Um dia de cão na piratohouse

Por Renato Degiovani

Aconteceu entre 1986 e 1988, não consigo mais precisar exatamente quando. Nesta época já havia lançado de forma independente vários jogos, como o Amazônia, Serra Pelada, A Lenda da Gávea e Angra-I além de vários aplicativos para jogos, como o Graphos III. Na época eu era editor geral e diretor técnico da revista Micro Sistemas, que dava um grande apoio ao desenvolvimento de games br.

Pois bem, nessa época ainda não era clara a questão da pirataria então várias “lojas” e algumas softhouses simplesmente colocavam à venda versões piratas de jogos estrangeiros. Algumas faziam todo um trabalho de localização, produziam embalagens distintas, etc. Outras apenas copiavam as fitas/disquetes na medida que eram compradas, tipo venda sob demanda.

Um dia, o dono de uma dessas “piratohouses” foi até a revista para fazer uma proposta de parceria, daria alguns jogos para serem sorteados na publicação em troca de descontos nos anúncios da empresa. Esse tipo de acordo passava necessariamente pelas minhas mãos, então um funcionário me trouxe um papel com os dados da empresa e um rascunho da proposta.


Quando vi que a empresa ficava a dois quarteirões da minha casa pensei: no dia seguinte passo lá antes de ir para a revista e converso pessoalmente com o proprietário. Dito e feito — mas quando cheguei na empresa o dono tinha “ido ali na esquina comprar uns disquetes”. Resolvi esperar e sentei num amplo sofá.

Enquanto esperava pedi para ver o catálogo deles, que estava na mão de um garoto ao meu lado, esperando por uma gravação. Estavam todos lá: Amazônia & cia ltda (e mais alguns que amigos produtores estavam, a duras penas, tentando produzir). Era para rodar a baiana, armar o maior barraco, etc — mas não fiz isso.

Virei para o garoto e perguntei:

Você sabia que alguns desses jogos são feitos por brasileiros?

Ele respondeu que não sabia. Aí eu não aguentei e perguntei: “Já pensou se você encontra na rua o cara que fez um jogo desses? O que você vai falar pra ele? Desculpa por ter comprado uma cópia pirata do seu jogo?”

O garoto respondeu: “Isso nunca vai acontecer porque não tem ninguém no Brasil capaz de fazer um jogo de computador”. Por um instante fiquei sem saber o que fazer.

Levantei e disse para o funcionário: “Quando seu patrão chegar diga pra ele que o autor dos jogos que ele está pirateando esteve aqui e que ele pode esquecer a proposta que fez pra revista”.

Até hoje ainda acho que eu devia ter rodado a baiana naquele dia.