Os bastidores do inexplorado mercado cultural

Relevante para o desenvolvimento humano, setor movimentou R$ 155 bilhões no Brasil em 2015

O anjo que olha por nós, arte símbolo do MEME Estação Cultural (Foto: Andrew Fischer)

A cultura — combinação de práticas, símbolos e significados — tem papel importante no desenvolvimento e percepção de identidade do ser humano. Além da presença no cenário social, a cultura movimenta o mercado financeiro, gera empregos e, consequentemente, lucro. Mesmo sendo um mercado rentável, a indústria de bens culturais enfrenta a falta de dados regularmente atualizados. A informação mais recente é de 2015 e aponta que o setor cultural gerou mais de um milhão de empregos no Brasil e contribuiu com R$ 155 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB), índice de 2,64%, segundo o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Outro desafio a ser enfrentado pelos profissionais e investidores da área é a elitização do setor cultural, questão levantada em pesquisas recentes sobre o perfil dos consumidores deste nicho e que apontam a formação acadêmica, a renda, o gênero e a etnia como fatores determinantes para acesso à cultura. A pesquisa também cogitou a relação de machismo, racismo e diferença salarial com o consumo no cenário cultural.

O PIB, índice definido pela soma de todos os bens e serviços produzidos durante determinado período em uma região, mostrou um crescimento considerável do setor cultural desde 2010, ano em que o consumo de bens culturais foi responsável por injetar R$ 85,7 bilhões na economia brasileira, de acordo com o Atlas Econômico da Cultura Brasileira. Naquele mesmo ano o Ministério da Cultura implantou o Plano Nacional de Cultura (PNC), que tem a finalidade de implementar “políticas públicas a longo prazo voltadas à proteção e promoção da diversidade cultural brasileira”.

A cultura respira e resiste no coração da cidade

Inserido neste contexto guiado por economia, cultura, exclusão e inclusão social, o MEME Estação Cultural é um centro de cultura que tem acompanhado o crescimento do mercado cultural. Criado em 2004, o MEME está localizado na Cidade Baixa em Porto Alegre. A casa de cultura disponibiliza aulas de pilates, dança, teatro, shows, eventos e ações de inclusão social. De acordo com o coreógrafo e fundador, Paulo Guimarães, a falta de informações do mercado cultural, desafio enfrentado ainda hoje, era maior em 2003, ano em que iniciou o planejamento da estação cultural.

Coreógrafo e fundador do MEME Estação Cultural, Paulo Guimarães é empreendedor do mercado cultural (Foto: Andrew Fischer)
“Na época em que eu comecei a planejar não tinha quase nada [de informação]. Estavam começando uma discussão nacional sobre cadeias produtivas de cultura, difusão de conhecimento e formação. Mas material científico…quase nada”, contou Paulo.

A realidade de quinze anos atrás não é tão distante do cenário de hoje — mesmo em 2018 a escassez de informações atualizadas ainda é um empecilho para empreendedores da cultura. A desatualização de dados dificulta o controle e avaliação da potência do mercado cultural e obriga a criação de iniciativas para cobrir estas lacunas. Projetos como o Cultura nas Capitais, publicado em julho deste ano e o Atlas Econômico da Cultura Brasileira, lançado em abril do ano passado, exemplificam a recente preocupação em compreender os mecanismos do mercado da cultura.

O primeiro documento se debruça sobre o perfil dos consumidores de cultura nas doze capitais mais populosas do país, contemplando os hábitos de cerca de 33 milhões de pessoas. E o segundo, resultado de uma parceria entre o Ministério da Cultura e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), busca traçar o histórico e o papel do mercado cultural no Brasil e tem a meta de lançar seis volumes sobre o assunto, sendo que dois já foram publicados.

Mesmo com este panorama, Paulo não desistiu do sonho de abrir um espaço próprio e buscou outras formas de conhecer o mercado cultural: recorreu às consultorias, profissionais da cultura e realizou pesquisa e planejamento. “Eu tive a oportunidade de visitar centros de cultura aqui no Brasil e fora dele, já visando desenvolver um espaço próprio. Investigando, conhecendo, questionando, vendo como funciona essa economia da cultura, a estrutura didático pedagógica, o administrativo, o operacional”, disse.

Os mecanismos peculiares do mercado cultural

A economia da cultura tem suas peculiaridades e se diferencia do mercado convencional, que proporciona diferentes possibilidades de lucro. Segundo Paulo, entre as formas específicas de produzir e lucrar no mercado cultural é a realização de um único projeto que resulta em um retorno financeiro capaz de cobrir todas as despesas do artista durante um ano inteiro. Como exemplos, o coreógrafo citou Maria Abdalla, criadora do Goiânia Mostra Curtas e o Porto Alegre em Cena — dois eventos que ocorrem somente uma vez ao ano e se encontram na décima sétima edição e vigésima quinta edição, respectivamente.

“A Abdalla trabalha muitas horas diárias em prol do evento, só que ela recebe uma vez por ano. Ela não recebe todo mês, como é o padrão”, explicou o fundador do MEME. Além deste formato, Paulo falou sobre “passar o chapéu”, modalidade em que o artista não cobra um valor determinado por um trabalho e deixa o público definir a contribuição, indicando que a cultura é multifacetada e permite estas variadas maneiras de produção e consumo de conteúdo. A partir desta lógica, a programação do MEME inclui aulas regulares, atividades bimestrais e anuais, que contemplam os variados perfis e necessidades do público da casa.

Elitista e excludente: a outra face da cultura

Por fazer parte da construção e transformação de uma sociedade, a cultura é tema de estudos psicológicos. Graduada em Psicologia pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), Luciana Barboza explicou que a temática cultural é ampla e presente nas relações sociais. “No sentido mais amplo possível, a cultura na qual um indivíduo nasce se compõe de todas as variáveis que o afetam e que são dispostas por outras pessoas. O ambiente social em parte é o resultado daqueles procedimentos do grupo que geram o comportamento ético e a extensão desses procedimentos aos usos e aos costumes”, disse.

O Cultura nas Capitais reforça a relação permanente entre aspectos sociais e culturais explicada por Luciana e revela que a cultura pode ser elitista e excludente. Segundo a pesquisa, 89% dos entrevistados que são estudantes ou formados no ensino superior já foram ao teatro, ao mesmo tempo que 42% com ensino fundamental assistiram a uma peça teatral. Para o estudo, o valor dos ingressos é um fator que pode explicar essa disparidade, levando em consideração que no Brasil um trabalhador com ensino superior completo ganha, em média, 140% a mais do que um empregado que apenas concluiu o ensino médio, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A presença dos gêneros em espaços culturais também foi abordada no estudo. Entre as mulheres entrevistadas, 71% demonstrou interesse em ir ao cinema, porém 62% delas assistiram filmes nos últimos doze meses, uma queda de nove pontos percentuais entre o desejo de ir ao cinema e efetivamente assistir filmes nestes espaços.

Por outro lado, 66% dos homens demonstraram interesse em ir ao cinema — uma queda de 5 pontos percentuais em comparação com as mulheres -, porém, o índice se manteve o mesmo em relação à frequência deles nestes locais. Como possível motivo para isto, o Cultura nas Capitais explicou que “o resultado parece ter relação com o papel atribuído às mulheres, o preconceito e a desigualdade de gênero. […] As diferenças salariais reduzem as condições de ir a teatros, cinemas e shows de música.”

Ainda usando a frequência ao cinema como parâmetro, 69% dos brancos, negros e pardos apresentaram interesse neste ambiente. Contudo, enquanto a frequência neste espaço se manteve igual para os brancos, o índice caiu para 62% entre a população negra. De acordo com a pesquisa, esta informação “explicitaria a desigualdade de renda, e poderia revelar algo sobre características étnico-raciais”, lançando luz sobre uma realidade cultural ainda pouco explorada.

Com o objetivo de acolher as pessoas que não têm condições financeiras de investir em cultura, o MEME Estação Cultural disponibiliza bolsas de estudo para os alunos que não têm dinheiro para arcar com estas despesas, realiza eventos com até 20% dos ingressos reservados para o público carente e desenvolve projetos sociais sem custo para os participantes.

Como exemplo de incentivos gratuitos e com impacto social positivo, Paulo Guimarães falou sobre o Educar Dançando, uma iniciativa do centro cultural que acolheu crianças do Lar Arcanjo, vítimas de abuso sexual. Durante um ano foram desenvolvidas ações com profissionais das diversas áreas da arte e cultura, resultando em uma jornada inclusiva de cidadania e autoconhecimento.

“Uma escritora acompanhou o processo e escreveu um roteiro em cima das histórias de vida que eles [alunos] traziam e a gente apresentou nas comunidades. Eles estão aprendendo a transformar a realidade de vida deles, colocando em uma cena, reconstruindo a cena, exorcizando algumas coisas. O processo artístico está ajudando eles a se desenvolver como cidadãos”, contou o fundador do MEME.

A cultura é poderosa arte de celebrar o ser

A arte e a cultura permeiam por diversos campos da sociedade, tanto nos âmbitos sociais quanto no mercado financeiro, por isso investir em cultura é relevante para o desenvolvimento da economia e para o crescimento da percepção de identidade do ser humano.

“A cultura é o que legitima o povo e a arte celebra a vida. A cultura me torna um ser humano. Começo a me olhar e me desenvolver como um ser. O que nos torna humanos é a capacidade de celebrar quem somos, de onde viemos, por onde andamos, o que fizemos ou deixamos de fazer”, concluiu Paulo Guimarães. Para Luciana Barboza, a cultura é “enormemente complexa e extraordinariamente poderosa”. Segundo a psicóloga, preservar os vínculos com as raízes do passado é importante para compreender a identidade no presente e entender a cultura.

Complexo, diverso e lucrativo, o mercado cultural movimenta bilhões de reais anualmente no Brasil, gera postos de trabalho, estimula e dissemina o conhecimento, assim como contribui para a compreensão e registro da história de um povo. Porém, o mercado e os espaços de cultura precisam considerar e acolher as diferentes realidades e fragilidades do panorama social brasileiro — um exercício complexo, mas não impossível, como mostra o MEME Estação Cultural. A produção e consumo de bens culturais indicam que o real valor da cultura não reside apenas no lucro financeiro e revelam a viabilidade de um mercado cultural abrangente, aberto à inclusão e preocupado com o bem-estar e desenvolvimento da sociedade.

MEME Estação Cultural: resistência do mercado cultural aliado à arte e inclusão em Porto Alegre (Fotos: Andrew Fischer)