A estrada de corpos - Parte 4: O Vampiro de Niterói

João Pedro Pereira
Sep 9, 2018 · 6 min read

A década de 1990 foi marcado por um aumento da violência nas ruas do Rio de Janeiro, esse foi o período onde um novo método de assalto em grupo surgia: o arrastão, e também onde o embate entre a polícia e traficantes se elevou para trocas de tiros mortíferas dentro das favelas. O ano de 1991, é destacado especialmente pela morte de diversas crianças com as perícias policiais se atrasando para reunir dados sobre os incidentes. A tecnologia era limitada e detalhes de uma autópsia de uma só pessoa demoravam até 4 dias para estarem prontos.

No cerne desses assassinatos, está Marcelo, nascido em 2 de Janeiro de 1967, em uma família pobre na favela da Rocinha, teve uma infância traumatizante. Enquanto o pai bebia e tinha crises nervosas, a mãe era calma, pacata e trabalhava em casa de família como empregada, tudo para ajudar financeiramente as condições difíceis da família. O casal se separou e Marcelo chorava constantemente por isso, não entendia por que seus pais tinham se separado, sua nova vida lhe deu como consequência problemas mentais desde cedo.
Desde pequeno, Marcelo via fantasmas e vultos durante a noite, tinha sangramentos desconhecidos pelo nariz e diversas cicatrizes na cabeça pelas surras de cabo de vassoura que levava de seu pai. Na escola, os colegas o chamavam de burro, retardado e maluco, nunca conseguiu passar de ano por não prestar atenção nas aulas e o máximo que conseguia era fazer contas simples de matemática. No seu tempo livre, gostava de nadar, pescar e matar gatos.
Aos 10 anos de idade, a família de Marcelo buscava uma nova vida, foi morar em São Gonçalo, junto com sua mãe e seu novo padrasto, Arnaldo Neves. O recomeço de vida não deu certo, devido às brigas constantes que o casal tinha, ao ponto da mãe de Marcelo, dona Sônia Xavier, enviar seu filho para morar com o pai, a madrasta e os filhos do casal em Magalhães Bastos. Seu tempo de convívio lá também foi curto pois o mesmo problema que ocorria com Sônia e Neves ocorria com o pai de marcelo e sua madrasta, os dois brigavam muito por causa de Marcelo, que era um estranho no ninho.
Dos comportamentos peculiares, ainda menino, era sua risada compulsiva e sem motivo, seus poucos amigos e sua tendência de isolamento extrema eram os que mais intrigaram. Ainda criança, Marcelo começou a passar noites dormindo na estação Central do Brasil e consequentemente era abusado por outros adultos, até dentro do metrô, fato que o levou a entrar na área de prostituição e ganhar dinheiro com isso. Mudou-se para a Cinelândia com 12 anos de idade, pela semelhança com o nome de Disneylândia, seu lugar de ficção favorito. Dali, juntava dinheiro e viajava pelo Brasil, muitas vezes, quando o dinheiro acabava, se aproveitava da situação de menor de idade e conseguia que um órgão oficial do governo o mandasse de volta para uma instituição FUNABEM no Rio de Janeiro. Dali, fugia e recomeçava o processo de se prostituir até ter dinheiro para outra viagem.
Aos 16 anos, começou um relacionamento com um homem mais velho e aos 17 tentou violentar sexualmente seu irmão, que na época tinha 10 anos. Tentou voltar a morar com seu pai, que o recusou por estar se prostituindo e eventualmente conheceu um senhor de 48 anos por quem se apaixonou e viveram juntos por 4 anos em um quarto alugado. Aos 23 anos, Marcelo se reuniu com sua mãe e a família se mudou para o município carioca de Itaboraí, Marcelo arrumou um emprego como entregador de panfletos e passou a frequentar a Igreja Universal do Reino de Deus, indo 4 vezes por semana.

Sua mãe começou a estranhar certos comportamentos recentes de Marcelo, o filho costumava sair tarde da noite com facão em punhos e voltar coberto de sangue, sobre a desculpa de estar caçando porcos e também colecionava bermudas infantis e revistas de crianças de olhos e cabelos claros, tudo isso era guardado em uma caixa de isopor que ficava dentro de seu armário.

Em 1991, Marcelo começou a matar. Suas vítimas eram crianças de 5 a 13 anos que eram atraídas por uma quantia de balas ou doces que o rapaz oferecia em troca de um serviço. Sua área de atuação era a BR-101 dentro dos territórios de Niterói. Matou 13 meninos no total, de maneira violenta, sempre esmagando crânios, degolando e violentando sexualmente as crianças. Seu apelido de vampiro vem do fato dele beber o sangue das vítimas sobre os pretextos de que ‘’era um sangue puro, e o deixaria mais bonito’’ e que ‘’ao degolar as crianças, elas não morriam, viravam anjos que iriam pro céu’’.

Surpreendentemente, Marcelo apresentou semelhanças psicológicas com Febrônio índio do Brasil, e foi considerado nos laudos do psicólogo forense que analisou o seu caso como alguém capaz de entender o mal que fazia, que não mostrava emoções e que possuía um comportamento animalesco de sobrevivência. Foi diagnosticado com esquizofrenia e psicopatia, portando distúrbios comportamentais oriundos de transtornos mentais. Marcelo foi absolvido pela justiça e enviado ao Hospital de Custódia e Tratamento Psiquiátrico Heitor Carrilho, onde ficaria por tempo indeterminado. Em 24 de Janeiro de 1997, escapou da instituição após um guarda deixar o portão aberto em uma hora de pouca movimentação, sendo recapturado no dia 5 de Fevereiro, na cidade de Guaraciba do Norte, no Ceará. Foi descoberto ali, por ser o local onde seus avós moravam e um lugar para onde Marcelo viajava constantemente durante sua época de prostituição, tudo graças a uma denúncia anônima.

11 de dezembro de 1991: Dois meninos, Altair (11) e Ivan (6), moradores do morro do Bumba, saíram da casa de sua mãe, dona Maria, em busca do que comer. Enquanto brincavam em um parque no Terminal Nove, Marcelo teria se aproximado de Altair e gostado dele por seus lindos olhos. Após dar pão aos garotos, convidou os dois para acenderem velas no Altair de São Jorge em troca de 3000 cruzeiros, ambos aceitaram sem receios e o trio andou por cerca de 7 quilômetros, até chegarem em uma tubulação de esgoto na praia do Barreto.

Ali, Marcelo teria encurralado Altair próximo às pedras e o empurrado contra uma delas, abrindo um corte forte. Enquanto Altair se encontrava inconsciente, Marcelo puxou Ivan para dentro da tubulação, onde o asfixiou até morrer, e posteriormente o estuprou. De manhã, Altair chorava com a morte de seu irmão e Marcelo ajeitava o cadáver de Ivan a um modo que suas mãos não ficassem expostas nem machucadas, ali mesmo na tubulação.
Marcelo ameaçava Altair de morte caso tentasse gritar ou fugir, os dois seguiram para seu local de trabalho, onde entregava panfletos, lá Marcelo deixou o menino sentado em um canto enquanto ia trabalhar. Altair fugiu, entre lágrimas, voltou para casa e contou à família o que tinha acontecido.

12 de Dezembro de 1991: A polícia de Niterói encontrou um corpo de um menino que aparentava ter 5 anos dentro de uma galeria de esgoto no bairro do Barreto. Estava sem camisa, apenas com uma bermuda preta e branca e um tênis vermelho. Os policiais estavam encurralados e sem pistas, devido às vastas possibilidades de ocorrência desse crime, após a necropsia ser feita, o laudo constava a selvageria com a qual a vítima fora morta: Várias escoriações pelo rosto e pela cabeça, marcas de asfixiamento, água salgada nos pulmões, ânus rompido causando uma evacuação descontrolada do bolo fecal e ferimentos no joelho.

22 de Dezembro de 1991: Dona Lúcia, Altair e o resto da família vão até a delegacia e dão seus depoimentos, a morte de Ivan é confirmada, causando imensa tristeza.

4 de Janeiro de 1992: Marcelo é preso em seu local de trabalho, após os depoimentos e detalhamentos de locais do crime dados por Altair.

Em 2003, a escritora e criminóloga Illana Casoy fez uma vasta entrevista com Marcelo, aqui se encontra um trecho dela:

Illana: Você é uma pessoa muito solitária…Você não podia contar com ninguém…Não podia pedir ajuda pra ninguém. Nem pro teu irmão você contava? Se você contasse o que ia acontecer?

Marcelo: Acho que ele não ia acreditar, né?

Illana: Você acha que começou aí? Na época em que alguém fez alguma coisa errada com você?

Marcelo: Não.

Illana: Em casa, faziam alguma coisa errada com você?

Marcelo: Não, só quando eu saí de casa.

Illana: Quando você foi viver na rua?

Marcelo: É. ¹

1: Fonte: CASOY, Illana. MADE IN BRAZIL, Serial Killers, pg-573. 2016. DarkSide Books, Brasil

Mais tarde, Marcelo realizaria outra entrevista em sigilo, no ano de 2007.

Número de vítimas: 13 (Todas crianças, masculinas)

Nomes e idades:

Ivan Ferreira, 6 anos, morto em 11 de dezembro de 1991.
Outras 12: Desconhecidas.

1994

Pensamentos e pesquisas de um estudante que ainda tem muito o que aprender.

João Pedro Pereira

Written by

Jornalista em treinamento, aspirante a escritor, alma perdida na vida.

1994

1994

Pensamentos e pesquisas de um estudante que ainda tem muito o que aprender.

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