Verso Base

Sonho. Era a palavra daquela noite. Realizado? Intranquilo? Ela ainda não sabia. Os murmúrios alegres num pequeno bar disfarçado de loja de conveniência, quebravam a serenidade da madrugada. Ter clientes às 3h30 de uma terça-feira, surpreendia os funcionários. Pois nada mais era do que um dia comum. Não para os que ali estavam.

Na mesa, um trio bem resolvido e à procura de novas aventuras. Como se estampado em suas testas estava “Encarei a crise dos 30 e sobrevivi!”. A mulher de tranças rastafáris que desciam do topo de sua cabeça, como fios de água em cascata e emolduravam o seu rosto, bebia acompanhada do rapaz franzino de óculos finos. Ao contrário da pequena com jeito moleca, apesar da idade. Seus cabelos ruivos semi-raspados e roupas largas, mostrava que não trocava seu sossego por vaidade.

“Mas nem hoje, Paula?!”, indaga a moça beberrica. “Estamos comemorando!”

“Pois é! Beba algo conosco!”, completa o gaiato. E Paula, em negação, apenas desvencilha da insistência dos amigos.

“Eu curto a sobriedade!”, brinca, “Dor de cabeça, ressaca, mal-estar, lapsos de memória, violência, inconsequência, chatice… ah, claro, desidratação, desregulamentação do sistema digestivo e do sistema nervoso, transtornos miopáticos, dilatação dos vasos sanguíneos, propensão à hemorragia cerebral e insuficiência cardíaca… sem falar em dependência, cirrose, intoxicação do fígado podendo gerar hepatite aguda, fraqueza do miocárd…”

“Ok! Chega!”, interrompe a amiga.

“Não estou contando nada que vocês não aprenderam na faculdade. Ou mataram essa aula para ir para o bar?”, continua Paula, destilando o seu humor ácido. “Se o argumento é a diversão, há muitas, mas muitas outras formas de.”

Os outros dois se entreolham e sorriram, como em um espelho. O rapaz se antecipa. “Então… vamos os três lá para casa?!”

“Não, não… hoje você é todo dela. Vou nessa.”, Paula se levanta e vira-se para a colega. “E você… faça exatamente o que eu faria! O que conseguimos naquele laboratório hoje, foi fantástico. Mas preciso estar inteira para a divulgação. Amanhã será nosso grande dia, então guardem um pouco de vocês para mim!”.

“Ok, boss!”, consente a outra moça, enquanto o homem apenas acena com a cabeça. O último olhar dos três, por um segundo, os rejuvenescem décadas, como adolescentes experienciando novas aventuras. Paula se vai.


Paula chega a sua porta minutos depois. Pelo menos, acredita. Sua criança interior estava em um parquinho, se divertindo como nunca e não deixava de transparecer isso em seu semblante. Mesmo a sonolência eminente que a atingira ao alto das quatro da manhã, não a impedia de refletir. Seu dia no laboratório, seu esforço de décadas para chegar até ali e todo o misto de boas emoções ao atingir seu objetivo. Seu reconhecimento na comunidade científica estava em suas mãos, há poucas horas. Os flashbacks fizeram parte de todo o seu trajeto desde que saiu do bar, tanto que nota agora seu lapso hipnótico, ao nem sequer ter uma lembrança do caminho até em casa. Não prestara atenção em mais nada além de seu deslumbre emocional. “Eu curto a sobriedade!”, lembrou. E riu. Afinal, parecia estar completamente fora de si, em pleno júbilo. Era um sonho. Nobel? Talvez. Finalmente acha sua chave. Abre a porta.

Fiat lux!

Brada uma voz ecoante, vinda de todas as direções. Imediatamente as luzes da casa de Paula se acendem como o clarão de um raio em uma tempestade noturna que transforma a noite em dia por meio segundo. A luz branca cegante não era passível de vir de suas lâmpadas. Refletiram violentamente em seus móveis horrendos, sobretudo, em puffs verde fluorescentes, que pareciam vindos diretamente de Krypton. E, ainda assim, os puffs não eram o que mais chamava a atenção de Paula, mas sim quem estava repousado em um deles.

Ainda tentando processar, como um sistema sobrecarregado com uma torrente de dados, as luzes que se acenderam sozinhas, olhava para o dono daquela voz. Paula viu um homem belo. Mais do que qualquer outro que venha em sua mente. Seus traços delicados, lábios entumecidos e rosado, cabelos com ondulações tão naturais quanto só o próprio envolvimento entre mar e lua consegue prover. Suas vestes despertavam uma paz imediata, ao mesmo tempo que impactavam pelo estilo vanguardista; o desleixo era notável, porém intencional. O alinhamento despertaria inveja em James Bond, mas o estilo alternativo seria referência para qualquer cliente de carteirinha do Starbucks.

Sobressalta, ofega, exaspera. O disparo de adrenalina que tomara o corpo de Paula não vem sozinho; está acompanhado de uma dose cavalar de estrogênio. A falta de ar, o suador, a fraqueza e tremedeira que ela sente, não é só de medo, mas de excitação também. Aquele homem diante de Paula, é Eros perante Psiqué.

“Q… Quem é você?”, gagueja. “O que quer?!”

“Gostou do show-off? Vocês costumam se impressionar com essas banalidades, não?!”, comenta o rapaz.

Paula se surpreende com a resposta. Por alguns instantes, ela pensava que aquele homem era apenas uma imagem pregada por sua mente eufórica, porém cansada. Se Paula o visse apenas em uma foto, não deixaria de nomear a quantidade de Photoshop naquele homem. Mas não é o caso. Ela via a perfeição diante de seus olhos. A iluminação áurea o deixava ainda mais divino.

“O que… ?”

“Quero você.”, interrompe o homem, levantando e aproximando de Paula a passos demorados. Seu coração dispara.

“O que… ?”, repete com os lábios trêmulos. Ela se odeia mais que tudo. Como pode, naquela situação se sentir de tal forma. Tão impotente, tão entregue. Nunca se sentira assim. Ele se aproxima, suas bocas estão prestes a se encostarem, suas respirações se misturam e trocam como ventos alísios… mais perto.

Ela se sente desguarnecida na imensidão do espaço. O intenso clarão de seu apartamento sumira. Seu apartamento sumira. Nada à vista, alta pressão, sem força, sem peso, sem ar, sem chão, sem perspectivas. Apenas medo, desespero, abandono de si mesma… Ele desvia. Sem cerimônias. Vira-se. Volta.

“O que você fez foi algo fantástico. Realmente não esperava!”, diz, jogando-se novamente no puff. Paula parece que acabara de ser resgatada desse espaço tenebroso, ofegante e ainda embevecida, observada com indiferença pelo homem. “Ainda mais te observando agora. Uma coisa tão frágil e tão fácil de manipular.”.

Ela começa a retomar seu senso, tomada por raiva a cada nova atitude ou fala daquele homem. Um machistazinho de merda, que não a respeita e quer, sobretudo, privá-la de sua conquista. Ela saca seu celular com toda sagacidade de um duelo de bang bang. Precisa chamar a polícia. Sem sinal… Sério?! No centro da cidade? No oitavo andar?! O medo a acomete novamente. Engole em seco. Volta os olhos para o invasor, que continua sereno, em oposição ao mix de sensações incontroláveis dela. Um escárnio. Ela treme, seus joelhos não a suportam. Encosta e agarra a parede à suas costas, como se fossem cair sobre ela.

“Você não pode… não pode roubar o meu trabalho! Foram anos de dedicação para isso!”

“Não preciso.”, ele dá de ombros. “Não quero roubar seu trabalho. Já disse. Quero você.”

Silêncio.

“Eu sou o CEO de uma grande empresa de tecnologia. Os dados que produzimos são os mais valiosos possíveis e, por isso, temos incontáveis concorrentes. Muitos deles tentam roubar nossos dados e, claro, fazemos o mesmo… Uma terça-feira comum em qualquer conglomerado empresarial. O que você descobriu hoje, tem uma importância inestimável para o meu negócio — nos tornaríamos líderes de mercado, expandiríamos nosso domínio e mesclaríamos o desenvolvimento de nossa tecnologia… Eu seria poderoso. Apenas preciso seu conhecimento.”

O ceticismo de Paula a atingiu nas primeiras palavras, fazendo do resto do discurso, palavras ao vento. Que diabos de CEO invadiria a casa de alguém, a depreciaria dessa forma e agiria de forma tão imoral e antiética? Bom, talvez a maioria deles.

“Você… você deve estar me confundindo com alguém… eu…”, Paula conta as palavras, mantendo a confidência de seu projeto. “eu sou uma astrofísica. O que eu descobri hoje… não tem a ver com dados…”

“Viagens transversais, buracos de minhoca… Nomes marketeiros para uma invasão digital. Basicamente, uma conexão peer to peer não autorizada.”
Silêncio. De novo. Quebrado por Paula, dessa vez.

“O… o que quer dizer?”

“Sou um CEO. Mas vocês me chamam de Deus. Este verso que você conhece, é só mais um. Há trilhões deles projetados a partir do Panteão, o Verso Base. Você iria curtir, é um universo perfeito. Tudo é energia, somos energia e apenas precisamos de energia. Somos inesgotáveis e auto-sustentáveis em nós mesmos. Poético, não?!”

Paula estava em negação completa das loucuras que ali ocorria. Se sentia como uma personagem kafkiano. Só poderia ser um sonho. Um sonho. OK, let’s enjoy the pain, pensa. Afinal, era um sonho. Ela o encara, se coloca em pé, larga a parede.

“OK… você é um lunático me dizendo que é Deus, que vivemos em um universo processado por um computador, uma tecnologia criada por você?!”
“Pois é… blowmind, não é?!”, confirma o homem — ou Deus. “Aliás, curioso o termo ‘lunático’. Vocês são tão egocêntricos… Enfim, quem diria que o que vocês chamam de Deus, seria criacionista e evolucionista! E que existe! Mas, de fato, eu criei esse verso. Ou melhor, criei uma empresa, contratei alguns químicos, programadores, hackers, arquitetos, designers e… voilà!”, e completa rapidamente, “Sempre quis usar essa expressão, mas, felizmente, não há franceses no Panteão.”

Paula apresenta um sorriso amarelo, boca trêmula. Lembrava a sensação da vez que fora zombada em meio a um congresso científico quase 10 anos anos. Permanecia Incrédula e cada vez mais temerosa de compartilhar sua sala com aquele sujeito, vide seu nível de insanidade. Mas era um sonho. Então, ela continua cavoucando. Logo mais acordaria.

“Bom… você fez um péssimo trabalho, então… Tem um universo perfeito como base e criou esse, fadado à destruição?! Aliás, sua história é tão furada… Se você, tudo e todos no seu verso são perfeitos, qual a razão de criar outros? Faça-me o favor!”

“Ah, se uma sociedade perfeita e igualitária fosse tão atrativa, a Terra seria Marxista, querida.”, responde em chacota, levantando-se novamente e começa a andar pelo peculiar apê de Paula, “Tudo se resume a busca de poder, do desenvolvimento. Você e eu sabemos disso… A perfeição é entediante. Então, em resumo, energia nos supre, energia não nos falta, mas e se pudéssemos ir além da energia?! Veja como esse verso é, portanto, maravilhoso em suas imperfeições!”

“E por que você quer tanto assim o meu projeto, ‘Deus’?! Não é uma simples conexão peer to peer?!”

“Funny Story!”, responde Deus, aproveitando mais uma vez a oportunidade para usar um jargão terrestre que ele curte. E a ironia não é à toa. Junto a perfeição de um verso, atrela-se uma condição: se tudo e todos são perfeitos, tudo e todos são iguais, são imutáveis, são padrões. Dessa forma, não há fontes criativas e alternativas, já que todos pensam e conhecem os mesmos princípios. Em outras palavras, ninguém consegue se sobressair sobre outros, a não ser por sorte — que não existe — ou descuido.

Entretanto, esse mercado agora, contava com bilhões de empresas, cada qual com o seu verso, gerando bilhões e diversos tipos de matérias e energias. O que transformara um grande business disruptivo em commodity. A energia — metafórica e factual — despendida ali, não gerava exatamente o retorno esperado. Eis que veio a ideia: conglomerados versais. Ou híperversos. Se, invés de depender apenas do que for achado em seu universo, conseguissem integrar e conglomerar universos, de forma que possa gerar novos tipos de elementos, partículas, forças nunca antes vistas… Este verso seria sui generis. O poder teria dono. Grande ideia, grande problema. Dois, nesse caso.

O primeiro, um universo não é barato. Novamente, a energia ali despendida para apenas a criação de um e, que pode falhar, é gigantesca; o que fez com que nem todos tivessem a coragem do investimento e hoje, são meros funcionários dos que o fizeram. Princípio básico do empreendedorismo. Imagine, então, a construção de mais versos, utilizando diferentes fórmulas, sendo que agora ter seu verso já não é garantia de nada.

O segundo problema, ora, se o Panteão já atingira seu ápice e, portanto, todos partilham da máxima capacidade intelectual, todas as empresas não só atacam umas as outras pelos mesmos métodos conhecidos, como sabem se defender desses. Então, como quebrar essa parede? Mudar o escopo de seus projetos, permitindo que seus versos gerem novas formas de vida inteligentes que tenham que se desenvolver e evoluir nos versos simulados e, da necessidade, gerar novas ideias, criar. Um investimento a longo prazo, já que gastam muito mais energia do que fornecem. Assim começou o que ficou conhecido, ironicamente, de Corrida Espacial.

“E cá estamos, querida!”

Um ser frágil feito de carbono, hidrogênio, nitrogênio, oxigênio e uma pitada de outros 17 elementos ridiculamente comuns, repleto de defeitos, que mal consegue compreender a insignificância de sua existência, habitando um planetinha, que orbita uma estrelinha entre bilhões existentes, em uma das bilhões de galáxias existentes, em um verso artificial medíocre, que não passa de unidades de informação como bits e bytes de energia de outro lugar, idealizado por um empresário esnobe, nojento e antipático, que é idolatrado de forma mitológica por esses mesmos seres.

“Irônico, não é?!”, conclui Deus. “Surpreendente ver que na mesma espécie em que se acredita que uma maré alta, foi um dedo meu cagando a física do planeta para um punhado de vocês fugirem e depois matar os outros afogados, alguém conseguiu chegar na solução de como invadir outro verso.”

“Ou seja, a ideia é, com o que descobri, invadir e roubar o verso de outra empresa? Um trabalho de crackers?”, indaga Paula, agora balançada sobre seu ceticismo. Não só porque a história está se mostrando melhor construída, mas ficou realmente interessante, cientificamente falando. “Não acha que seria mais justo deixar os humanos — ou sua espécie favorita, não sei, desenvolverem uma solução para lucrar e finalmente, comprar outros universos… no mínimo um empoderamento mais justo e virtuoso de sua parte.”

Deus lacrimeja ao gargalhar escandalosamente frente a Paula, por um longo tempo.

“Você não para de me surpreender. Como pode?! Realmente não entende absolutamente nada de negócios, não é?!”

Toda a tentação dela se esvai. O dilema que passara a pouco, quase se entregando as possibilidades ali mostradas não existe mais. O asco que ela sentia por aquele “Deus” era maior que tudo que habitou sua mente até ali, desde que chegara em casa. Está cansada. Cansada dessa manipulação. Até parece que ele controla suas emoções com atalhos de teclado.
Ela decide por um ponto final. Precisa de alguma ajuda. Polícia. Paula olha novamente para seu celular. Ainda sem sinal. Se vira subitamente para a porta de seu apartamento. Ela não existe, não está ali. Onde está? Cadê a saída de sua casa? Ela volta-se para Deus. Seu belo rosto está a menos de um palmo do nariz de Paula. Seu olhar, sorriso, feição, pele, eram todos perfeitos e brilhosos, ainda que assustadores naquele momento.

“N-não… não vou aceitar! Não vou te mostrar nada que descobri!”, esbraveja trêmula.

“Você ainda não entendeu, querida… eu sou seu dono, seu criador. Não preciso da sua autorização.”, sussurra.

Ele se afasta de Paula e ela nota que o cenário não é mais extravagante, seus puffs, seus móveis. Tudo é tomado por uma alvura infinita e opaca. Paula é apenas capaz de ver vibrações ao seu redor. Como energia. Partículas. Algumas alongadas, bastonadas, como uns. As demais arredondadas, cheias, tais como zeros. Paula não se vê mais. Seu corpo não se faz mais presente, embora ainda consciente. Somente Deus ainda é material, ainda com seu olhar fixo à presença incorpórea de Paula.

Backup concluído.”, diz ele.

Naquela manhã, Paula se perguntava quando despertaria de sonhos intranquilos.

Nada.

“Desligar sistema.”

Tudo negro.

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