Garu
Quando Garu some, o mundo perde a poesia

Na rua Almirante Cochrane, uma senhorinha tinha um passarinho chamado Garu. Ele era do tamanho de uma calopsita, com a cabeça vermelha e o resto do corpo coberto de penas verdes. Criado a mamadeira, vivia cantando e alegrando o ambiente. Até que no último dia 21, alguém esqueceu a porta do terraço aberta e deu-se a desgraça: Garu sumiu.
Desde então, a Tijuca está em vigília. A dona alugou um carro de som, que passa de tempos em tempos anunciando o sumiço pela Conde de Bonfim. E está pagando R$ 2000 a quem localizar o fugitivo. Meu pai, quando soube da recompensa, quase foi procurar. Imaginem vocês o que não sofre essa mulher longe do seu amado e ingrato Garu. Para ela, a calamidade financeira no Rio, a reforma da previdência e a pizza de calabresa do Habib’s são tragédias menores.
Quando eu vejo um caso desses, penso que ainda temos jeito. Porque a dona não está pagando R$ 2000 por um fone da Beats, um vestido da rua Guapeni ou um vaso chinês do Shopping 45. O que ela quer para si é Garu. De todas as criações de Deus, talvez a mais singela. A mais gentil, como diria o Braga. Garu não dá status, não troca likes nem segue de volta. Só canta. Isso é mais do que o suficiente para que ele faça uma falta danada. Quando Garu some, o mundo perde a poesia.

