Deadline

– Santo Deus! O prazo é amanhã! Puta merda!

Ademir rogou aos céus com toda sua sensibilidade e paradoxalidade de um ateu. Chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza daquele dia. Em seu aniversário, vivia a aflição do rumo devastador que sua vida havia tomado: arranjara um emprego. Temporário. Um freela. Escrever um livro de 300 páginas. Um verdadeiro absurdo, caso não fosse ele um escritor.

O job foi fechado há um mês. Trinta dias para entregar um esqueleto, ficha dos principais personagens já pré-concebidos no briefing e, por fim, um rascunho do primeiro capítulo. Ademir pedira trinta e um dias, afinal, o trigésimo cairia em seu aniversário. Conseguira o dia extra, mas de nada fazia diferença, já que no penúltimo dia nem sequer havia criado a pasta do projeto, que dirá quaisquer dos documentos que deveria ter produzido.

Salta da cama, abre e inicia seu notebook e vai ao banheiro. Tudo em instantes. Recebe dois gentis bons dias uníssonos, cada qual penetrando cada um de seus ouvidos. O da orelha direita soava eletrônico, vindo de seu próprio quarto; a voz do lado esquerdo vinha da cozinha – talvez ainda mais eletrônica – era de sua mãe. Ademir ignora ambos e volta ao seu quarto assim que sua bexiga permite.

Oito e meia.

Hora de trabalhar! Mas antes, claro, precisava se atualizar: fofocas, memes, indiretas, testes de personalidades sem fundamentos, indústrias Wayne, tipos de café, móveis modulares e a foto da crush.

“Crush, que termo merda…”, pensa Ademir. Mas admite não ser tão pior que paixonite dos anos 80 ou a paquera dos anos 90. Os anos 2000 viveram sem uma palavra ruim dessas… Ficante era muito sem graça. Peguete, talvez. Mas peguete não pegou. Ainda assim, os millennials se acha a nata da internet por ter comprado Passatempo por R$0,50 e assistido dúzias de animes.

– Ah, preciso trabalhar! – lembra.

Não queria trabalhar. Achava irônico ser pago pelo que não fazia e fazer de graça o que fazia como um profissional: procrastinar. “Que mundo ridículo!”, conclui Ademir. Abre, finalmente, um novo documento de texto.

– Mas já?! – era a voz do bom dia secundário. Vinha de seu notebook. Não do Skype, não do Youtube. Do SEU notebook.

– É lógico! É pra amanhã! – responde Ademir, emputecido. Não com o deadline, mas por ter aceitado um deadline em sua vida. Sua barriga ronca – Só vou almoçar antes. Já são duas horas.

Quatro horas.

– Olha que merda, Marvin. Fui contratado pra escrever a mais clichê e idiota das histórias – resmunga ao voltar para o quarto.

– E daí?! De acordo com o seu histórico no bankline e os e-mails trocados com a editora, esse é o dinheiro mais fácil que você já ganhou! – Marvin, o computador, apresenta um gráfico nivelado por baixo e despontado no final – Aliás, foi só por causa do adiantamento que você pôde sair com aquela moça do acompanhantesdeluxo.net… como era o nome…? – Marvin inicia um processo, fazendo uma busca rápida nos cookies, – Vanessa Chupe--.

– Fica quieto, Marvin! – exclama enquanto senta o dedo no Esc repetidas vezes. Seu almoço acabara de revirar em seu estômago. Suava frio se atentando a porta do quarto. Temia que sua mãe tivesse ouvido. Parecia um veado quando nota seu predador à espreita prestes a dar o bote. A barra de volume do mixer de áudio do notebook desliza para baixo.

Aqui é um bom momento pra falar isso. Ademir realmente estava desgraçado da sua cabeça. Caso você não esteja convencido, aqui vai uma lista de porquês: falava com seu computador. E se você não chegou nesse nível de insanidade ainda, deve saber que notebooks não falam e nem tem esse nível de autonomia pessoalizada principalmente em 1957, quando notebooks nem existiam ainda; estava preocupado que sua mãe ouvisse aquela conversa, mesmo sabendo que apenas ele podia ouvir e conversar com aquele notebook que não existia, espero que tenha pego essa parte; ah, sua mãe também não existia. Digo, não fique triste. Ela está viva, mas não estava ali. Alguém tinha que pôr comida na mesa. Ela estava trabalhando; Ademir era um vagabundo. Procrastinava o dia inteiro e…

– Ei! Artista!

Não sei como ele me ouviu, mas deixe o homem falar.

– Não me rendo ao sistema, não devíamos trabalhar para os outros, para o governo, mas viver nossa vida e ser feliz. Fazer o que amamos! Por isso espero a inspiração para escrever, crio mundos, crio vidas! Escrever com prazos mata todo o processo de criação artística!

… E “falta de inspiração” e “sistema quebrado” eram as desculpas que sempre usava. Era o que eu ia dizer. Mas o principal motivo por sua loucura era a mais sui generis possível: era um gênio incompreendido! Você está surpreso?! Vai dizer que não é genial como ele consegue imaginar o mundo de um procrastinador profissional de 60 anos no futuro?! Quer dizer, tirando o notebook falante. Talvez era a visão de mundo perfeito dele. Mal sabia as tretas que esse mundo trariam, mas não posso culpá-lo… Ele viveu a Primeira e a Segunda Guerra. E sem internet!

Ah, esqueci de me apresentar. Sou o narrador dessa história metaficcional clichê de um escritor genial com crise existêncial com tendências suicidas. Enfim, desculpe pela interrupção. Continue acompanhando as peripécias de Ademir e seu “notebook”.

– OK, mas qual o problema? Ela não sabe que você terminou com a Elen? Aliás, não vai apresentar a Vanessa para sua mãe?

– Óbvio que não! A Vanessa é… deixa pra lá. – sussura Ademir, ainda focado na porta, tentando se certificar que tudo estava bem.

– Aconteceu o mesmo que com a Elen? Você ficou complexado com o seu pequeno pê--.

Ademir dá um sobressalto épico, capotando a cadeira. Imagine você, uma tarântula colossal de olhos avermelhados e chifres demoníacos subindo a sua perna. A reação de Ademir foi para tal, mas apenas queria mutar – com certa impetuosidade desnecessária – o som de Marvin.

– Marvin! Não tenho nenhum complexo! Meu… você sabe, tem um tamanho perfeitamente aceitável!

– Então, por que na quinta passada você estava vendo o site “aumenteseup--”

– Marvin, porra! Cale-se! Não é…

– Principalmente depois que você viu o tamanho daqueles rapazes que estavam festejando no “gayporn.c--”

Ademir arranca o notebook da tomada.

Percebe agora o quanto era genial?! Ele conseguiu imaginar que existiriam sites de aumento peniano (tá, poderia ser apenas um desejo reprimido) e que homens heterossexuais não assumiriam nem para si mesmos que já viram pornô gay escondido, com medo de cairem seus colhões. E sobre o notebook desligando ao tirar da tomada… isso ele errou feio mesmo.

Algumas arfadas depois, substituídas por uma respiração insossa, ele religa o notebook. Afinal, tinha de escrever.

– Marvin, fique quieto agora, ok? Vamos falar apenas do trabalho! Tenho muito a fazer. Vou começar essa desgraça de clichê amador.

– Fala como se não escrevesse apenas romances mela-cuecas. – sussurra Marvin com o volume de sua placa de áudio no mínimo, enquanto puxa de sua memória (rígida), na pasta documentos, os trabalhos de Ademir.

– O que?! – esbraveja Ademir, com as orelhas febris prestes a ebulir, ameaçando ir até a tomada novamente.

– Nada. Nada! Qual o briefing? Não o acho.

– Ah, salvei no móvel. E sem crise de ciúme! – adiantou Ademir, antes que o computador lançar uma carga extra de voltagem no cabo que o smartphone estava conectado. Ele pega o celular e abre o briefing.

E você acha que Steve Jobs era um gênio?! Por favor…

– Basicamente, uma história de um escritor genial em crise existencial… – diz ademir em pausas e boca mole, fazia mais esforço pra deixar a sinopse entediante do que para escrever. E nem ele acreditava ser tão ruim assim.

– Com suicidal thoughts, calculo. – processa o note.

– Exato…

– Assim como “A Pena Branca”, “As 12 badaladas”, “Palavras sem virtudes”… – diz o notebook enquanto abre o documento de cada livro escrito por Ademir.

– Ei! Meus trabalhos não são assim! São expressões artísticas inspiradoras e de muito bom gosto! São contos metaficcionais de discussões sobre o que qualifica uma obra de arte é como esse mundo subvaloriza a genialidade do artista e se vêem deslocados socialmente…

– … E se matam.

Silêncio constrangedor. Mesmo para um monólogo. Ademir arregala os olhos, roboriza, puxa o ar, enche a boca. Uma explosão colérica berrante estava prestes a acontecer – ou estava apenas contendo um arroto. Nunca saberemos. Ademir apenas fechou os olhos e expirou lentamente com um leve assobio irritante. Você poderia confundí-lo facilmente com uma bexiga, se nela, claro, um rostinho estivesse desenhado. E continuou o mais brando possível, o que não era brando de jeito algum.

– E… em seu epitáfio, deixa para o mundo suas reflexões.

… E se matam. O computador estava certo. Ademir era um escritor clichê. E não dos bons. Havia escrito dezessete romances nos últimos vinte anos jamais aceitos por qualquer editora e todos eram exatamente o tipo de trabalho que foi contratado para escrever. Ademir era um gênio, um visionário, um criativo, um artista, um futurista, mas não era um bom escritor.

Ademir joga as mãos cruzadas para trás da cabeça, se reclina e começa girar a cadeira, enquanto bufava e olhava para o teto. Ele realmente estava dando a vida para fazer daquele momento a definição do tédio.

– Sabe qual é a merda, Marvin?! Ser pago para escrever uma coisa dessas… um clichê. Um clichê de cachê do michê. É como me sinto. Me sinto vivendo nesse clichê. Sou um escritor, sou um gênio! Não sei qual o sentido, propósito, ou valor de fazer o que faço pra girar essa porcaria chamada dinheiro…

Marvin abre um novo documento. Nomeia-o de “Epístola à minha família”.

– Bom, então falta só escrever sua carta de suicídio.

Ademir respira fundo. Encara sua carta de suicídio tão em branco quanto seu job.

– É o que parece… – Pensa. Olha para um lado, para o outro, admirando as também brancas, porém mofadas, paredes de seu quarto. Pensa.

– Nah, minha história não deveria acabar tão piegas assim. E já é quase meia-noite. Tô sem inspiração. Boa noite, Marvin.

Ademir desliga o notebook e se deita. Abre seu perfil no seu celular e só pega no sono quando a bateria está para acabar junto com a noite que era substituída pela penumbra do amanhecer que já entrava pela janela, no alto das cinco e tantas. Ademir previu o futuro como ninguém, só nunca conseguiu imaginar, mesmo em seus dias mais inspirados, que pessoas tirariam fotos fazendo duck face na frente do espelho. Quem imaginaria, afinal?

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