O Pequeno Alberto

por Igor Fernandes

A chuva riscava a janela do carro, lá dentro eles estavam seguros, o pequeno Alberto e sua Família, sua irmã mais velha, Beatriz e seus pais, Joana e Ricardo. Era sexta-feira e eles se preparavam para sair de Vila Isabel, onde moravam, em direção a região dos lagos, no Rio de Janeiro. O noticiário havia anunciado um fim de semana com Sol, que se estenderia pelo resto do feriado prolongado. não seria uma viagem muito longa, mas havia uma grande chance de enfrentarem um engarrafamento violento, como gostava de repetir o pai, prevendo o acontecimento durante a semana que antecedeu as férias, como se não fosse algo comum no carnaval, até o pequeno Alberto sabia disso!

O menino havia completado sete anos recentemente. era um garoto moreno e de cabelos encaracolados, de uma curiosidade precoce e adorava ler, livros e quadrinhos, e jornais, e o rotulo da caixa de cereal, ele lia qualquer coisa e lia coisas estranhas. Por isso ele tinha um livro enorme em suas mãos, era velho e com uma aparência desgastada, mas ele tinha insistido em levar na viagem, O Poço de Visconde, de Monteiro Lobato. Um clássico ele argumentava! “cadáveres de foraminíferos, peixe podre, cemitérios de caramujo”.

Cantarolava. — PETRÓLEO! PETRÓLEO! — exclamava ao passar pela ponte RIO-NITERÓI. apontando para as plataformas.

Sua irmã insistia em sentar o mais distante possível, gritando — tira isso de perto de mim, esses livros, eu tenho alergia! — e ele adorava berrar, imitando a voz caricata da professora de literatura idosa, famosa no colégio onde estudavam

- ALERGIA DE LIVROS MARIA BEATRIZ? — Então ela se afastava ainda mais e colocava o fone nos ouvidos.

A luz da estrada era vacilante e dificultava a leitura. Sua mãe interagia superficialmente, fixada no tablet, sentada no banco da frente e o pai dirigia atento, mas não estava presente, enquanto sua irmã havia pego no sono, Alberto observava as luzes passarem uma a uma em seu rosto refletido na janela, em ritmo e de repente cessavam e assim repetiam o padrão.

A estrada era escura e os faróis passavam ao seu lado na pista oposta, em grandes velocidades rasgando o ar, as estrelas brilhavam e o céu se enchia com elas e luz da lua era alta no céu. Nuvens pesadas se formavam no horizonte, mas a noite era estava limpa. O farol iluminava a escuridão e dava vida aos riscos pintados no asfalto, eles se acendiam e sumiam, formando uma linha continua.

O impacto foi tão violento que, em um piscar de olhos ele havia conseguido enxergar uma carreta enorme em colisão com o carro em que ele estava a 15 metros de altura e…

Houve uma enorme força contra a parte de cima da sua cabeça, era apenas a gravidade, separada do corpo, ela caia em direção ao asfalto, baque. Com um olho para fora e uma enorme fratura craniana que empapava massa cinzenta em uma poça de gasolina, que jorrava do caminhão. Naquele momento suas sinapses nervosas emitiram seu último pulso eletromagnético, tal pulso havia iniciado uma combustão em contato com o combustível, ocasionando a explosão celular de neurônios do córtex, carburando lembranças, emoções e sentimentos a nível molecular.

O pequeno Alberto havia se recordado daquele momento no zoológico, os macacos, a girafa. ele sempre havia tido uma certa curiosidade a respeito dos animais. Considerava-os Seres impossíveis, não acreditava que eram apenas animais, não entendia como viviam, apenas vivendo, selvagens. uma fotografia queimava e ele inalava todo aquele vapor tóxico e seu peito ardia.

Seu avô havia reforçado na mente de Alberto que tudo tinha um propósito e como todo ex-militar da velha guarda e de formação católica, gostava de ressaltar que “os animais só viviam para servir ao homem”. Aquilo sempre havia sido motivo de pesadelos para Alberto, como toda criança ele amava animais, mas nunca havia se questionado da onde vinha a carne, ele temia acabar servindo apenas de comida para um gigante, tinha medo de ser tão inocente ao ponto de achar que tinha algum tipo de liberdade para viver suas tão sonhadas aventuras. De ser iludido como um bicho pro abate, de ser apenas criado em cativeiro para exposição, ou ser um cachorrinho para alguma madame.

Foram noites e mais noites de pesadelos, frequentemente ele sonhava com alienígenas e fantasmas que o paralisavam de medo e tiravam o som do seu grito e o colocavam em uma jaula com um prato de carne crua e um jarro de leite. E as fotografias queimavam.

Seu avô havia ficado seriamente doente e o clima na família era tenso. Eles procuravam manter tudo o mais normal possível perto das crianças, eram um casal bem sucedido, responsáveis e jovens, mas agora o clima era sempre pesado e falso entre eles, mas havia um esforço de não passar isso para as crianças.

Alberto então começou a alimentar uma nova gama de medos, tinha pesadelos e questionamentos a respeito da morte, frequentemente sonhava com algum membro da família morto, cadavérico e apodrecido. Aquilo era apavorante e constantemente ele acordava chorando no meio da madrugada e não conseguia mais dormir. Em uma manhã, acordou cedo e assistiu a um programa sobre abate de aves e bois, logo mais havia vomitado uma refeição depois de se pegar pensando na origem da carne da salsicha no macarrão da merenda. Arranjou brigas com seus colegas de classe e sua nota caiu. Nesse período Alberto se apegou aos livros. Gostava de ler e sempre escolhia um livro como presente em seu aniversário. O seu peito queimava.

Ele não sentia seu corpo, estava deitado de lado e sua testa ardia profundamente, a escuridão começou a entrar na sua cabeça através da ferida. Ele gritava mas nenhum som saia de sua boca, ele estava no vácuo infinito e nenhuma estrela brilhava no céu, não havia nada, só o preto profundo. E se passaram anos e esses anos viraram décadas e as décadas foram muitas, a contemplação da solidão, por uma mente infantil. Desprovido de propósito em seu desenvolvimento. Por uma violência devastadora. Quarenta e Uma toneladas de aço a cento e trinta e cinco quilômetros por hora. Uma centopeia gigante surgia da escuridão, emanava uma luz própria, um contraste único dentro de toda aquela devassidão, ele nunca havia visto a cabeça de uma lacraia com tamanho detalhe, ela era enorme e repugnante, devorava sua cabeça como um inseto necrófago faria, sugando a carne, a gordura e os músculos do crânio acidentado, pouco antes de terminar, quando só restavam as gelatinas dos olhos desformes em um crânio quebrado com nacos de músculo pendurados na têmpora, uma luz avassaladora que imediatamente queimou a aberração profana, surgiu divinamente iluminando a escuridão. A luz havia adquirido tons violetas, era quente e acolhedora, provendo seus ferimentos com uma sensação reconfortante, não sentia dor exatamente, nunca houve dor, sempre foi mais um enjoo, mas sabia que algo muito ruim havia acontecido.

5 dias depois…

O pequeno Alberto e sua família haviam sofrido um terrível acidente de carro, todos os membros tiveram algum parte do corpo decepado, seu querido pai, foi partido ao meio do ombro esquerdo para baixo, sua amorosa mãe havia afundado a testa no porta-luvas quebrado o pescoço e tinha uma terrível fratura exposta na nuca. Sua doce irmã perdera a perna esquerda e o braço direito, a mão e o maxilar. E finalmente, Alberto havia tido a cabeça decepada, lançada contra a vidraça traseira do carro que havia rasgado sua testa, lançada a 15 metros para o alto, seu rosto estava desfigurado pela queda e seu olho esquerdo completamente perdido, seu cérebro ficou exposto por 4 minutos banhado na gasolina que vazava do caminhão, até que o resgate chegasse em carros branco brilhantes com sirenes que emitiam luzes fosforescentes peta-violeta.

Por sorte nossa equipe de médicos conseguiu reverter o quadro mórbido e restaurar grande parte das fraturas e das lesões, reconstituindo toda a estrutura corporal dos acidentados, com as técnicas de medicina avançada experimental implementada na CAVE INSTITUTES. “Nós estamos onde você está!” Falava o homem, com aparência de um cientista astronauta do futuro, ao repórter. Então é isso — virou pra câmera confuso, aquilo era estranho para qualquer um e nada convencional.

Amanhã, teremos flamengo e botafogo pela segunda divisão do campeonato carioca 2031! E vamos agora com o Marcelo Coutinho direto da Sapucaí com as ultimas noticias do carnaval carioca!!!

- Mesmo com a chuva as escolas de samba ainda desfilam com alegria!!! ESTÁ TUDO MUITO LINDO AQUI NA AVENIDA, SANDRA!- seguro de mais um carnaval bem sucedido.