Guia Michelin: um mito que dá treta

Já tem um tempo que eu questiono o guia, semana passada saiu a lista brasileira e como sabia do anúncio isso despertou em mim o monstro da pesquisa e consequentemente da escrita. Rs. Tem história, quais são as classificações e mais um monte de tretas que envolvem a publicação. Bora?

Foto da primeira edição. Fonte: Site da Michelin

Como tudo começou…

Lá em 1900, um tal de André Michelin, engenheiro e fundador da Compagnie Générale des Établissements Michelin, publicou o primeiro guia turístico. O principal objetivo dele era promover o turismo de carro, incentivando as pessoas a pegarem a estrada.

A primeira edição vinha com informações pra lá de úteis para os viajantes de início do século XX, como: mapas, instruções de como trocar um pneu, onde encher o tanque de gasolina, e claro uma lista de lugares para comer ou passar a noite. Imagina pegar uma estrada de carro nessa época sem um mapa? Aventura, né mores?!

Até 1919, o guia era publicado e distribuído de forma gratuita, mas a partir de 1920, além de cobrar 7 francos, iniciou-se o processo de classificação de restaurantes e retiraram os anúncios pagos da publicação. As estrelas começam em 1926 e era naquele esquema: tem ou não tem. Depois de cinco anos começou uma hierarquia de zero, uma, duas e três estrelas, mas só em 1936, os critérios para os rankings estrelados foram publicados.

Atualmente, o guia avalia mais de 30 mil estabelecimentos em mais de 30 territórios em três continentes. Falando em venda, mais de 30 milhões de guias MICHELIN circulam em todo o mundo desde então.

Mas o que significam essas estrelas?

Segundo, o então editor do Guia para Grã-Bretanha e Irlanda, Derek Bulmer disse ao Paladar em 2007:

"As estrelas são atribuídas de acordo com cinco critérios — qualidade dos ingredientes; habilidade no preparo; combinação de sabores; níveis de criatividade (incluindo a personalidade do chef); consistência dos padrões culinários (tanto do menu completo quanto da comida durante o ano) e a EQUAÇÃO CUSTO-BENEFÍCIO. A primeira estrela é ganha com “O QUE ESTÁ NO PRATO???”. E a segunda e a terceira? A segunda estrela inclui tudo que se espera de um 1 estrela mais um grau mais alto de de originalidade e criatividade na cozinha. A terceira estrela é reservada para restaurantes com uma cozinha 2 estrelas muito forte, incluindo pratos SIGNATURE da mais alta qualidade. Esses restaurantes terão de se comparar aos melhores dos melhores restaurantes do mundo."

Imagem retirada do site da Michelin

Como vimos no critério "oficial" em relação as estrelas quem brilha é a comida. O serviço e demais ficam em um outro critério. Mas será que é isso mesmo? Um restaurante de fine dining com três estrelas não tem certas exigências em relação ao serviço? Quem nunca viu no Chef's Table a arrumação do salão das casas. Tem algum caô por aqui, não acham?

E como funcionam as avaliações e os inspetores?

Aí vão as informações que encontramos no site:

Critérios de avaliação

Para manter a independência de sua opinião, os inspetores sempre visitam os estabelecimentos anonimamente, pagam suas refeições e, em seguida, avaliam sua experiência de acordo com cinco critérios de avaliação reconhecidos publicamente:

  1. Qualidade dos produtos
  2. Domínio do sabor e técnicas culinárias
  3. A personalidade do chef na sua cozinha
  4. Relação qualidade/preço
  5. Consistência entre visitas

Valores fundamentais

Tendências e tecnologias na gastronomia vêm e vão mas, por mais de um século, o guia MICHELIN se mantém firme em sua missão de fomentar uma cultura de viagens e experiências gastronômicas, e sua promessa de ajudar as pessoas a fazer a escolha certa, com base em seis valores principais:

  1. Anonimato — embora nossos inspetores trabalhem para o guia MICHELIN, eles são, acima de tudo, clientes como os demais, testando os restaurantes em completo anonimato para assegurar que não recebam tratamento especial;
  2. Independência — todos nossos inspetores são funcionários do grupo Michelin, que sempre pagam pelas refeições nos restaurantes que estão testando, para assegurar que não recebam tratamento especial;
  3. Expertise — nossos inspetores são verdadeiros especialistas nas indústrias de alimentação e hospitalidade, setores em que muitos deles trabalharam previamente;
  4. Confiabilidade — as diferentes categorias premiadas pelo guia não são, jamais, fruto do julgamento de uma só pessoa; são formados por uma decisão coletiva, fruto de um longo processo;
  5. Paixão — qual seria o sentido de tanto trabalho e uma abordagem tão rígida se nossos inspetores não adorassem comer?
  6. Qualidade — qualquer restaurante pode ser recomendado pelo nosso guia, desde que sua comida seja de alta qualidade.

A realidade mesmo é que ninguém sabe os reais critérios dos avaliadores, ninguém nunca mostrou ou falou em detalhes sobre essa avaliação. Nenhum inspetor divulgou um relatório se quer. E todo método é questionado hoje.

Dizem que a equipe tem aproximadamente 80 inspetores, cada um visita, em média, dois restaurantes por dia, cinco dias por semana. Calculando, são aproximadamente 220–240 visitas anônimas por ano, dormem anonimamente em aproximadamente 150 hotéis, escrevem cerca de 1.000 relatórios, fazem de 600 a 800 visitas anunciadas. Esses números explicam os constantes exames de saúde e um teste bi-anual obrigatório aos níveis de colesterol exigidos pela firma. Falando do lado do restaurante os estabelecimentos são visitados por até 12 vezes, se necessário.

uestionamento: você toparia esse job? Para entrar é necessário extensa carreira na área de hospitalidade e conhecimentos de cozinha e suas técnicas. Não localizei valor de salário, benefícios e etc.

Quais são os brasileiros estrelados em 2018?

O guia é publicado no Brasil desde 2015 e só tem inspeção em São Paulo e no Rio de Janeiro, muitos sustentam suas estrelas desde então, mesmo trocando de chef.

Outros, infelizmente fecharam as portas, mas por aqui ninguém devolveu estrelas ainda. Mas vamos a lista dos brasileiros estrelados em 2018:

Duas Estrelas: D.O.M. — Alex Atala — São Paulo Tuju — Ivan Ralston— São Paulo Oro — Felipe Bronze — Rio de Janeiro

Uma Estrela: Dalva e Dito — Elton Júnior (casa criada pelo Alex Atala) — São Paulo Esquina Mocotó — Rodrigo Oliveira — São Paulo Fasano — Luca Gozanni — São Paulo Huto — Fábio Honda — São Paulo Jun Sakamoto — Jun Sakamoto— São Paulo Kan Suke — Egashira Keisuke— São Paulo Kinoshita — Satoshi Kaneko— São Paulo Kosushi — Carlos Carvalho e George Koshoji— São Paulo Lasai — Rafael Costa e Silva — Rio de Janeiro Maní — Helena Rizzo (única mulher, rainha da porra toda!)— São Paulo Mee — Kazuo Harada — Rio de Janeiro Olympe — Thomas Troisgros — Rio de Janeiro Picchi — Pier Paolo Picchi— São Paulo Ryo — Edson Yamashita— São Paulo Tangará — Felipe Rodrigues— São Paulo Tête-à-Tête — Gabriel Matteuzzi— São Paulo (fechou em abril de 2018)

Batata, verdura e emulsão do Lasai, um dos pouco cariocas na lista. Foto: Rubens Kato/Divulgação

uestionamento: Cadê as mulheres nessa lista? Bom, Helena Rizzo é a única, ela também está nos 50 melhores restaurantes da América do Sul e já ganhou melhor chef mulher do mundo da revista Restaurant (quer saber mais, clica aqui). Agora, veja bem dos 19 estrelados brasileiros, 7 são dedicados a culinária asiática, quase metade! Bacana também ver casas que trabalham com verdadeiros artesãos da gastronomia brasileira e com a culinária do nosso país reinventada.

Além das estrelas quais são as outras classificações do guia?

Conforto e qualidade

Segundo o site e todas as entrevista de editores do guia que vi, as estrelas são só pra comida mesmo. O que vale para decoração interior, para a mesa ou para a qualidade de serviço é pelo número de ‘talheres’ que recebe, representados pelo símbolo do garfo e colher.

Dando uma olhada nos duas estrelas brasileiros, não são todas as casas que são conforto de alta classe ou luxo no estilo tradicional. O Tuju e o Oro, por exemplo, em relação a conforto tem só dois talheres. Já o D.O.M. é conforto de alta classe, ou seja quatro talheres. Interessante isso, né?! Pelo que parece a comida é o que brilha nesses casos? O D.O.M. até o começo da semana era o único brasileiro com duas estrelas.

Salão do D.O.M. em São Paulo. Foto: Divulgação

uestionamento: Só eu que to achando essa diferenciação desnecessária e que não vale muito na prática?


Além dos garfos e colheres, tem algumas classificações mais novas para boa comida com preço justo. Existem duas classificações distintas Bib Goumand e Prato Michelin.

Bib Gourmand

Batizado em homenagem ao Bibendum, aquele boneco rechonchudo, mascote oficial da empresa — é uma classificação que reconhece estabelecimentos que servem boa comida a preços "moderados". A maioria dos Bibs brasileiros trabalha com menu: entrada, principal e sobremesa, os preços ficam entre: R$50 — R$150.

Segundo o próprio guia, graças à essa categoria, os inspetores notaram um aumento nos estabelecimentos dedicados a experiências gastronômicas autênticas, por meio da culinária de qualidade a preços razoáveis em estabelecimentos acessíveis e amigáveis.

uestionamento: Será que é a indústria que está mudando ou eles que identificaram essa tendencia e passaram a surfar na onda?

Quais são os brasileiros Bib Gourmand em 2018? Ao todo são 33 restaurantes entre Rio e SP listados na categoria, vamos aos nomes:

A Casa do Porco — Jefferson Rueda — São Paulo Antonietta Empório — São Paulo Artigiano — Ana Lúcia e João Carlos Aleixo— Rio de Janeiro Arturito — Paola Carosrella — São Paulo Bio —Raul Godoy (casa do Atala) — São Paulo Bistrot de Paris —Alain Poletto — São Paulo Bottega del Vino —Nicola Giorgio — Rio de Janeiro Brasserie Victória — fundadora Dona Victoria — São Paulo Casa Santo Antônio — Sandro Eduardo Aires— São Paulo Ecully — Juliana Amorim e Guilherme Tse Candido— São Paulo Fitó —Cafira Foz — São Paulo Jiquitaia — Marcelo Correa Bastos — São Paulo La Peruana — Marisabel Woodman— São Paulo Le Bife — Erick Jacquin — São Paulo Lima Restobar — Marco Espinoza— Rio de Janeiro Manioca — Helena Rizzo — São Paulo Miam Miam — Roberta Ciasca — Rio de Janeiro Mimo — Volney Miguel Ferreira — São Paulo Mocotó — Rodrigo Oliveira — São Paulo Niaya — Juraci Pereira — São Paulo Oui Oui —Roberta Ciasca — Rio de Janeiro Petí —Victor Dimitrow — São Paulo Petí Panamericana — Victor Dimitrow— São Paulo Piccolo —Marcelo Laskani e Marcelo Milani — São Paulo Più — Marcelo Laskani e Maurício Cavalcante — São Paulo Pomodorino —Ana Lúcia e João Carlos Aleixo — Rio de Janeiro Restô Rio — Tande Bittencourt — Rio de Janeiro Riso Bistrô — João Paulo Frankenfeld— Rio de Janeiro Tanit — Oscar Bosch — São Paulo Tartar & Co — Erick Jacquin assina— São Paulo TonTon — Gustavo Ronzino — São Paulo Tordesilhas — Mara Salles — São Paulo Zena Caffè —Carlos Bertolazzi — São Paulo

E não é que aqui tem mais uma mulherada?! Vou falar um cadinho delas. Ao todo são 8 casas comandadas por mulheres. Helena Rizzo tem mais uma das suas casas listada. A musa e a jurada mais humana do Masterchef Paola Carosella, a comida dela é bafão. Lá do Rio, Roberta Ciasca e Ana Lúcia tem duas casas na lista e realmente essas casas são ótimas. A musa e mito da culinária brasileira, Mara Salles merece mesmo. A Cafira Foz, a mais feminista da cozinha, sua casa de comida piauiense só tem mulher no serviço da cozinha e do salão. E tem também a peruana Marisabel Woodman, que já me falaram que mete bronca, mas nunca provei a comida, a única! Vou ter que rever isso!

O Prato Michelin

Na última edição de 2016 do guia de Paris, foi lançado o novo símbolo L’assiette ou The Plate (O Prato) para reconhecer restaurantes que servem boa comida. Aqui no Brasil, é claro que temos restaurantes que estão nessa categoria prato. Alguns, confesso que moram muito no meu coração. Fora que quando comecei a olhar a lista vi várias franquias que devem ser até legais, mas tenho preguiça.

Quais são os brasileiros O Prato em 2018? Dessa vez não tem análise, fui me irritando com a quantidade de franquias e as mesmas não divulgam quem comanda as casa.

Para saber os cariocas, acesse o link:

Para os paulistanos, acesse o link:

Mas será que depois de mais de século de história essas estrelas ainda fazem sentido?

Essa é uma polêmica que não tem fim, então senta que juntei diversas críticas ao guia num post só. Vamos as tretas:

Modelo de Negócio: estrela ajuda a crescer ou a falir?

A principal crítica atual do guia é que o mesmo só premia um tipo de cozinha e um modelo de negócio que cada vez mais vem sendo questionado: A Alta Gastronomia.

O querido, Tulio Silva do Pense Comida falou muito bem sobre o fechamento recente do Tête à Tête. Aí vai uma aspas do Guilherme Vinha, sócio e cozinheiro da casa que ganhou logo no seu primeiro ano de funcionamento uma estrela:

“Sofremos com o maior problema que os restaurantes do nosso segmento enfrentam: baixa ocupação.”

“Não acho que morreu, mas percebemos que o cenário da alta gastronomia no Brasil é muito mais restrito do que gostaríamos”, diz Guilherme Vinha. “Infelizmente, a percepção do público e o número daqueles que podem pagar pela experiência que tentávamos oferecer é muito pequena.”

“Não conheço nenhuma operação que vá bem, que tenha estabilidade e rentabilidade de fato”, diz Vinha. “Você precisa enxergar o negócio como uma vitrine, como uma plataforma para alavancar outros negócios.”

Complementando com uma visão gringa, no caso do estrelado Le France, localizado em Montceau-les-Mines, que se mantivesse os padrões impostos pelo guia ele teria que fechar a casa. Pois, na pequena cidade da Borgonha, o alto desemprego anda altíssimo. Então, Jérôme Brochot devolveu suas estrelas e voltou às origens com uma cozinha mais rústica e acessível.

“Acreditamos que as expectativas do Michelin estão em desacordo com uma margem de lucro rentável e colocam enorme stress sobre um pequeno negócio familiar como o nosso”, disse em comunicado a proprietária do restaurante Boath House na Escócia, Wendy Matheson.

Casa do Boath House na Escócia. Foto: Divulgação

Wendy deixa claro que ter sustentado por 10 anos deu reputação a casa e tem orgulho disso, mas também falou sobre o restaurante apurar prejuízos durante quase todos esses anos. Ela também relata que o consumidor mudou, toda essa formalidade, requinte e pompa não é mais necessária, os comensais querem mesmo é uma experiência informal. Então, eles também decidiram devolver as estrelas ao guia.

Segundo Rebecca Burr, editora do guia para o Reino Unido e Irlanda depois de saber das declarações do Boath House disse: “Sem dúvida, as refeições mais informais têm se tornado uma tendência nos últimos dez anos e o guia esteve na vanguarda no momento de reconhecer e celebrar isso”. Burr se refere ao Bib Gourmand, que reconhece o trabalho de restaurantes que oferecem cozinha de qualidade a preços competitivos.

uestionamento: Ué, mas a estrela não era a comida? Que operação formal é essa que exige tanto dessas casas que perdem sua identidade?

Estresse na cozinha

Vocês já repararam como é impressionante que na gastronomia não se pode errar? Imagina num restaurante estrelado que passa por constantes inspeções anônimas. Esse nível de estresse é altíssimo e já foi relatado por diversos chefs, inclusive medalhões importantes da Nouvelle Cuisine.

O chef Sébastien Bras, do Le Suquet, em Laguiole, na França, após quase 20 anos, abriu mão das três estrelas de seu restaurante. Seu pai, Michel Bras que as conquistou. O principal motivo apontado foi a pressão de servir os inspetores. Isso gerou tensão na operação e tirou completamente a criatividade da casa. Só que ele escolheu a criatividade no lugar das estrelas, mantendo é claro o nível de excelência. Segundo o guia, foi a primeira vez que um chef francês solicitou não ter as estrelas, sem ter planos de fazer uma grande mudança no negócio.

“Hoje, desejamos ter o espírito livre para continuar serenamente, sem tensão, a manter viva nossa casa com uma cozinha, uma recepção e um atendimento que sejam a expressão de nosso estado de espírito, do nosso território”. Disse Bras.

No início de 2017, a chef belga Karen Keygnaert, devolveu a estrela concedida ao restaurante em 2011, a única em sua região. O A’Qi fica localizado na região de Flandres, no norte da Bélgica. Para ela, a atribuição traz consigo um “circo ultrapassado” e se tornou mais uma maldição do que uma bênção. Keygnaert abriu um novo restaurante, chamado Cantine Copine, cuja equipe é formada por mulheres e onde ela não quer ter que lidar com as estrelas. Após devolver sua estrela, Karen Keygnaert fez críticas ao Guia Michelin, dizendo que é uma instituição fechada, nada transparente e intocável.

Segundo apurou o Nexo Jornal, a decisão de devolver estrelas foi tomada pela primeira vez por um chef há quase 20 anos, em 1999. Naquele ano, o inglês Marco Pierre White abriu mão da honraria. Em uma entrevista de 2015 ao jornal The Guardian, ele falou com desdém dos inspetores responsáveis por avaliar restaurantes pelo Michelin, afirmando que eles tinham menos conhecimento do que ele e que foi fácil abandonar as estrelas, às quais não dava valor. Em 2005, um dos pais da nova cozinha francesa, Lucas Carton, fez o mesmo e disse ao jornal americano The New York Times que, após 30 anos de trabalho, queria se divertir, e não mais alimentar seu ego. O espanhol Julio Biosca, desapegou da classificação em 2014 por considerar que as estrelas são uma camisa de força para a criatividade dos chefs.

O consumidor mudou

Com a internet, nos últimos anos, não param de proliferar guias, apps, listas, foodies e digitais influencers de gastronomia. A gastronomia está na moda e é impressionante o quanto as pessoas tiram foto de comida.

Óbvio que o guia ainda tem muita relevância e principalmente prestígio entre os chefs e investidores ($$$$). Até porque, mais de um século de reputação não acaba tão rápido. E como vimos, eles vem criando novas categorias para atender a outros públicos e mudar um pouco o cenário. Mas, numa rápida análise dessa nova categoria O Prato, vi que ela está recheada de franquias . Ou seja, apenas restaurantes que são iguais em qualquer lugar e que mantém um padrão.

uestionamento: O que será que os comensais modernos estão buscando? Repetição ou novidade?

Mas para para pautar um pouco melhor essa mudança vamos a um pedido asiático de retirada de estrelas recente. Deram uma estrela para um restaurante local de Banguecoque, o Raan Jay Fai é especializado em comida de rua. Como a chef Supinya Junsuta não reajustou os preços após a entrada no guia para não afastar os clientes cativos da casa, adivinha o que aconteceu?! A casa virou ponto turístico de foodie e afastou os cliente reais. O guia chegou a Tailândia em 2017.

A chef Supinya Junsuta em ação no Raan Jay Fai em Banguecoque.

Isso só demonstra o quanto o guia ainda continua potente, mas ainda sem entender que caminho dar a essa gastronomia cada vez mais na moda. Uma vez que uma indicação de estrela pra comida de rua é uma baita mudança, né?! Mas também mexe completamente com uma operação que não está preparada para tal volume e expectativa. Perdendo seu foco principal, atender os clientes que fizeram fama do local.

O inglês Jonathan Meades é um dos críticos mais ferrenhos do guia, foi por 15 anos crítico gastronômico do New York Times em Londres. Mora na França e acusa o guia de premiar cozinhas pretensiosas que seguem o roteiro previsível. Segundo ele seus restaurantes preferidos no país não são estrelados, e ele os prefere justamente pelo serviço simples e pela comida de verdade. “O grupo Michelin sabe é fazer pneus, eles deveriam se focar nisso”.

“O guia é inútil. Na verdade, é pior que inútil: ele encoraja chefs a gastar uma fortuna com a decoração do restaurante e ainda coloca uma pressão enorme nas pessoas, é horrível”, diz Meades a Exame.com.

Galera podia ter dormido sem esse barulho, né?!

Logo, fica claro que ganhar essas estrelas tem um peso bem grande, principalmente da cozinha, podemos pensar em custos como foi o caso do Jérôme e da Wendy, ou mesmo estresse conforme o relatado por Sébastien, ou até perda de clientela fiel como no caso da Supinya. Mas como vimos também nas declarações da Rebecca o Guia segue se achando a última bolacha do pacote, não é mesmo?!

uestionamento: que tipo de serviço esse guia vem enaltecendo? Que tipo de "cozinha" ganha estrelas?

Suicídio de chefs

Essa obsessão e a busca da perfeição vira uma loucura dentro de uma cozinha e para muitos conseguir e manter as estrelas se torna uma obsessão ainda pior. Podemos citar o icônico Bernard Loiseau, que na França durante as décadas de 1980 e 1990 foi um dos chefs mais populares e midiáticos, tão icônico que inspirou o filme Ratatoullie da Pixar.

A terceira estrela veio em 1991. Só que aos 52 anos, 12 anos depois da honraria, ele se suicidou. A notícia chocou e gerou um debate sobre os guias de avaliação gastronômica no país, mas a maior loucura é que ele nem chegou a perder as suas estrelas, um pouco antes da sua morte, uma matéria publicada no jornal Le Figaro especulava sobre um possível “rebaixamento” para duas estrelas.

Segundo a carta de Dominique Loiseau, restauranteur e mulher do chef, ao diretor do guia na época Derek Brown, tudo aconteceu por conta de um boato. O próprio editor havia dito que o restaurante Côte D´Or estava em risco pela “falta de alma e de personalidade na cozinha”. Na carta, os relatos são sobre toda a reação e obsessão pela perfeição após o aviso do Brown:

“Depois de seu feedback, Bernard não parou de rever todo o cardápio com suas equipes, prato por prato, tempero por tempero, cozimento por cozimento. Nós compreendemos o seu aviso, e a partir de agora tudo será feito para subir o nível o mais rápido possível”.

Bernard and Dominique Loiseau. Foto: Site Oficial

Segundo ela, conseguir as estrelas era o grande objetivo de seu marido. “Tudo que Bernard fazia era mirando as estrelas. Por muito tempo nós nem colocávamos sal nas mesas do restaurante porque achávamos que o Guia veria isso como um sinal de que o tempero não saía perfeito da cozinha”, conta.

O perfeccionista Benoît Violier. Foto: Thelegraph

Recentemente, uma outra morte assombrou a premiação de 2016. O chef franco-suíço Benoît Violier, 44 anos, foi encontrado morto na sua casa, no domingo, num aparente suicídio. Apenas um mês e meio depois de o seu restaurante — o Hotel de Ville em Crissier, Suíça — ter sido considerado o melhor do mundo pela “La Liste”. O fato de Violier ter decidido pôr fim à vida com uma arma de fogo numa altura em que é considerado o melhor chef do mundo reavivou inevitavelmente o debate sobre a enorme pressão que este tipo de distinções coloca sobre os chefs.

Quando se trata do 50 best O restaurante de Violier não está entre os 50 nem os 100 mais votados da lista de 2015. "La Liste” é uma inciativa do governo francês e é feita com outro sistema, partindo de um algoritmo que trabalha a partir de 200 guias de restaurantes de 92 países além de fontes como o TripAdvisor. E no topo desta lista de 1000 restaurantes em 48 países surgiu o pequeno e discreto restaurante de Crissier na Suiça, a cuja cozinha presidia desde 2012, que trabalhava com a sua mulher, Brigitte, responsável pela sala e pela decoração.

uestionamento: Qual o limite de exaustão que levamos um chef? Será que é perfeição? Ou uma boa comida basta?

Haja treta, né?! Mas eu entendi que…

As estrelas ainda fazem a diferença na vida de um restaurante, estamos falando que ao ganha uma a casa pode crescer de 30% e até 40% no faturamento, principalmente na França, Japão e etc. O guia com muitas décadas de estrada e critérios de alto padrão impõe custos altos para as questões econômicas atuais, principalmente porque o crescimento de faturamento e movimento leva a aumento de custos fixos e variáveis. Aí junta tudo e tem gente devolvendo estrela por aí…

As polêmicas e novos concorrentes não param de aparecer, além do 50 Best, da La List, temos também uma nova premiação foi lançada essa semana em Paris, o World Restaurant Awards. Conta-se também com as premiações locais como revistas e jornais, todos os sites de indicação, avaliações do Google, do Facebook, do Foursquare.

O consumidor está cada vez mais ligado e escolhendo meios que ele mais curte para escolher onde comer. Eu não sou exemplo de p…, olho mil coisas e no fim vivo escolhendo comidas bunita. Rs. Mas confesso que depois de ler tanto sobre a Michelin e sua falta de transparência to com bode TOTAL.

Mas o que fica pra mim, depois de dias lendo milhares de reportagens sobre o assunto, é que o universo da gastronomia profissional que é altamente competitivo, machista, egoísta e egóico, leva chefs a níveis de estresse de tomar tarja preta e chegarem até no suicídio. E esse guia tem uma enorme contribuição nisso tudo.

Inté…

Fontes:

Água no Feijão

Comida and bibida sem ego e sem mimimi.

Liana Rangel

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Esfomeada, tagarela, bem humorada e feminista.

Água no Feijão

Comida and bibida sem ego e sem mimimi.