Spinner

Há coisas que, sem o seu contexto, não fazem nenhum sentido

Meu primo Pedro tem um spinner. Perguntei a ele o que o spinner faz. Roda, me disse. Só isso? Só. Achei pouco. Mas para ele é o suficiente. Pedro gira o objeto, o observa e fica satisfeito. Alguém poderia alegar hipnose. Mas não. Todos os usuários se mantêm plenamente conscientes durante a experiência. Eu mesmo provei e posso assegurar.

Uma crônica só vale pelo que possa dizer de interessante sobre algo. E eu acho que o que o spinner tem de interessante é o seu poder de fascínio. Muita gente o comprou pela (falsa) promessa de reduzir a ansiedade. Mas, como explicar que, comprovada a mentira, as pessoas não procurem o camelô da Saens Peña para exigir seus trocados de volta? É o fascínio. Ter um spinner e vê-lo girar deve gerar uma sensação como a de comprar detergentes na semana da limpeza Guanabara ou a de tomar sorvete de baunilha com ovomaltine do Bob’s no calçadão de Bangu. São prazeres bestas, mas dos quais não se deve abrir mão.

E que dificuldades terão os arqueólogos do ano 3000 ao se depararem com um spinner… Decifrá-lo será tão árduo quanto identificar um dichavador, entender por que Pabllo Vittar é uma cantora ou por que tanta gente decidiu comer noni a certa altura da história humana. Há coisas que, sem o seu contexto, não fazem nenhum sentido.