Broken Age:

“Sou mais o documentário do que o jogo…”


É o que eu responderia (em um twit), caso me perguntassem se eu gostei de Broken Age. Posso estar sendo chato, mas é que os “adventures point and click”, não fazem o meu tipo. Mesmo assim resolvi dar uma chance a um dos mais ambiciosos projetos da Double Fine. O meu primeiro contato com Broken Age foi através de toda a comoção gerada nas redes sociais, na comunidade e na mídia gamística, devido à sua campanha de financiamento no Kickstarter. Não foi o primeiro jogo financiado por lá, mas certamente foi o primeiro a gerar tamanha repercussão. Junto do projeto do jogo em si, a Double Fine tinha como uma das metas produzir algo até então inédito: “The Double Fine Adventure”, um documentário no qual seria contada toda a saga que é desenvolver um jogo do zero (produzido pela 2players Productions, que é responsável também por outros projetos muito legais). Bom, mas este post não é sobre o documentário e sim sobre o jogo. O documentário é ótimo e recomendado a todos (principalmente, caso você tenha aspirações em trabalhar na indústria de jogos).

Mas Broken Age é sobre o que exatamente?

Broken Age é um jogo adventure point and click no qual você tem que resolver puzzles para seguir em frente na história. Para resolver esses puzzles é necessário coletar alguns itens no cenário ou consegui-los com outros NPCs, dialogando ou resolvendo algum problema para eles. Você joga com dois personagens: Vella e Shay, onde cada um deles se encontra em um cenário diferente e é possível alternar entre eles em qualquer parte da história.

Vella é uma garota que vive em um vilarejo, onde os habitantes escolhem garotas jovens para serem oferecidas como sacrifício para uma criatura gigante chamada Mog Chothra. Vella é uma das escolhidas, entretanto, ao contrário das outras garotas, que se sentem até honradas em serem oferecidas ao monstro, ela questiona o tal ritual. Ela decide então escapar e acabar com Mog Chothra.

Shay é um rapaz que vive em uma nave espacial, e tem sua rotina controlada pelo computador de bordo, que age como se fosse sua mãe. Ele basicamente vive em um loop imposto por ela, que consiste em realizar “missões” chatas pelo “espaço”. Ela o impede de conhecer outros lugares, ou fazer qualquer outra coisa fora dessa rotina, alegando que é tudo pela sua segurança. Então Shay, entediado, começa a planejar uma forma de escapar da nave.

É esperado que em algum momento as duas histórias se encontrem. Na verdade, descobrimos que elas já estavam juntas desde o inicio, e a maneira como o jogo revela isso é bem surpreendente. Temos uma virada de roteiro bem interessante, as pontas soltas são amarradas de maneira bem convincente e criativa.

Infelizmente, depois desse momento, o enredo sofre uma queda e não volta ser tão bom quanto no primeiro ato. Temos alguns momentos legais, mas no geral, depois do plot-twist até o final, roteiro não impressiona tanto. A profundidade que os dois protagonistas tinham, foram mais bem exploradas no primeiro ato.

Adventures point and click… Tenho medo…

Eu geralmente gosto de resolver puzzles em jogos, mas a maneira como isso é feito nos adventures tradicionais, incluindo Broken Age, não me agrada.

Ficar preso no mesmo lugar por horas, tentando descobrir a solução é para os fãs, uma das principais graças do gênero. Eu respeito essa visão e entendo, porém as vezes tenho a sensação de que o jogo não está me oferecendo elementos suficientes para a resolução dos enigmas. Sinto que ele não está sendo totalmente honesto comigo.

Um exemplo que posso citar, é que em um determinado momento estamos jogando com o Shay e precisamos retirar um apito que ficou preso na garganta de um NPC. Demorei muito para chegar à solução, e no fim não fiquei com a sensação de ter resolvido uma coisa genial, bem elaborada e criativa (aquela sensação de “eureka”, sabe?). Fiquei apenas “aliviado por ter conseguido passar essa parte chata”. No próximo paragrafo tem um spoiler sobre a resolução desse puzzle, onde tento ilustrar melhor a minha frustração.
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A resolução seria utilizar uma cobra como item, a cobra apertaria a caixa torácica do NPC, fazendo com que esse cuspisse o apito. Essa cobra é encontrada do outro lado do cenário, ela está pendurada em um galho de uma arvore, e quando você passa por debaixo dessa arvore ela cai sobre você, se enrolando em torno de seu corpo, tal qual uma sucuri tentando estrangular sua presa. Pelo meu conhecimento de mundo, e por raciocínio lógico, logo deduzi que a cobra me mataria. O que eu fiz? Me desesperei e comecei a tentar fazer alguma coisa, o que me levou, por acidente, a “clicar” em um trombone (não sei se é um trombone de fato, sei que é um instrumento de sopro), isso ativou uma animação, na qual Shay sopra o instrumento, o som de alguma forma (não sei porque), fez a cobra o soltar e voltar para a arvore.. Blz.. Ótimo.. Nem tanto. Porque isso fez com que eu jamais imaginasse que para pegar a cobra como item, eu teria que simplesmente ESPERAR ela se cansar de tanto me apertar e cair no chão. Sério isso?! Cobras estrangulam, matam e comem suas presas, elas não desmaiam desse jeito.
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Eu só descobri isso, confesso, buscando a solução no Google. Alias, fiz isso mais vezes durante o jogo, em várias outras ocasiões, porque já não estava aguentando a chatice desses puzzles. Outros lugares onde fiquei agarrado que consigo me lembrar são: o puzzle dos “nós” e o puzzle dos elevadores na parte da Vella. Foram bem desagradáveis também.

Foi Tenso. Mas nem tudo está perdido…

O aspecto de Broken Age que mais impressiona é, sem dúvidas, sua direção de arte. Desde os concept dos personagens até os cenários, tudo é literalmente feito pelas mãos de Nathan Stanpley. Contemplar as animações e depois conhecer processo que as resultou, já valem a experiência de jogar Broken Age. Assistir o documentário e saber de toda a trabalheira que deu, adiciona mais valor ainda à obra. No jogo é notável o quão magnifico, todo aquele trabalho em equipe, ficou.

A trilha sonora composta por Peter McConnell (outro veterano da Lucas Arts e Double Fine), também merece destaque. O Episódio do documentário, no qual ele mostra o seu processo criativo é emocionante (essa parte começa em 22:11):

Os diálogos entre os personagens são muito bem escritos, e dublados (onde temos a participação de Elijah Wood e Jack Black), embora pra mim algumas piadas e referencias passaram batido. Provavelmente devido às barreiras culturais e do idioma.

Apesar do sofrimento a experiência valeu a pena

Broken Age é repleto de puzzles complicados. Como não sou fã do gênero, isso foi um pesadelo. Mas para os fãs dos clássicos da Lucas Arts, Broken Age consegue resgatar a essência desses jogos. Já ouvi opiniões de gente dizendo que é uma das melhores criações de Tim Shaffer. E eu não duvido, pois apesar de ter me incomodado com a mecânica, tenho de admitir que existe algo mágico ali. Seja por sua beleza artística, ou por suas animações. Pelos diálogos, que são bem divertidos (até onde pude entender). O enredo também cria bastante interesse, apesar de não ter se desenrolado tão bem no segundo ato. O documentário ajudou a dar esse tempero, trazendo à tona os artistas e as mentes por trás da obra, fazendo nos lembrar que pra fazer um jogo é necessário muita dedicação e paixão.

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