Mindfulness e a gestão de si mesmo — parte I

Cesar Bullara

Daniel Siegel, conhecido professor de psiquiatria na UCLA, afirma que mindfulness é um processo biológico que promove a saúde, sendo uma forma de higiene mental. Esse assunto ganhou muita relevância nos últimos anos, dado o seu impacto na vida pessoal, social e corporativa. Baseia-se em modelos psicológicos que tem origem na Europa e nos Estados Unidos, incluindo, por exemplo, a Gestalt e a Terapia Cognitiva.

Através desse artigo, procuraremos entender qual o significado desse conceito e os inúmeros ganhos que a prática da atenção plena, tradução do termo ao português, pode trazer para o dia a dia de quem a pratica.

A pressão do quotidiano e as muitas demandas da vida moderna tornam difícil manter o foco e ter o equilíbrio pessoal necessário para poder tomar boas decisões. Trata-se de redescobrir coisas básicas que estão sendo esquecidas pelos apelos constantes de um dia a dia hiperconectado e multitasking.

Tire um momento para você, respire, esteja atento ao momento presente. Aqui estão três conselhos que nos ajudam a recuperar o sentido das pequenas coisas da vida, assumindo o comando da própria existência, e, ao mesmo tempo, alcançando um ponto de equilíbrio que é fundamental para a gestão de si mesmo. A bem da verdade, trata-se de algo mais profundo do que isso.

Lendo recentemente um artigo publicado na HBR, um conhecido professor diz que a resiliência não é simplesmente a habilidade de continuar o esforço começado, superando o cansaço, a pressão e o desânimo. Trata-se, antes de mais nada, de saber como utilizar as nossas energias, ou, de certo modo, saber como lidar conosco mesmos, identificando o modo, sempre pessoal, de refazer-nos, de descansar e ‘desestressar’. O autor nos recorda que ser resiliente significa ter a capacidade de recarregar as próprias energias. E, nesse sentido, a mindfulness é uma grande ajuda. Portanto, de certo modo, a atenção plena guarda relação com o nosso bem-estar físico, mental e espiritual.

Mindfulness diz respeito a prestar atenção ao momento presente, àquilo que estamos fazendo ou aos nossos primeiros impulsos. Ser capaz de captar os diversos estímulos, tanto internos, como pensamentos, lembranças e emoções, quanto externos, como acontecimentos e palavras. Ter a habilidade de lidar com essas informações, processando-as e gerando respostas conscientes e maduras, e não automáticas e instintivas. Portanto, a mindfulness traz como benefício tornar-nos conscientes das nossas tendências e inclinações, e atuar sobre o próprio temperamento, fundando as bases da nossa personalidade.

Exercitar-se na atenção plena significa aumentar a nossa capacidade de autocontrole, gerindo melhor a nossa atenção e regulando nossas emoções. Na realidade, em termos científicos, a mindfulness tem como benefício primeiro tornar nosso cérebro mais apto para trabalhar focado.

Esse modo de viver o momento presente nos confere a habilidade de sentir emoções (dor, raiva, frustração, ansiedade e medo) e não reagir de imediato a elas, sendo mais donos de nós mesmos. A atenção plena nos possibilita um espaço entre nossas emoções e nossas respostas a elas, de modo que possamos pensar antes de agir. Ganhamos em maturidade e capacidade de discernimento. Agimos guiados por uma racionalidade menos sujeita às variações da nossa sensibilidade. Por exemplo, somos mais donos das nossas decisões.

Há muitos benefícios pessoais na busca da mindfulness. Os especialistas atestam que os ganhos são verificados nas dimensões cognitiva, psicossomática e emocional.

Começando pela dimensão cognitiva, cita o desenvolvimento de habilidades como gestão da atenção, capacidade de concentração e capacidade de monitorar os nossos próprios conflitos internos. Aumentamos a percepção daquilo que se passa em nosso interior, somos mais conscientes de nós mesmos. Portanto, crescemos em autoconhecimento.

Na dimensão psicossomática, os estudos comprovam os efeitos positivos na prevenção do stress e também no modo como lidamos com ele. Exercendo a mindfulness aprendemos a identificar a origem dos nossos estímulos e impulsos, e nos tornamos mais aptos a manter ou retomar o controle de nós mesmos em momentos de tensão. É a capacidade de autorregulação, fundamental para a gestão de si mesmo. Torna-nos mais aptos a exercer o autogoverno.

Por fim, na dimensão emocional, a atenção plena facilita o desenvolvimento de relações construtivas ao nosso redor. Permite, por exemplo, um maior domínio dos estados de ânimo, previne a tomada de posições baseadas em ideias pré-concebidas, favorece o desenvolvimento de habilidades como empatia e inteligência emocional.

De fato, se crescemos em conhecimento próprio, se somos mais capazes de liderar-nos a nós mesmos, estamos melhor preparados para cultivar relacionamentos saudáveis, viver em sociedade, e, de fato, ser mais felizes. Essa é a via científica para a construção de uma personalidade madura. Há outras vias, como por exemplo a filosófica, mas esse tema fica para um próximo artigo.


Cesar Bullara é Chefe do Departamento de Gestão de Pessoas do ISE Business School.