Alien, o Oitavo Passageiro e as maravilhas do filme de gênero

(“Alien”, 1979, Dir.: Ridley Scott)

O chamado filme de gênero, seja ele terror, faroeste, ficção, musical ou outro, segue sempre uma cartilha. Cada um conta com sua biblioteca básica de elementos e cabe aos realizadores criarem novas experiências com eles, dentro dessas regras específicas. O filme de gênero existe para atender as expectativas do seu público e por isso ele costuma ser tão legal. Porque ele mima a gente. Ele está lá para nos agradar. Quando você vai ver um terror, você quer passar medo, sentir repulsa e tomar uns sustos. Quando você vai ver uma ficção científica, você quer previsões do futuro, visões alternativas do mundo, da ciência e da tecnologia. Você sabe bem o que está procurando, você recebe, você vai pra casa satisfeito.

Ao contrário da grande maioria das franquias do cinema, cada filme da série “Alien” tem uma personalidade diferente de acordo com seu diretor. Trata-se de uma série autoral. Sei lá se alguém planejou que seria assim, mas acabou sendo. “Aliens, o Resgate” é um filme de ação graças ao James Cameron. “Alien³” é um suspense claustrofóbico de David Fincher. “Alien — A Ressurreição” é… bem, eu só consigo me lembrar das barbaridades cometidas pelo Jean-Pierre Jeunet, então deve mesmo ser o “Amélie Poulain” da série. Mas tudo começou com Ridley Scott em 1979 no filme que definiu as regras do jogo: “Alien, o Oitavo Passageiro”. Um filme de terror e ficção científica, de monstro e de espaço, um filme de gênero, um filme B que deu certo.

No final dos anos 70, os discípulos de Roger Corman costumavam despontar com clássicos como este. “Alien, o Oitavo Passageiro” foi concebido por Dan O'Bannon como “Star Beast”, um filme de baixo orçamento no melhor estilo Corman. Sujeito de currículo invejável, O'Bannon já havia escrito “Dark Star” com John Carpenter e teria uma gloriosa carreira em outros filmes de aliens e zumbis. A engrenagem hollywoodiana girou e o filme acabou nas mãos de Ridley Scott, que vinha da publicidade e só havia feito “Os Duelistas” até então. “Alien, o Oitavo Passageiro” então disfarçou seu lado B com uma estética que, assim como o posterior “Blade Runner”, marcou época.

O layout do monstro mais legal do cinema e dos cenários góticos foi criação do designer suíço H. R. Giger, sua cabeça proeminente foi criada por Carlo Rambaldi (o criador de “E.T.”), o design dos créditos é de Saul Bass (não creditado) e o design geral do filme teve pitacos de gente como o desenhista francês Moebius. Uma equipe de respeito foi reunida ali, ninguém acerta assim do nada.

“Alien” me lembra muito as revistas de sci-fi e terror da época em que o assisti pela primeira vez, no final dos anos 80. Sem internet nem DVDs com extras, making of era um negócio raro. A Set tentou lançar uma revista específica para explorar o gênero, a Set Terror & Ficção, que não vingou. A maioria das tais revistinhas especializadas era importada, e era bom ter amigos com o mesmo gosto pela coisa para conseguir arrumá-las. Hoje o making of tornou-se a coisa mais normal do mundo, mas lá atrás ver a cabeça falsa do Ian Holm decepada com sangue de robô ao redor era um momento glorioso, era quase pornográfico. Portanto, quando falo de “Alien”, falo de toda a experiência de um moleque descobrindo as graças da ficção e do terror, de todo um universo que vai da diversão gore do Freddy Krueger à antropologia filosófica de “2001 — Uma Odisséia no Espaço”. Esses gênios incríveis que abrem suas vísceras e, por que não, a sua mente.

Como “2001”, “Alien” tem muitos silêncios. A trilha de Jerry Goldsmith aparece pouco e, nas cenas mais pesadas de suspense, são os batimentos cardíacos que dão o tom. A abertura passeia embaixo da nave Nostromo como no começo de “Guerra nas Estrelas”, enquanto o título se forma. Depois passeamos pelo interior da nave enquanto a tripulação de sete passageiros hiberna, conhecendo o território onde o pau vai comer em breve. Perceba que “Alien, o Oitavo Passageiro” é um título muito bom, mas nunca ninguém questionou a presença do gato Jones. Ele sim era o oitavo passageiro. O alien era mais um clandestino, um imigrante ilegal, como o próprio nome já diz. Nunca foi um passageiro. Dito isso, vamos a eles: os passageiros de fato.

A primeira meia hora de filme é uma grande apresentação dos personagens. “Alien” segue a fórmula dos filmes-catástrofe que apresentam os personagens para depois ir matando um de cada vez. Não é a mesma coisa dos slashers “A Hora do Pesadelo” e “Sexta-Feira 13”, porque nesses casos a personalidade das vítimas pouco importa. A graça de lindos filmes-catástrofe dos anos 70 como “Inferno na Torre” e “O Destino do Poseidon” era mostrar um elenco estelar indo pro vinagre. Mesmo que os personagens não tivessem personalidades tão bem definidas assim, você torcia para o seu ator favorito não morrer tão cedo. Ou pelo menos para não ter uma morte muito sofrida.

Em “Alien”, as vítimas são: Dallas, capitão e líder (Tom Skerritt); Ripley, a moça destemida (Sigourney Weaver); Lambert, a moça medrosa e desesperada (Veronica Cartwright); Parker, o operário injustiçado (Yaphet Kotto); Brett, o operário sem personalidade (Harry Dean Stanton); Kane, o explorador curioso (John Hurt) e Ash, o cientista frio e calculista (Ian Holm).

Nenhuma grande patente militar à bordo, lembrando que a Nostromo é simplesmente um cargueiro e não uma nave de propósitos bélicos. São todos funcionários da tal Companhia, esse monstro sem nome, sem identidade, o poder invisível — que nos filmes seguintes descobriríamos se tratar da Weyland Corp.

São todos submissos à Mãe, a inteligência artificial que controla a nave e os seus destinos, uma entidade à serviço da Companhia. Um HAL 9000 menos participativo, mas tão mal intencionado quanto. Apesar do computador da era MSX ainda ter aqueles caracteres verdes, a opção por mostrar a nave sempre imersa na escuridão do espaço, além de aumentar a angústia, torna o futuro apresentado convincente até hoje. “Alien” esconde tudo com sombras, vapores e luzes azuis.

Nesse contexto, Parker é praticamente um sindicalista, um representante do proletariado, da causa operária, outro reflexo do cinemão politizado dos anos 70. Negro, ele quer ganhar o mesmo que seus colegas brancos privilegiados, aqueles burgueses opressores que nunca descem aos corredores mais sujos da nave, que nunca sujam a mão na graxa da Nostromo e que ainda assim recebem salários maiores.

Apesar de algumas boas intenções, não tem ninguém na tripulação com pinta de herói. Assim, coloque-se na época do lançamento do filme, sem sequências e ícones pré-estabelecidos, e você não tem como saber quem vai sobreviver, se é que alguém vai. Dallas é o líder, mas John Hurt talvez fosse o nome mais conhecido do elenco, então não sei quem apostou suas fichas na Ripley de Sigourney Weaver, que viria a se tornar a mulher mais fodona do cinema.

Em sua jornada de volta à Terra após uma missão comercial que nunca é bem explicada porque pouco importa, a Mãe intercepta sinais de vida em um planeta ali perto e interrompe o sono dos sete passageiros. Segundo as diretrizes da Companhia, eles são obrigados a investigar. Após o tradicional problema na aterrissagem, a tensão começa a tomar conta de verdade quando Dallas, Lambert e Kane partem para a exploração do planeta, monitorados pelo pessoal da Nostromo e com as câmeras do capacete mostrando a ação, um recurso que James Cameron usaria muito no segundo filme. Logo, Kane encontra uma colônia de embriões e volta para a nave com um novo amigo grudado na cara. A sábia Ripley não quer autorizar a volta do colega contaminado, mas Ash libera a entrada e o resto é história.

O ovo de alien e seu organismo hospedeiro são das coisas mais nojentas já apresentadas pelo cinema, fazem parte da nata do horror orgânico onde reina David Cronenberg, mas também são imagens bem familiares. Isso porque muita coisa em "Alien" foi feita para lembrar sexo, genitais, penetração, gestação. Os ovos e o hospedeiro lembram vaginas, com seus lábios que se abrem. A cabeça do alien tem um formato fálico evidente. Seu nascimento, rompendo a barriga da vítima com aquela violência brutal, foi concebido para representar um estupro. Pesado. Design e psicologia unidos para marcar a sua vida para sempre.

Kane é colocado na maca com aquela mistura de aranha e lagosta na cara, e um tentáculo estrategicamente apertando sua garganta, uma imagem perturbadora e asfixiante. Logo vão descobrir que o bicho tem sangue ácido. Logo o bicho vai sumir e Kane vai despertar com fome. Logo descobriremos que Kane está gestando um monstro e o bebê não quer saber de sutilezas para nascer. Ele vai rasgar seu caminho rumo à vida.

A breve recuperação de Kane antes de morrer é de uma crueldade danada e graças a ela eu sempre fico aguardando algum efeito colateral quando me recupero de alguma doença. Na mesa de jantar, ele engasga, convulsiona e se debate, mas é na cara de Lambert que o sangue explode quando o bebê alien nasce. Lambert é a scream queen, a responsável por gritar e se descabelar diante do horror. Quando o alienzinho dá as caras, ainda na forma recém-nascida, já estamos com quase 1 hora de filme, uma lição aprendida com o “Tubarão” de Spielberg sobre mostrar pouco do monstro protagonista. Kane é a primeira vítima. Faltam seis.

Com o alien solto na nave começa a caçada, embora você não saiba quem exatamente está caçando quem. Ash aparece com o localizador, outra ferramenta de suspense que será muito usada no restante da saga. É um dos muitos elementos que viriam a se tornar clichês do gênero, como o tradicional susto do gato. O bichano que estava perdido ali na nave, sobrevivendo sabe Deus como, escapa e Brett vai atrás dele. Quando as batidas de coração voltam, você já sabe que ele vai morrer. Não sei se foi “Alien” que inventou essa regra, mas coadjuvante que volta para salvar o animal de estimação sempre morre.

Começa o desfile de mortes criativas, uma melhor que a outra. Brett encontra seu destino em um cenário gótico com correntes, ganchos e água pingando. Pela primeira vez o alien aparece em sua forma adulta (como ele cresceu tão rápido?). O monstro está escondido nas trevas com sua carapaça brilhante e toda a baba que lhe é peculiar. Seu design mistura tudo que pode causar repulsa, elementos gore (vísceras, gosmas), esqueleto, casca de insetos… e de alguma forma o conjunto final ainda consegue ser elegante, o tipo de estátua que você teria na estante da sala. Quer dizer, eu teria. O close no rosto do gato enquanto Brett é dilacerado lembra planos que Scott repetiria em “Blade Runner”, da impassividade perante a tragédia, o gato frio como um robô. Brett é a segunda vítima. Faltam cinco.

O capitão Dallas resolve caçar o alien no duto de ventilação, outro clássico do gênero. Todo filme de terror e ficção que se preze deve ter a sua cena no duto de ventilação, de preferência com algum sacrifício heróico. O duto é claustrofóbico por definição, é apertado, você não tem como fugir dele. Quando juntam duto mais localizador, o resultado é pânico. De novo é Lambert a responsável por este pânico, acompanhando o sinal do alien se aproximando rapidamente do sinal de Dallas. O líder que deveria ser o herói do filme já era. Faltam quatro.

Na ausência do Capitão, Ripley torna-se líder e sua primeira ação é cerebral: ela pergunta à Mãe o que está havendo e descobre que a Companhia quer o alien vivo. Mais uma regra básica em filme de monstro: em algum momento, por pior que seja a ameaça assassina, é preciso mostrar que o ser humano é sempre a pior espécie. Parker tinha razão em sua paranóia esquerdista: os capitalistas ausentes da Companhia é que são os verdadeiros vilões. Eles deixaram o monstro entrar. Eles querem o bicho vivo para a divisão de armas biológicas, algo mencionado rapidamente aqui, mas que fica bem claro nos outros filmes da série. A tripulação é descartável.

Tem início uma luta brutal entre Ripley e Ash, que defende os interesses da Companhia. Quando Ash sangra um sangue branco, descobrimos que ele é um andróide, um replicante de força superior, que exige a união dos três humanos para ser liquidado. Ok, Ash está morto. Desligado. Aposentado? Faltam três.

Os sobreviventes decidem explodir a nave e fugir na cápsula de emergência. Ripley ainda perde tempo salvando o maldito gato Jones, enquanto Parker e Lambert vão arrumar as malas. Mais uma regra aprendida: a personagem mais desesperada sempre tem a morte mais sofrida. O destino de Lambert é cruel, ela é quase estuprada pelo alien, não sem antes acompanhar o triste fim do colega Parker, empalado com requintes de crueldade bem na sua frente.

Se você tinha alguma dúvida sobre quem era a heroína do filme desde o princípio, a única com atitudes nobres, corajosas e coerentes o tempo todo, suas dúvidas acabaram, porque só sobrou Ripley viva. Além do gato, é claro. A contagem regressiva para a destruição da nave está rolando, luzes de emergência piscam, vapores explodem e a câmera corre pelos corredores acompanhando Ripley. Muitas vezes o design dos corredores se confunde com a textura da criatura, o que não é por acaso. O alien pode estar em qualquer lugar.

A Nostromo explode e Ripley, já no módulo de fuga, se sente segura o suficiente para tirar a roupa, preparando-se para hibernar. Ripley de calcinha com cintura baixíssima (pagando cofrinho!) e top transparente é uma imagem quase tão emblemática para os fãs de sci-fi quanto a Leia escravizada de “O Retorno de Jedi”. Depois de tanto sofrimento e demonstrações de força com aquele lança-chamas na mão, você até tinha esquecido que a Sigourney Weaver era a maior gata em 1979. Que mulher.

A sexualidade de Ripley é um assunto interessante. Começa com o fato de ela ser chamada por este sobrenome assexuado e passar o filme todo com figurinos neutros até o momento do tal striptease. Seu primeiro nome é Ellen, mas só iríamos descobrir isso em “Aliens, o Resgate”, em um momento de rara intimidade da personagem com um homem, Hicks (Michael Biehn). Ao longo da série não há espaço pra romance, vaidade ou demais estereótipos da tradicional “mocinha”. É no instinto materno que Ripley demonstra sua feminilidade. E é só na versão do diretor de “Aliens, o Resgate” que descobrimos que ela tinha uma filha e que a menina envelheceu e morreu enquanto a mãe vagava pelo espaço, o que explica seu apego pela garotinha Newt (Carrie Henn), a órfã vítima de aliens que ela praticamente adota. É por ela que Ripley encara todo um exército alien e ainda sai no braço com a própria Mamãe Alien em um confronto de mães protegendo suas crias como jamais se viu no cinema. Ao expandir a personagem dessa forma em sua continuação, James Cameron foi tão incrível que conseguiu até melhorar o primeiro filme.

Ripley é a mulher moderna, guerreira, independente, sobrevivente. Ela não precisa de um macho pra salvar sua pele e definitivamente não precisa de um namoradinho. Sempre gostei e me cerquei de mulheres fortes, sejam as amigas que matam leões todo dia, sejam as danadas das namoradas. Tenho até certo orgulho de dizer que nunca namorei uma tradicional bela, recatada e do lar. Freud explica, porque minha mãe é a mais forte de todas. Gosto de ver um pouco de Ripley em cada uma delas.

Note que Ridley Scott ainda faria “Thelma & Louise” e “Até o Limite da Honra”, grandes marcos do empoderamento feminino.

Voltamos ao epílogo para aquele susto final que nós tanto adoramos. Dentro do módulo, um ambiente pequeno, quase um quarto, uma Ripley quase nua e mais vulnerável do que nunca encontra o alien, essa criatura nojenta que estupra e mata sem peso na consciência. Após uma sequência de suspense quase insuportável, o bicho encontra seu destino na turbina da pequena nave. Nossa heroína vai dormir o sono dos justos sem saber se um dia será resgatada. Revendo hoje, você pensa: que sacanagem, ela ainda vai passar por coisa muito pior. Os aliens são o karma de Ripley, um trauma que nunca será superado.

“Alien, o Oitavo Passageiro” definiu o gênero “terror no espaço”, inspirando todo e qualquer filme posterior com uma tripulação perdida enfrentando ameaças desconhecidas. Apesar dos desdobramentos da mitologia que vieram depois, era um filme de monstro sem grandes conceitos de ufologia. Não sabíamos a raça do bicho, de onde ele veio, para onde ele vai. Ele era uma máquina de matar, um organismo perfeito, uma arma quase indestrutível, um assassino sem moral e sem remorso. E também uma praga, uma doença sexualmente transmissível que mata, antecipando a chegada da AIDS ao mundo. Se “E.T.” virou sinônimo de simpático visitante do espaço, “Alien” é o alienígena malvado que vai te comer e exterminar a sua raça. E você não tem pra onde fugir, porque no espaço ninguém pode ouvir você gritar, o espaço é onde o filho chora e a mãe não vê.

Nos filmes seguintes muita coisa mudou. O David Fincher matou a Newt e deu novos significados para o lado materno de Ripley, tivemos bebês híbridos e até confrontos de aliens com o rival cinematográfico Predador até chegarmos a "Prometheus", o reboot que é muito mais ficção científica que terror e tem lá suas pretensões de explicar a origem da humanidade. Era só um monstro, agora é quem somos, de onde viemos, para onde vamos. Nem todo filme de ficção e terror é só navinha e sustinho. Mas quando for, tudo bem também.