociais que estavam em alta na década de 60. Ponto fraco ficar por conta do romance, que teve seu desenvolvimento muito fraco, a paixão de Spartacus por outra ex-escrava é tão forçada que não convence ninguém.

Épicos estavam em alta na época, Ben-Hur foi outro grande sucesso dos anos 60

Finalmente, Kubrick teve seu primeiro sucesso comercial. Apesar de já ser muito respeitado no meio especializado, só a partir desse filme o diretor atingiu as grandes massas. De acordo com o próprio, somente após o sucesso Spartacus começou a se considerar um diretor de cinema de verdade. Apesar disso tudo, a falta de liberdade para fazer o que queria no longa criou um trauma no diretor. A partir de então, decidiu que só iria realizar projetos em que ele tivesse 100% de liberdade criativa.

Em plena Guerra Fria, falar sobre movimentos sociais era delicado

Nota: 7.0


Lolita (1962)

Stanley Kubrick se decepcionou bastante com Hollywood no seu último filme, motivo pelo qual decidiu se mudar para a Inglaterra, aonde passaria o resto de sua vida. Seu primeiro projeto em terras inglesas foi uma adaptação do best-seller Lolita de Nabokov, um polêmico autor de livros eróticos. O livro conta a história do professor de literatura Humbert que se apaixona perdidamente por uma jovem de apenas 12 anos, apelidada carinhosamente de Lolita. A história se desenrola da louca obsessão do professor ,que faz de tudo pela ninfeta:

Com um tema tão polêmico, foi inevitável não ocorrerem mudanças na história original. Primeiramente, Lolita tinha 16 anos no filme e se vestia como uma mulher adulta. Além disso, Kubrick pediu a ajuda do próprio Nobokov para reescrever a história, dando muito mais enfoque no lado humano e na dualidade dos sentimentos do professor do que no lado erótico. A sugestão e duplo sentido funcionam muito bem nesse filme, diversas vezes ele sugere o ato sexual sem nunca mostrá-lo de fato. A fotografia é muito bonita e é bastante artístico, pode ser considerado um filme erótico não-sexual. Uma das cenas mais simbólicas do filme é a que Humbert pinta cuidadosamente as unhas de Lolita, ali ocorre uma inversão de valores na qual ele se torna submisso à ela, motivado pela sua obsessão. De forma assustadora Kubrick nos faz aceitar e até mesmo compreender Humbert, que tem atitudes claramente erradas.Ponto negativo fica por conta da longa duração do filme e por contar o final do início do filme, o que na minha opinião estraga um pouco a surpresa.

Um diretor em alta contando a história de um best-seller muito polêmico não poderiam resultar num resultado diferente que foi o grande sucesso comercial de Lolita. Pela liberdade que teve para realizar o longa, é considerado o primeiro filme com cara de Kubrick. Infelizmente, a crítica não recebeu tão bem o filme, provavelmente por estarem esperando uma obra-prima do diretor, motivo pelo qual esse é considerado um filme “menor” do direto.

Nota: 7.5


Dr. Fantástico (1964)

Se Lolita não cumpriu com as expectativas, Dr. Fantástico foi um soco na boca do estômago daqueles já começavam a criticar o diretor. Baseado no livro Alerta Vermelho, o longa nos apresenta um louco general americano que ativa um código para ataque nuclear à Rússia. A história se desenvolve na tentativa de reverter essa ofensiva, que provavelmente culminaria na Terceira Guerra Mundial. A trama tem basicamente três núcleos: a sala de guerra, com o presidente tentando resolver a situação; o quartel, com outro oficial tentando acalmar o comandante; e o avião prestes a realizar o ataque.

O expectador menos atento pode nem mesmo perceber que Peter Sellers faz três personagens distintos

O filme seria um suspense, mas Kubrick achou a história tão absurda e dramática que resolveu fazer um filme de comédia(??). É importante lembrar que 1962 foi o ano da Crise dos Mísseis em Cuba e a ameaça nuclear era mais forte do que nunca. Humor negro e piadas inteligentes fizeram de Dr. Fantástico um filme incrivelmente leve, o que dá até uma sensação de culpa por se tratar de algo tão pesado. Grande destaque do filme vai para as atuações de Peter Sellers, um dos maiores comediantes da época e que já havia trabalhado com Kubrick em Lolita. O humorista teve muita liberdade para trabalhar e fez nada menos do que três papéis, só não fez o quarto por ter dificuldade com o sotaque texano. Sellers é tão convincente em cada um dos seus papéis que nem mesmo parecem o mesmo ator. Pela primeira vez vemos Kubrick utilizar brilhantemente a trilha sonora, fato que felizmente se tornou corriqueiro. Confira a trilha sonora completamente absurda dessa cena:

Sala de Guerra

Mesmo sendo um tema muito delicado, o filme foi um sucesso absoluto de público e de crítica, muitos consideram a principal obra de Stanley Kubrick. Curiosamente, trinta anos após o lançamento do filme foi descoberto que vários absurdos apresentados nele eram situações reais e corriqueiras no meio militar. O longa é um verdadeiro clássico, a sala de guerra como conhecemos hoje surgiu pela primeira vez em Dr. Fantástico. Não posso deixar de citar a brilhante e irônica frase: “Isso é uma sala de guerra, vocês não podem brigar aqui!”.

Nota: 9.0

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