A História Sem Fim e os limites da fantasia

(“The Neverending Story”, 1984, Dir.: Wolfgang Petersen)

Vi “A História Sem Fim” no cinema quatro vezes, um recorde da minha infância. Só não vi a quinta porque saiu de cartaz. Eu era como essas crianças que assistem ao mesmo episódio da “Galinha Pintadinha” todo dia. A primeira vez foi no Shopping Iguatemi de Campinas, o shopping center mais próximo de Leme na época. Lembro de ter sido barrado pela censura em alguma estreia no Cine Alvorada e aproveitado para ver uma reprise de “A História Sem Fim” no Cine Marabá, para não perder a viagem. Por que não? Nunca é demais voltar para Fantasia.

O filme ensinou a muitas crianças daquela época que a fantasia não só é legal, mas também necessária, aproveitando um tema que não sai de moda desde os tempos de “O Mágico de Oz” e “Alice no País das Maravilhas”. E que não vai sair enquanto houver uma criança com um livro na mão ou sentada em uma sala de cinema. Eu fui uma criança que brincou muito de Atreyu, o herói do mundo fantástico dentro do filme, e um jovem que, na faculdade, tirou nota 10 em um trabalho de psicologia sobre a obra. Foi provavelmente o trabalho mais fácil de toda a ESPM porque está tudo lá, escancarado, pedindo para ser analisado. Da infância à vida adulta, “A História Sem Fim” está sempre presente. Enquanto escrevo isso, uma tempestade se aproxima de São Paulo e meu primeiro pensamento é que deve ser o Nada chegando.

O filme começa, literalmente, nas nuvens. Bastian (Barret Oliver) acorda de um sonho, olha para o retrato da mãe ao lado da cama e fecha o livro que estava lendo na noite anterior. Ou seja, o menino perdeu a mãe recentemente e se entrega de corpo e alma à literatura para superar a dor e fugir dos problemas. Ele poderia ser o melhor amigo do Elliott de “E.T.”, que sofria com a ausência do pai. Bastian ainda é filho único, apanha todo dia na escola e seu pai engravatado não é lá uma figura muito acolhedora. No café da manhã, o paizão se limita a transmitir as broncas vindas da escola. Bastian desenha unicórnios durante as aulas e vai muito mal em matemática, certamente a matéria menos fantasiosa de todas. Antes de virar as costas e sair para o trabalho, seu pai explica do que se trata o filme:

PAI
 É hora de tirar a cabeça das nuvens e colocar os pés no chão.

Fugindo dos bullies a caminho da escola, Bastian se refugia em uma livraria velha e empoeirada, cujo dono odeia crianças. O velho rabugento está lendo um livro misterioso que, segundo ele, não é seguro como os outros, o que basta para atiçar a curiosidade do moleque. Bastian afana o livro chamado “A História Sem Fim” e se tranca no porão da escola para a leitura. Anos antes de fadas e gnomos virarem carne de vaca graças a “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, somos apresentados a algumas das criaturas que vivem no mágico reino de Fantasia. Todos estão a caminho da Torre de Marfim, lar da Imperatriz (Tami Stronach), e fugindo de uma força devastadora conhecida como Nada. O que é o Nada? O Nada é simplesmente nada. Alguém explica que se fosse um buraco, seria alguma coisa.

O roteiro de “A História Sem Fim” não esconde o jogo, os próprios nomes já entregam a semiótica: Fantasia está acabando e, quando ela acabar, só vai sobrar o Nada. A morte da fantasia é o fim da inocência, da imaginação, da esperança e dos sonhos da infância. O Nada é o apocalipse que se aproxima como uma tempestade.

Na Torre de Marfim, representantes de várias cantos de Fantasia estão reunidos em busca de respostas. A Imperatriz está morrendo junto com todo o reino e só um guerreiro predestinado pode salvá-los: o arqueiro Atreyu (Noah Hathaway). Ele é apenas um garotinho e ninguém bota muita fé nele, com exceção do leitor Bastian. Quem mais poderia salvar Fantasia, se não uma criança? Bastian se identifica com Atreyu e nós nos identificamos com Bastian, porque “A História Sem Fim” não é só uma aula de psicologia, mas também um exercício de metalinguagem, anos antes de “O Mundo de Sofia”. Bastian é o leitor ativo, completamente imerso no livro, sofrendo, torcendo e dando conselhos para seu herói, na melhor propaganda pró-literatura já vista no cinema.

Atreyu parte em sua missão em uma cavalgada épica, sozinho, sem armas, contando apenas com um amuleto chamado Auryn, seu fiel cavalo Artax e perseguido por uma criatura das trevas chamada Gmork. O jovem herói decide procurar a ajuda do ancião Morla, o ser mais sábio de Fantasia, que vive no Pântano da Tristeza. A regra do pântano é clara: se ficar triste, você afunda nele e morre. Em uma das cenas mais tristes de várias infâncias, o cavalo Artax fica triste, afunda e morre. A expressão de tristeza do cavalo é algo que muitos atores consagrados não conseguiriam reproduzir.

Se cada desafio enfrentado por Atreyu é um aprendizado para Bastian, o luto materno é o seu Pântano da Tristeza particular, no qual ele não pode se deixar afundar. Já Morla é uma tartaruga gigante velha e rabugenta que, assim como o velho da livraria, tem alergia à juventude. Os dois também são guardiões solitários da sabedoria que, mesmo a contragosto, indicam o caminho correto para os mais novos. Ficção e realidade trocam figurinhas a todo instante.

Quem chega para ajudar Atreyu é Falkor, o sensacional dragão da sorte que também é o ícone máximo do filme. Apesar de ser um dragão com influências chinesas, Falkor mais parece um enorme e simpático cachorro com movimentos mecânicos e fala mansa. Falkor gosta de crianças, sabe de tudo e dá conselhos para a vida que você pode compartilhar nas redes sociais:

FALKOR
 Nunca desista e a sorte irá ao seu encontro!

Ele representa a esperança, a perseverança e também o transporte necessário para Atreyu chegar ao Oráculo do Sul, uma entidade que estabelece desafios psicológicos onde Atreyu vai precisar demonstrar autoconfiança e encarar o seu verdadeiro eu. Ele enxerga no reflexo do espelho a imagem de Bastian, rompendo de vez a quarta parede. Os dois são a mesma pessoa, porque todo leitor se transporta para o papel do personagem e cada leitor interpreta a história do seu jeito, de acordo com sua própria experiência de vida. Então o herói do livro descobre que, para salvar a Imperatriz, uma criança humana terá que batizá-la com um novo nome.

Mais adiante, Atreyu verá toda sua história pintada na parede de uma caverna como ilustrações de um livro, pois, é claro, ele é um personagem de Fantasia. Trata-se do lar de Gmork, o personagem responsável por esclarecer todas as questões. A maldade sempre ensina. Todo conto de fadas tem que ter uma bruxa ou um Lobo Mau. Toda criança tem que conhecer o lado errado para saber qual é o lado certo. Então, quando um Atreyu sem esperanças se diz incapaz de ultrapassar os limites de Fantasia para encontrar o garoto humano, Gmork explica que Fantasia não tem limites, mas que está morrendo porque as pessoas começaram a perder as esperanças e a esquecer os sonhos. E quando Atreyu finalmente pergunta o que é o Nada, Gmork responde com o puro creme do niilismo, na minha citação preferida do filme:

GMORK
 É o vazio que resta!

Respeite um filme infantil que coloca esse tipo de discurso na boca de um Lobo Mau. Respeite ainda mais um filme no qual a criança mata o Lobo Mau e passa o resto das cenas com um machucado sangrando no peito. Atreyu vai ao encontro da Imperatriz com o peso do fracasso sobre seus ombros. Mas a sábia menina diz que ele teve sucesso, pois trouxe a criança humana com ele o tempo todo:

IMPERATRIZ
 Ele partilha das suas aventuras e outros partilham das dele.

Ou seja, Bastian faz parte da história e nós, espectadores, também. Estamos todos juntos tentando salvar Fantasia em cada livro que abrimos, em cada game que jogamos, em cada ingresso de cinema que compramos. Estamos conectados ao autor Michael Ende, que escreveu “A História Sem Fim”, e a Wolfgang Petersen, que o adaptou ao cinema. Você, que está lendo isso agora, também está compartilhando minha história.

Fantasia está nas últimas e Bastian encara seu grande dilema: se isso é só uma história e não é real, eu devo acreditar nela? Devo permanecer criança ou devo crescer? Sonhar ou manter os pés no chão? Ter fé ou ser cético? Qual é o momento certo de encarar a realidade e deixar a Fantasia morrer?

Diante da súplica da Imperatriz, Bastian decide salvar Fantasia e lhe dá justamente o nome de sua mãe. O nome que ele grita é Moonchild (criança da lua), um som que sai abafado no meio do vento e dos trovões. Quando Bastian dá o nome da mãe para a Imperatriz, é como se ele estivesse mantendo-a viva no reino da Fantasia. É bonito, mas também é meio perturbador, assim como o final de “Labirinto”, quando as criaturas fantásticas aparecem no quarto da menina que se recusava a crescer.

Com o último grão que sobrou de Fantasia, Bastian deve fazer desejos para reviver todo o reino. Seu primeiro desejo não é ressuscitar a mãe, como poderíamos supor, porque isso seria sair da Fantasia e ir para o reino do Milagre. Seu desejo é coisa de criança, é voar com Falkor. Bastian respeita as regras do mundo da imaginação e aceita viver nele. A locução final explica que ele ainda foi criança por um tempo e que uma hora amadureceu, só não era o momento certo ainda.

Tem aquela ótima piada dos “Simpsons” na qual o advogado picareta do Homer diz que processou os produtores do filme por propaganda enganosa. A adaptação cinematográfica de “A História Sem Fim” teve um fim, mas a lição é que, na fantasia, a história nunca acaba. Ela vive para sempre dentro de nós e tal.

O livro mágico dentro do filme é uma resposta às necessidades de quem lê . Cada um aprende o que quiser com ele e assimila aquilo a sua maneira. Não é essa a essência da arte, seja o formato que for? No caso de Bastian, “A História Sem Fim” ensinou-o a superar a perda da mãe e ele amadureceu no processo. Tudo isso no porão da escola, com uma crítica velada ao sistema de ensino que insiste em podar nossa imaginação com suas aulas de matemática.

No cinema, a história até continuou em sequências fracas com tramas capengas e péssimos atores. Wolfgang Petersen nunca mais voltou ao reino de Fantasia. Eu volto sempre posso. Retomar contato com quem fez parte da sua história e ajudou a formar o seu caráter, lembrar quem você foi para confirmar quem você é, isso tudo faz um bem danado. Algumas músicas e alguns filmes têm o dom de me transportar para lá com uma facilidade impressionante.

O filme também aborda a importância da literatura para quem já devorou de Coleção Vaga-Lume a Tolkien e ainda consegue perceber que qualquer história tem algo a ensinar. Sem fantasia, não há esperança, você fica chato. O adulto que entra em uma loja de brinquedos e não sabe o que comprar pros filhos porque tudo naquele território é estranho demais para ele. O tiozão que acredita que quem joga videogame vai sair metralhando pessoas. O sujeito triste que considera toda ficção uma perda de tempo.

Se você não teve a sorte de viver a experiência “A História Sem Fim” quando criança, nem tente agora. Você vai rir dos bonecos, dos efeitos e vai se perguntar por que diabos o Nada leva tudo embora menos a árvore onde Atreyu está agarrado. Isso porque você já abandonou Fantasia e deixou o Nada te dominar. Mas não precisa afundar no Pântano da Tristeza por isso. Graças ao sucesso de “O Senhor dos Anéis”, o cinema está cheio de coisas como “As Crônicas de Nárnia” para tentar ocupar a vaga, gastando muito dinheiro em horas e horas de filmes para tentar passar a mesma mensagem que esta pequena pérola de uma hora e meia passou em 1984. Com alguma sorte e boas indicações, pelo menos nossos filhos ainda podem ter uma vida fantástica.

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