O marketing é e sempre foi para as pessoas.

Tema: Comunicação

Ao falar de marketing digital já espera-se um sufixo comum: De conteúdo? Inbound? Direto? Native ads? 3-ponto-0, 2-ponto-isso, 1-ponto-aquilo… Esqueçamos as especificações e expressões durante essa matéria. Esqueça também ferramentas, dispositivos, tabelas e whatevers usadas pra mensurar números, CPC’s, CPV’s e vamos focar no seu papel original: Comunicação.


Esses dias passeando pela internet me lembrei do Ciro Bottini. Ele mesmo. O cara do Shoptime. O guru da lavagem cerebral de vendas. De instante me perguntei: Como que essa !@#$ vendia algo?

VENDER! VENDER! VENDER!

Ingênuo eu.

O comportamento do consumidor vêm mudando exponencialmente, e não é de se estranhar que o modelo de vendas usado por Bottini tinha uma performance incrível. O marketing era pras massas. Era. Já foi.

“A cantilena da Revolução Industrial foi a do fabricante que apregoou ‘Isto é o que faço; alguém quer comprar?’. A convocação da Era da Informação é a do consumidor, que conclama: ‘Isso é o que quero; alguém quer fabricá-lo?”¹

Como Philip Kotler¹ afirma acima, hoje as marcas são obrigadas a ouvir a vontade dos clientes, os desejos estão ficando mais específicos e as vontades mais complexas, os consumidores estão se transformando em usuários ativos, criando um laço empolgantemente interessante na hora de trabalhar com marketing. Tudo fica mais próximo, mais real, mais focado. Pelo menos era pra ser assim. Na imensidão de informação e baboseira despejada na internet, muitas organizações e profissionais cismam em manter as ideias no século XX e primam por encher a internet de mais conteúdo — irrelevante — e ações (na maioria das vezes falsas), esperando unicamente um alto retorno de curtidas e compartilhamentos, afinal, quanto mais curtidas mais vendas, certo?

BOTTINI, então vamos investir milhões em Google AdWords e mensurar o retorno no Analytics, é facil!”

Amigo, se houvesse receita de bolo para marketing todo mundo estaria rico. Não é bem assim que funciona — trabalhar com marketing hoje é entender que o espaço é mais dinâmico, mais horizontal, mais colaborativo, mais líquido. E você tem que aceitar isso ou vai ficar pra trás.

Vivemos tempos líquidos. Nada é para durar.²

Mas em contrapartida do conceito da liquidez de Zygmunt Bauman², prezo por um marketing que crie laços, que cative, mesmo que momentaneamente. Líquido, sim, pois se esvai facilmente e necessita da capacidade de se modificar e adaptar, mas sempre de verdade. E verdadeiro é aquele que não se limita, que sabe que só vender não basta, que procura somar pro mundo e busca transformar sua marca em valor. Verdadeiro é a Natura ajudar no desenvolvimento da região amazônica; é a Nike modificar sua produção usando poliéster reciclado de garrafas plásticas; É o — nosso — Guga Kuerten promover oportunidades de transformação social a partir do IGK; é a tia da padaria da esquina que separa o lixo…

A tendência do mercado é ter a resposta da questão: Qual o propósito que te move ou que move sua marca? E se o objetivo for parecer politicamente correto e não tiver uma base sólida, já adianto: Uma hora “a sua casa vai cair”. É complicado— pra não dizer impossível — manter um discurso falso quando todas as suas ações estão arquivadas na nuvem. A internet não perdoa. A porta da frente da sua organização é um mural para o SAC e um paraíso para os memes.

De digital, só os dispositivos.

As formas de consumir conteúdo estão mudando, mas não se engane em achar que existe diferença do público que está “no online” ou naquele que está lendo o jornal ou ouvindo o rádio (sim, ainda é normal consumir essas mídias tradicionais). As pessoas são as mesmas, a forma de lidar com as coisas é que mudou. Ainda esperamos encontrar ações impactantes e brilhantes campanhas conscientizadoras, não uma página cheia de banners e chamadas contrastantes sem pé nem cabeça. Que desempolgante é abrir uma nova guia, ser impossibilitado de ler a sua matéria, porque a marca Y comprou um banner de página inteira no site Z e você precisa de uma lupa pra achar o botão X. O digital está aqui para nos ajudar (obrigado Tim Berners-Lee), mas não adianta tratar a versão da mídia online como se trata a offline, simplesmente não funciona assim. A internet nos deu abertura a ferramentas que qualquer marqueteiro dos anos 70 morreria de inveja. Quer melhor publicidade do que publicidade grátis? Share, like, follow, reccomend, pin, tweet, crowdsourcing-funding-contest (Sorry about the english folks, essa galera da publicidade gosta de ser diferentona), tantas novas maneiras que não temos porque nos ater a velhos paradigmas, criados em cima de costumes e modelos de lucro de outra sociedade. Afirmo ser outra sociedade pois os comportamentos já não são os mesmos. O mercado também não é mais o mesmo. Apesar de todas as tentativas de monopólio de poder (não vão limitar minha banda-larga!) a internet vai tomar a frente. Já estamos identificando os benefícios desse sistema mais livre e democrático de comunicação, e se ainda não concordares comigo, deixa eu te mostrar alguns números:

Esta crescente presença digital faz com que os consumidores de conteúdo — eu, você e todo mundo que você conhece — sejam mais assíduos e exigentes do que nunca, aliás, estamos na era da informação, as pessoas estão procurando mais e mais conhecimento. A procura gera demanda. E que demanda!

Mas é aí que mora o perigo camaradas: seus concorrentes não estão mais no seu bairro ou na sua cidade. Você concorre com o mundo, e quando a procura é tanta, começam a aparecer os que fazem só pra dizer que fizeram. Mazelas. O serviço ficou tão acessível (acessível ≠ fácil) que até o sobrinho do primo é “contratado” para fazer marketing digital. E se engana quem acha que o trabalho é simples e que a ementa é mensurar performance. Para se diferenciar nesse mar de matéria é necessário pesquisa, planejamento e inovação. O verdadeiro desafio do marketing digital vai muito além do seu meio. É saber que não se trata de qual plataforma usar mas sim quando usar, é da sua responsividade e inter-relação, é entender as personas e como elas pensam, é diferenciar os millennials da geração Y, é identificar stakeholders, analisar formadores de opiniões. É a cauda longa, é o coworking, a hipersegmentação e o viral. E por fim, é compreender que os números não falam por si só, e que sai na frente quem sabe decifrá-los melhor.


E para meus colegas comunicadores e estudantes de comunicação digital, digo que podem comemorar. Tirem a cerveja da geladeira, as meias dos pés e comecem a planejar seu futuro. Seu mercado não está em crise.