Um boato mortal

Por que é preciso sempre checar a informação.

Na semana que passou, um dos “fatos” que repercutiu bastante foi o registro em foto do momento em que o filho do ex-presidente Lula abastecia seu iate. A imagem correu a internet, causando muita indignação.

Mas tem um problema: não havia nenhum filho de Lula na foto.

Lula já avisou que seus advogados estudam as medidas judiciais cabíveis contra pessoas que insistem em repassar boatos sem pé nem cabeça envolvendo sua família. Vai ter muita gente se queixando de uma suposta “censura”, só que não tem nada disso: na democracia ninguém é impedido de falar, mas precisa ter responsabilidade; quem exagera e ofende, não pode ficar impune.

Só que tem ainda mais. Repassar boatos pode ter consequência mais sérias do que apenas ofender pessoas. A desinformação pode até mesmo matar. Como aconteceu com Chris Geoffroy, em Berlim, no começo de 1989 — fora diversos outros casos, que vimos acontecer inclusive no Brasil.


O Muro de Berlim foi rapidamente erguido em 1961 pelo governo da Alemanha Oriental com o alegado objetivo de servir como “proteção antifascista”, e com o real propósito de conter a emigração do leste para o oeste. Fruto da divisão da Alemanha entre as quatro potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial (Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética): os soviéticos ficaram com a parte leste do país, que se tornou a República Democrática Alemã (RDA), enquanto as demais áreas de ocupação formaram a República Federal da Alemanha (RFA). A capital Berlim ficou dentro da área soviética mas foi também dividida em quatro zonas de ocupação, com o leste ficando a cargo da URSS e o oeste com as demais potências.

Ou seja, mesmo com a fronteira entre as duas Alemanhas sendo fortemente vigiada, era muito fácil passar de um lado para o outro: bastava fazê-lo dentro de Berlim. Foi para acabar com tal facilidade que o governo da RDA, preocupado com a perda da força de trabalho para a RFA (os orientais buscavam os maiores salários do oeste), decidiu erguer o muro. E assim Berlim amanheceu dividida no dia 13 de agosto de 1961.

Já nos primeiros dias da divisão de Berlim (quando boa parte do futuro muro ainda era apenas arame farpado) houve as primeiras fugas. Por conta disso, a vigilância tornou-se ainda maior, com o objetivo de não apenas impedir a passagem para o outro lado, mas também para desestimular quem pensava em fugir. A ordem era clara: se alguém tentasse passar, os guardas de fronteira deveriam atirar primeiro para advertir, depois para matar. Por conta disso, ao longo dos 28 anos de existência do Muro de Berlim muitas pessoas perderam a vida tentando ultrapassá-lo.

Memorial próximo ao antigo ponto de fronteira “Checkpoint Charlie” dedicado às vítimas do Muro de Berlim

O governo da RDA jamais admitiu publicamente que os guardas tinham ordem de alvejar pessoas que tentassem passar para a RFA sem autorização (e era muito difícil obter uma). Mas se sabia que isso acontecia.


No início de 1989, não se imaginava que aquele era o último ano em que o Muro de Berlim estaria em pé. Pelo contrário: o governo da RDA pretendia fortalecer ainda mais a fronteira de maneira a torná-la inexpugnável. A muralha de quase três décadas parecia destinada a durar várias mais.

Mas por outro lado, a Alemanha Oriental dava mostras de uma aparente “liberalização”. Dentre elas, a abolição da pena de morte em julho de 1987. Por essa lógica, quem quisesse passar para a Alemanha Ocidental sem autorização certamente não corria risco de pagar com a própria vida — o que dava fundamento ao boato de que a ordem de “atirar para matar” na fronteira havia sido revogada mesmo sem nenhuma confirmação oficial (o que fazia sentido, já que o governo oriental jamais admitira a existência de tal ordem).

O jovem Chris Geoffroy, de 20 anos de idade, resolveu tentar passar para o lado ocidental junto com seu amigo Christian Gaudian na noite do dia 5 de fevereiro de 1989, acreditando na “informação” de que os guardas não mais atirariam para matar. Passaram tranquilamente pela primeira barreira (uma cerca gradeada e alta), só que a segunda, mais baixa, era eletrificada: um alarme foi disparado e logo a área foi iluminada por holofotes, com os dois jovens sendo facilmente localizados; após tiros de advertência, foram alvejados pelos guardas de fronteira. Geoffroy foi baleado no peito e morreu na hora, enquanto seu amigo foi ferido no pé, preso e levado a julgamento pelo crime de Republikflucht (“fuga da república”, em alemão).

Geoffroy morreu vítima, em primeiro lugar, de um regime autoritário. Mas também da desinformação: embora em 1989 fosse bem mais difícil de desmentir boatos (afinal de contas, não havia Google), acreditar cegamente neles, assim como hoje, era uma péssima ideia.


A morte de Geoffroy acabou ganhando repercussão internacional graças a um repórter de um jornal da RFA que rompeu a vigilância da Stasi (a temida polícia política da RDA) e assistiu ao funeral, posteriormente divulgando o acontecimento. Devido à comoção gerada, dois meses depois a ordem de “atirar para matar” foi revogada. Secretamente, é óbvio, visto que publicamente ela nunca existira.

E curiosamente, foi uma informação equivocada que levou o Muro de Berlim a acabar da maneira como se viu. Em 9 de novembro de 1989 o porta-voz do governo da RDA, Günter Schabowski, anunciou a decisão de abrir as fronteiras em uma conferência de imprensa transmitida ao vivo pela televisão. Porém, questionado por um jornalista a respeito de quando a medida entraria em vigor, Schabowski se atrapalhou e respondeu “imediatamente” (seria no dia seguinte, 10 de novembro), o que levou milhares de pessoas aos postos de fronteira no Muro e deixou os guardas sem outra opção que não a de erguer as cancelas e liberar a passagem. Menos de um ano depois, em 3 de outubro de 1990, a República Democrática Alemã deixou de existir, com seu território passando a integrar o da República Federal da Alemanha.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.