Criaturas Da Ilha De Vherhao {I}

Há, pois, um pássaro negro cujo nome não se sabe; seu bico é curvo, agourento, rubro como inocente seiva. Su’asas de penugem obsidiana, reluzem sutil na imensurável escuridão enquanto deixa um rastro de voo escarlate cruzando os altos do anuviado inverno. O mais abominável é sua sonância que paira no vento, barrando o curso sazonal. É de um som fino e tenro, cântico belíssimo e fascinante; contudo freme a pele inteira, una morte ressurge em seu assoviar — que angústia! Que angústia só ao me lembrar. Trata-se de um tom inimaginável, inenarrável, que perdura na mente por tempos infindáveis. Busquei dias e dias quaisquer registros de sua origem, seu nome, sua face, sua verdadeira espécie; nada encontrei. E por entre minhas janelas ele vinha noites e noites alimentar minha agonia; eu pensava: “Oh, quão belo, quão cativante; sinto que o caos emerge em meu núcleo diante d’esta venustidade insuportável”. O pássaro, decerto, gargalhava de seu modo ali parado, macabro, observando-me com seu olhar pálido, ausente de íris e pupila.

Insano e já propício ao suicídio, eu decidi que deveria aprisioná-lo e muito mais do que somente roubá-lo; era preciso destruí-lo. Um insulto à natureza, era este maldito pássaro obscuro; aniquilá-lo brutalmente eu iria, cada uma de suas vísceras. Eu o comeria vivo! Sim, vivo! Uma por uma das suas penas adentrariam meu estômago, depois a pele, depois a carne quente e, por último, os pequenos órgãos pulsantes. Era isso, esta era a única forma de acabar com a imortal agonia: devorando-a nua e crua. O plano perfeito emergiu em minha mente turva, preparei a emboscada nos mínimos detalhes; minhas economias se foram para que eu pudesse criar a armadilha perfeita. O bicho, além de estonteante, era ágil; foram horas de sono ausente para, por fim, capturá-lo. A esta altura eu já salivava como um cão faminto, e uivava como um lobo em meio a risos de nefasta hiena. É chegada a hora, a minha glória e um cadáver no estômago.

Dei-lhe um calmante, sutil, para que não fugisse ao ser liberto por minhas mãos que lhe fincariam as unhas sujas de pecado infame. Abri o singelo cárcere, toquei o pássaro quieto; no entanto, para minha horripilante surpresa, o bicho estava quente e de imediato começou a fumegar assombrosamente. No susto, o deixei cair na mesa de ferro e, neste momento inacreditável, o monstro de asas obsidianas reluziu os olhos como um feixe de luz de clareira e seu bico abriu-se em minha direção expelindo um gás carmim que de imediato cegou-me os olhos e feriu-me toda pele facial. Ah, o maldito, após o efeito do calmante voou para longe e eu, ali, cego e às dores, apodreci em meu próprio quarto, faminto e frustrado até ser salvo por uma boa alma que insistia em direcionar elogios. Decidi indagar-lhe o seu nome, contudo, ao abrir minha boca, um cântico excelso tomou conta de todo o cômodo e eu voltei a enxergar enquanto proferia o que, para mim, eram palavras, mas o que esvaía, era tal cântico.

— Sublime! Deveras sublime! Só pode ser uma rara espécie jamais catalogada.

Com minha visão semi-turva, busco encontrar respostas que me expliquem o que eu acabara de ouvir. Olho em direção à boa alma e o que vejo me enlouquece, sou eu ali, parado, olhando em minha direção e, na verdade, eu mesmo não sou eu, sou o maldito pássaro e bem sei que o meu eu que me olha tem planos maléficos a este meu eu-pássaro transformado. Eu apenas não conseguia fugir pela janela e viver o que reservou-me o destino, pois qu’eu estava fascinando por minha própria imagem e pela transmutação ocorrida, tanto que sequer notei o momento em que meus próprios dentes humanos fincaram em minha carne de pássaro e todo o meu sangue de pássaro esvaiu à minha boca humana.

A minha morte fora iminente. Cruel e iminente. Não pude conter minha sede de vingança enquanto pássaro, tampouco enquanto humano; por isso estou aqui, reencarnado, metade homem e metade pássaro, para destruir-me a mim mesmo outra vez.


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