Prepare-se para a era da Computação afetiva

Empresas investem em IA capaz de reconhecer, interpretar e simular emoções a fim de melhorar interações e colaborar com as mais variadas necessidades humanas.

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As nossas emoções primárias conseguiram evoluir muito antes de nossas funções racionais. É o que explica a famosa teoria das emoções básicas do psicólogo Paul Ekman. O especialista, que também é palestrante e escritor, aponta cinco expressões faciais primitivas: raiva, nojo, alegria, medo e tristeza — todas com origem biológica e universal. Ekman chegou a essa conclusão após estudar, de 1967 a 1968, a comunicação não-verbal da tribo Fore, um povo isolado na Papua Nova Guiné. No estudo, ele mostrou fotos de diferentes expressões faciais básicas a tribo, e descobriu que eles compreendiam. Posteriormente, o autor tirou fotos dessas mesmas pessoas fazendo expressões correspondentes e as mostraram para grupos de diferentes etnias pelo mundo. Então, essas mesmas emoções foram reconhecidas.

A emoção está no centro do que nos torna humanos, moldando e aprofundando a nossa experiência com o mundo. Desde então pesquisas sobre o assunto se multiplicaram, ao mesmo tempo que apareceram novas ferramentas de comunicação, guiando a compreensão sobre as emoções para outro estágio.

Por meio das redes sociais e mensagens instantâneas, aprendemos a transmitir alegrias e insatisfações em caracteres — isso inclui todas as maneiras de abreviar palavras, hesitar e adicionar ou não pontuação. Você já chegou a imaginar como uma simples conversa com um colega de trabalho pelo no WhatsApp, por exemplo, pode guardar padrões de comportamento, emoção e comunicação subjetivas inimagináveis?

Com o tempo também aprendemos a compartilhar, principalmente nas redes sociais, as nossas felicidades e frustrações com o auxílio dos mais variados símbolos, como emojis, gifs e memes. Com ajuda dos últimos modelos de smartphones, que captam e reproduzem expressões faciais de maneira extraordinária, nos transformamos em avatares animados, que divertem a família e amigos nos tempos livres.

Se as ferramentas, das quais utilizamos para nos comunicar e transmitir as nossas emoções mais básicas modificaram a comunicação, o próximo paradigma será ainda mais grandioso: a transformação e a inserção de novas espécies de interlocutores empáticos.

Bem-vindo a era da inteligência artificial afetiva

Não é de hoje que falamos com inteligências artificiais programadas — ou você nunca desafiou a Siri, assistente da Apple, ou a Cortana, da Microsoft, a contar uma piada? Falamos com as máquinas há bastante tempo, porém muitas vezes nem percebemos. Existem inúmeras empresas que utilizam chatbots para executar atendimento inicial por site e por telefone. Mas que a verdade seja dita, na maioria das vezes, a experiência não é nada confortável ou fluída. Por esse mesmo motivo, as emoções se tornaram “matérias-primas” preciosas para transformar a relação entre homens e máquinas em uma experiência muito mais natural, espontânea e, até mesmo, colaborativa.

Há algumas décadas, empresas estão desenvolvendo algoritmos de reconhecimento de padrão de comportamento, tom de voz, expressões faciais e maneiras complexas de comunicação não verbal — como o estilo de teclar — para compreender as emoções humanas. A startup Affectiva, baseada em Boston, por exemplo, desenvolveu um software de reconhecimento facial e voz, com 80 % de precisão, para identificar emoções e estados cognitivos humanos.

A empresa é uma das pioneiras da integração da “computação afetiva”, conceito batizado pelo futurista Richard Yonck, autor do livro “Heart of the Machine: Our Future in a World of Artificial Emotional Intelligence”. É também um dos ramos de pesquisa do MIT Media Lab, nos EUA. O lugar conserva, há quase três décadas, um instigante departamento dedicado, exclusivamente, às emoções. A ideia é desenvolver sistemas de Inteligência Artificial que incorporam dados emocionais, vislumbrando um mundo no qual as tecnologias respondam à frustração, solidão, ansiedade ou simplesmente colaborem com as mais variadas necessidades humanas.

Como a computação afetiva está ajudando o mundo?

Com estudos, aplicações em testes de marca, desenvolvimento de produtos Deep Tech — tecnologia profunda — e a inserção da tecnologia emocional em níveis comerciais, a tendência é que o setor cresça exponencialmente. Segundo o mais recente relatório sobre o assunto, publicado pela Market Research Future (MRFR), o mercado global de detecção e reconhecimento de emoções alcançará em torno de US$ 65 bilhões até o final de 2023. Como resultado desse avanço, estamos assistindo ao início do que Richard Yonck chama de “economia da emoção”.

O potencial da “empatia artificial” é tão poderoso e variado, que deve atingir diversas áreas de nossa vida cotidiana. No setor da educação, por exemplo, seria extremamente útil para personalizar experiências educacionais e oferecer soluções para crianças que necessitam de abordagens diferentes — como autistas, disléxicos e hiperativos. Na saúde, essa tecnologia poderia ser usada para prevenir o desgaste emocional de enfermeiras, ajudando-as no atendimento inicial ou acompanhamento do tratamento dos pacientes. Já na área automotiva, a IA afetiva evitaria graves acidentes ao perceber que o motorista está distraído ou sonolento.

Hoje, algumas empresas já estão usando o potencial da IA emocional para melhorar a vida e atender as necessidades e carências dos mais variados públicos. O cãozinho Miro, por exemplo, ajuda pessoas idosas a lembrar de tomar remédios e a comparecer em seus compromissos — além de ser uma companhia bastante agradável. A inteligência artificial também fica de olho no estado de saúde de seu companheiro idoso, que se não responde ao seu chamado, envia um sinal para o centro de controle, alertando-o sobre um problema.

Outras empresas estão desenvolvendo IA terapeutas, que já conseguem lidar com as emoções humanas, avançando o nível de interação. Como o Karim, um chatbot da startup americana X2AI, construído especialmente ajudar refugiados, que lidam com problemas de depressão e ansiedade nos campos. A IA conversa com o interlocutor em árabe, por meio de mensagem de texto. À medida que o usuário interage com Karim, o sistema usa o processamento de linguagem natural para analisar o estado emocional da pessoa e retorna comentários, faz perguntas e fornece recomendações apropriadas.

E no ranking das mais populares está Ellie, da SimSensei, um avatar interativo da área da saúde, criado para atender veteranos de guerra. A IA é capaz de identificar sofrimento psicológico, como depressão, ansiedade e estresse pós-traumático. O robô tem inteligência emocional elevada com a capacidade de se envolver com o interlocutor em uma entrevista individual. Dessa forma, Ellie ouve, faz perguntas e fornece alternativas para seus “pacientes”.

Novos negócios com a IA afetiva

Com o tempo, todas essas tecnologias se tornarão cada vez mais interconectadas e interdependentes, dando origem a um ecossistema de serviços e dispositivos sofisticados, que terão a função de ajudar a população de diversas formas. Esta não é uma realidade distante. O robô Pepper, da SoftBank, uma IA aprimorada, já é capaz de reconhecer emoções humanas pelas expressões faciais, análise das mudanças no tom de voz e a escolha das palavras usadas pelo interlocutor. Como um robô social, Pepper tem habilidades de responder de acordo com cada reação humana. Por isso, recentemente, ele foi incorporado no Instituto Smithsoniano, um complexo de 19 museus em Washington, nos Estados Unidos. A instituição absorveu 30 modelos robóticos que servirão como guia turístico do espaço, atraindo ainda mais visitantes.

Pepper, Ellie, Karim e Miro são algumas das inúmeras possibilidades de interações de humanos com as inteligências artificiais afetivas. Baseando-se no desenvolvimento dos algoritmos, aprendizado profundo das máquinas e da evolução da Internet das Coisas, a expectativa é que a IA emocional seja tão comum quanto carros e telefones, se integrando à vida familiar e também corporativa. É uma revolução diária e bastante orgânica, que deve mudar toda a forma como nos relacionamos com as máquinas, que passarão de gadgets e equipamentos passivos, a parceiros mais colaborativos e extremamente úteis em nossas vidas.

Obviamente, que o caminho para uma “economia da emoção” totalmente estabelecida não estará completamente isenta de obstáculos. Existem muitas questões sobre privacidade, proteção de dados e ética que ainda devem ser compreendidas e absorvidas, primordialmente, por desenvolvedores e empresas de tecnologia. Contudo, esse cenário não impede que organizações comecem desde já a descobrir a melhor forma de aproveitar os avanços disponíveis e revolucionar o mercado. É uma oportunidade única de melhorar serviços, a experiência de consumidores e, consequentemente, a vida da população em geral de maneira muito mais profunda.

Texto por: Mayhara Nogueira


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