1STi
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Nov 21, 2018 · 5 min read

Quando a tecnologia se conecta com os valores humanos e as necessidades do Planeta, uma energia transformadora reequilibra a sociedade. Construímos negócios mais autênticos, tecnologias com propósito e uma economia mais sustentável.

Ilustração by Igor Postiga

“A nossa sociedade tem favorecido sistematicamente o yang em detrimento do yin — o conhecimento racional prevalecendo sobre a sabedoria intuitiva, a ciência sobre a religião, a competição sobre a cooperação, a exploração de recursos naturais em vez da conservação, e assim por diante. Essa ênfase, sustentada pelo sistema patriarcal durante os três últimos séculos, acarretou um profundo desequilíbrio cultural que está na própria raiz de nossa atual crise — um desequilíbrio em nossos pensamentos e sentimentos, em nossos valores e atitudes, e em nossas estruturas sociais e políticas.”

O trecho acima corresponde ao livro Ponto de Mutação do cientista Fritjof Capra. O autor, por meio do Tao (filosofia chinesa), propõe uma nova abordagem sobre a realidade. Segundo Capra, uma das alternativas para promover movimentos positivos e profundos no mundo é substituir os paradigmas cartesianos (Descartes) e mecanicistas (Isaac Newton), por uma visão sistêmica. Para ele, apesar desses pensamentos terem nos levado a lugares distantes no universo, restringiu a humanidade ao pensamento racional. Ao invés de a vida humana e natural serem assimiladas como um todo — interligadas e interdependentes -, Newton, por exemplo, propôs que o mundo fosse compreensível e previsível como os mecanismos de um relógio.

Tal pensamento influenciou, entre outras iniciativas, a construção de tecnologias completamente insustentáveis e desconectadas dos valores humanos. O exemplo mais recente foi a criação das moedas digitais, como o Bitcoin. Embora tenha popularizado uma tecnologia impressionante e próspera como o Blockchain, a inovação não foi capaz de prever impactos negativos nos recursos naturais do Planeta. De acordo com a pesquisa realizada pelo economista holandês Alex de Vries, do Experience Center da PwC, a rede de computadores envolvida na produção e mineração de bitcoins consumirá até o fim de 2018, 7,7 gigawatts por hora — 0,5% do consumo mundial de energia elétrica, o suficiente para abastecer um país do tamanho da Áustria.

Além da exploração de recursos naturais, outras áreas da sociedade são afetadas por essa desconexão de valores: como o comportamento humano. A automação, que até então prometia libertar o homem do fardo do trabalho pesado, agora ameaça as suas habilidades intelectuais. Dados sobre o impacto da automação na disseminação de fake news em larga escala, nas Eleições Brasileiras de 2018, acionou um alerta vermelho: estamos produzindo tecnologias alienantes de grande aderência. A longo prazo, este comportamento poderia provocar um cenário degradante para o mercado: um batalhão de profissionais sem senso crítico, pouco capacitados, criativos, ou seja, uma massa irrelevante.

Desse modo, Capra propõe que para a humanidade evoluir com prosperidade é preciso que enxerguemos o mundo a partir de uma visão holística — compreendendo o mundo no qual todos os fenômenos, os seres vivos e seres humanos estão integrados em uma teia. Apesar de ter publicado em 1975, o conceito do escritor é um copo d´água para líderes criativos e conscientes, que buscam construir marcas, negócios e tecnologias autênticas e transparentes. Hoje, a tecnologia se alia a essa tendência ao se conectar profundamente com os valores humanos e as necessidades do Planeta. Esse encontro — capaz de gerar uma energia transformadora e revolucionária na sociedade — é o que chamamos de “Tecnologia com Alma”.

O termo “Tecnologia com Alma” ganha importância ao traduzir bits e bytes em iniciativas com propósito.

Essa forma de desenhar tecnologias de maneira intencional está provocando um espiral ascendente em diversas áreas da sociedade: como na produção de alimentos na África, na qualidade da saúde na Índia e na educação no Brasil.

A empresa Supplant está usando modelos de big data para ajudar países africanos a atingir autossuficiência na área da alimentação. Dados, coletados por meio de sensores revelam, em tempo real, um feedback sobre as condições do solo, do clima e das plantas. Dessa forma é possível otimizar o consumo de água, contendo o desperdício e buscar alternativas de plantio de novas espécies. Enquanto isso na Índia, startups (Portea, AdressHelt, Mitra Biotech e Artelus) utilizam aplicativos, plataformas, inteligência artificial e aprendizado de máquina para gerar diagnósticos, prognósticos e tratamentos de doenças de forma mais acessível à população.

No Brasil, a 1STi, com o programa Vai na Web, promove um programa de educação digital avançada e de alto nível, abrangendo toda a gama de competências relacionadas à Tecnologia da Informação e habilidades socioemocionais. O programa é destinado para jovens de duas favelas do Rio de Janeiro: Complexo do Alemão e Morro do Prazeres. A iniciativa já formou mais de 150 jovens; destes, uma parte já está estabelecida na profissão, outra contribui com os sua própria comunidade e uma parcela continua evoluindo e prosperando em novas áreas.

Essas iniciativas tecnológicas são a resposta de uma revolução de consciência que vem se materializando há décadas, em decorrência de diversos movimentos e gerações que questionam o comportamento de consumo.

O conceito “Small is Beautiful” (criado por E. F. Schumacher) ganhou espaço em detrimento da ideia de grandes empresas, o consumo consciente sobre o exagerado e o minimalismo sobre o maximalismo. Atualmente, a própria Geração Z (jovens nascidos após 1998) se tornou uma grande força que vem antecipando grandes rupturas no mercado, uma vez que se relaciona de forma diferente com o consumo: prioriza ética — “a transparência é obrigação, e não opção” — e singularidade — “contra a lógica da produção em larga escala”.

Tal nível de consciência vem estimulando empresas a se reinventarem para continuar evoluindo nesse novo contexto. Para orientar marcas (comerciais e sociais) e líderes criativos nesta nova fase, Simon Robinson e Maria Moraes Robinson (autores do livro Customer Experiences with Soul: A New Era in Design) desenvolveram o Círculo Holonômico. A ferramenta, galgada sob ótica sistêmica, articula o significado da alma em um contexto de design, inovação, estratégias e marcas.

Quando empresas e tecnologias conseguem realmente se conectar e compreender as reais necessidades da sociedade, soluções muito mais prósperas começam a emergir. Por isso, para que possamos mergulhar mais profundamente e causar grandes revoluções, precisamos fazer boas perguntas. Parafraseando Kevin Kelly (autor do livro Inevitável — As 12 forças Tecnológicas que Mudarão o Nosso Mundo), “a boa pergunta é a semente da inovação” e “os criadores de perguntas serão vistos, justificadamente, como impulsionadores de novos setores, marcas, possibilidades e continentes”. Consequentemente, nos resta questionar: de que forma estamos direcionando a nossa energia e a nossa consciência na construção de um mundo novo?

Por Mayhara Nogueira


A Deep Tech Stories foi criada para que possamos conversar sobre a essência da tecnologia como se deve: com seriedade, inspiração e profundidade. Acreditamos que o futuro precisa se alimentar de boas histórias para fazer sentido. Acompanhe a publicação e descubra o jeito 1STi de enxergar a tecnologia.

Saiba mais em: www.1sti.com.br

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