Alta Fidelidade e o amor pop

(“High Fidelity”, 2000, Dir.: Stephen Frears)

Costumo dizer que tenho dois vícios na vida e que um deles ainda vai me matar: café e música triste. Desde que me conheço por gente eu gosto de música triste. Quando ouvia Balão Mágico, curtia mais “Se Enamora” do que “Superfantástico”. E depois só piorou. Gosto de música feliz também, mas a vida não é uma festa e ninguém consegue ser alegre o tempo inteiro, como canta o Wander Wildner. Não confio em gente que só sorri o tempo todo. Não gosto de banda que não tem pelo menos uma música triste no repertório.

“O que veio primeiro, a música ou a tristeza? Eu sou triste porque ouço música ou ouço música porque estou triste?”

O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? Tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais? “Alta Fidelidade”, o livro do Nick Hornby, nos apresentou essa questão filosófica pop em 1995 e ela permanece sem resposta até hoje. Em 1992, o escritor já havia definido boa parte das nossas vidas com “Febre de Bola”, a bíblia do torcedor de futebol apaixonado. Com “Alta Fidelidade”, ele definiu todo um tipo de gente que leva a música a sério demais e simplesmente não consegue separar a música dos seus relacionamentos, porque a vida tem que ter uma trilha sonora.

Na minha infância e adolescência no interior era meio complicado entrar em contato com música diferente, era preciso aceitar o que as rádios locais tocavam. Fui criado com trilhas de novelas, muita música pop vagabunda e o sertanejo que estourava na região até a MTV chegar à cidade. Deus abençoe o prefeito que liberou o sinal da MTV em Leme no começo dos anos 90, porque não era toda cidade que tinha essa mordomia não. A MTV apresentava bandas novas, tinha rankings, me mostrou um novo mundo para que, quando eu me mudasse para São Paulo alguns anos depois, não passasse tanta vergonha. Eu anotava aqueles rankings na agenda, gravava os clipes preferidos, até aprendia as letras das músicas.

Os rankings, especificamente os top 5, são outra marca registrada do “Alta Fidelidade”. Não sei de onde vem a necessidade de colocar as preferências em ordem, deve ser uma forma de fazer a vida ter algum sentido, de organizar o caos. Desde 2005 tenho uma certa obsessão pelos rankings do last.fm, a melhor rede social, aquela que registra tudo que a gente ouve e coloca as bandas, as músicas e os álbuns na ordem dos mais ouvidos. Ali posso ver as músicas mais ouvidas de um período específico e lembrar exatamente o que aconteceu naquela época. Momentos, lugares, pessoas, o que eu pensava e sentia naquele pedaço de tempo. A música enquanto registro arqueológico da nossa existência. São poucas as pessoas que entendem isso. O Nick Hornby deve entender.

Gravei mixtapes para todas as namoradas que tive em K7, CD, CD de mp3 e hoje faço playlists no Spotify. A gente vai se adaptando às novas tecnologias mas a essência está ali, uma seleção de músicas com um propósito. No final dos anos 90 escrevi uma teoria sobre amores platônicos e mulheres colocadas em pedestais usando letras de músicas bem tristes, começava com “Creep” do Radiohead e “Black” do Pearl Jam. Logo depois eu soube da existência do “Alta Fidelidade”, um livro inglês que estava virando filme com o John Cusack no papel principal e falava basicamente sobre como a música pop pode explicar, influenciar ou ajudar a vida de um sujeito, principalmente no espinhoso território dos relacionamentos. Triste quando você acha que teve uma boa ideia e descobre que ela já foi executada, de maneira muito mais eficiente e com muito mais talento.

Assisti ao “Alta Fidelidade” quando ele foi lançado no cinema em 2000. Logo em seguida, devorei o livro, comprei a trilha sonora, assisti até à adaptação para o teatro, “A Vida é Cheia de Som e Fúria”. Foi o primeiro DVD que comprei, porque eu queria mesmo que o primeiro fosse algo marcante, e um pôster do filme está na parede da minha sala desde então. A arte dele é uma beleza. Inspirada em Beatles, faz parte da iconografia esperta do filme como o LP da abertura, os cartazes lambe-lambe dos créditos finais, a cenografia da loja de discos Championship Vinyl e detalhes dos figurinos, como a jaqueta de couro de Rob.

A transição do livro para o cinema causou alguma polêmica quando John Cusack resolveu transportar a ação da Inglaterra para os EUA. Apesar de dirigido pelo competente Stephen Frears, Cusack foi o dono da adaptação. Roteirizou, produziu, escolheu a trilha sonora a dedo e incorporou Rob Fleming trocando o sobrenome pra algo menos britânico: Gordon. Ele escolheu a cidade de Chicago porque, em Chicago, ele saberia aonde um cara que acabou de tomar um pé na bunda iria para tomar um porre. Há que se louvar essa justificativa. Cusack se tornou Rob, a referência exata de uma geração de homens imaturos, inseguros, carentes e prematuramente nostálgicos que se apegam à uma coleção de discos como se aquilo fosse sua própria personalidade materializada.

Por coincidência ou consequência, desde “Alta Fidelidade” o termo “cultura pop” passou a ser utilizado com mais frequência para definir toda uma indústria de livros, quadrinhos, filmes, músicas e jogos. O próprio termo “pop”, que normalmente era usado para definir um gênero inferior, comercial e mainstream, ganhou relevância. O livro foi o pai da chamada literatura pop do novo milênio, que nada mais é do que uma literatura de linguagem jovem e repleta de referências moderninhas, um estilo que ditaria as tendências dos blogueiros, tuiteiros e youtubers que viriam depois. Os top 5 viraram mania e eu tenho orgulho de ter criado a comunidade Top 5 no Orkut, era bem divertida.

De repente, todo mundo que sempre fez rankings de filmes e músicas descobriu que não estava sozinho, nem era doido. O sujeito com letras de música e frases de filmes na cabeça não era necessariamente xarope. A internet transformou o nerd em pop e o pop em algo legal. Hornby e depois Cusack estiveram na hora certa e no lugar certo, aproveitando toda essa onda pop que a internet proliferou no mundo.

O cinema está repleto de comédias românticas feitas para mulheres. “Alta Fidelidade” é uma rara comédia romântica para homens. Tudo bem se você, mulher, curtiu o filme, eu também curto muitos filmes que fazem para vocês. Porém, vamos admitir, “Alta Fidelidade” é muito nosso. O Rob que chora na chuva, que não se conforma com a injustiça de um pé na bunda, que às vezes é bem escroto, que rola na cama pensando na ex transando com outro, que se sente inseguro na cama diante de uma mulher maravilhosa, que fica de bode ouvindo “The River” do Bruce Springsteen no fone de ouvido, esse cara é muito nosso.

Quando eu vi e li “Alta Fidelidade” pela primeira vez, eu tinha vinte e poucos anos. O mundo ainda tinha algumas coisas para me ensinar sobre desilusões amorosas antes que a identificação pudesse ser plena. Naquela época, era apenas o barato da música, da dor, dos rankings e dos corações partidos. Quando você revê o filme na faixa etária de seu protagonista, entre os trinta e os dolorosos quarenta, você percebe que o buraco é mais embaixo. Principalmente porque, quando você tem vinte, você acha que vai chegar aos trinta maduro e calejado, e não é bem por aí. Os erros não ensinam, esse é um verso dos Gianoukas Papoulas.

O filme abre com um John Cusack melancólico, de fone de ouvido, rompendo a quarta parede e falando diretamente com a gente sobre a questão Tostines da música triste. Laura (Iben Hjejle) está deixando-o naquele momento. Rob faz um rápido e amargurado top 5 mulheres que lhe deram um pé na bunda e deixa Laura de fora, só de birra. Na verdade, ainda é cedo. Como ela acabou de sair, a raiva ainda é maior que a tristeza.

Os flashbacks que explicam os fracassos amorosos de Rob são bem engraçados. Temos Alison Ashmore, a garotinha que o trocou pelo amigo na infância. Penny Hardwick, a adolescente que ainda não estava preparada para o sexo. Sarah Kendrew, a sua parceira de rejeição, tão loser quanto ele, mas que acabou rejeitando-o também. E Charlie Nicholson, designer descolada, antenada, gata, uma mulher acima de seu nível, intimidante, que nunca o deixou se sentir seguro e confortável. Quando ela o troca por um colega designer musculoso, vemos Rob pela primeira vez chorando na chuva, um adorável clichê de fossa que se repetirá ao longo do filme. Rob nunca superou Charlie, e por ela perdeu a fé, a dignidade e oito quilos. Ela é a pedestal suprema. Uma vez uma ex me perguntou qual ex do Rob ela era. Quando você chega ao ponto de usar “Alta Fidelidade” em discussão de relacionamento é porque talvez você tenha ido longe demais.

Quando não estamos desvendando o passado de Rob, o alívio cômico fica sob os cuidados de Dick (Todd Louiso) e Barry (Jack Black), seus funcionários na loja de discos. O trio é perfeito em seu esnobismo e arrogância, seja criando top 5 dos mais variados temas, seja enxotando um tiozão careta que só queria comprar “I Just Called To Say I Love You” (Stevie Wonder, fase ruim). Em 1995, logo que me mudei para São Paulo, fui com um amigo da faculdade até a Galeria do Rock e um vendedor não quis vender um bootleg do Bon Jovi pra gente. "Eu só deixo ele na vitrine para atrair garotas", ele disse. Todo mundo que já frequentou lojas de discos conhece um Barry.

Diretor elegante e respeitoso, Stephen Frears entende o que a música significa para aqueles caras, como prova a sequência na qual o tímido Dick paquera uma moça usando o Green Day como desculpa, enquanto Rob percebe uma oportunidade mercadológica de vender discos da obscura Beta Band e Barry tenta salvar a alma de um freguês com Jesus & Mary Chain e Bob Dylan.

Destaque para um Jack Black ainda desconhecido querendo roubar o filme, em um papel que ele repetiria à exaustão nos anos seguintes, principalmente em “A Escola do Rock”, quase um filme solo do nosso querido Barry. Já Todd Louiso conquista pela fragilidade do personagem, com sua fala hesitante e olhar deslocado, o nerd virjão que nunca toma sol. Na cena em que Rob está reorganizando seus discos em ordem autobiográfica, a expressão de Dick é como se o chefe estivesse construindo um foguete ou tivesse acabado de descobrir a cura do câncer.

Deixando o humor de lado, temos Iben Hjejle, uma atriz desconhecida que nem é tão boa ou bonita assim e sofre com o papel de “vilã” da história. Entre aspas, você entendeu. É ela que está chutando Rob, então é a vilã. Nós somos os amigos confidentes dele e amigos nem sempre têm a liberdade de julgar o gosto do outro para mulheres. Então aceitamos que Laura merece todo aquele sofrimento, mesmo sem saber direito por quê. Aos poucos vamos compreendendo mais os dois lados da história mas, como em todo rompimento que se preze, você tende a ficar do lado do seu amigo, que é quem te conta sua própria versão.

Os demais clichês de uma separação estão todos lá: a mãe que culpa Rob por não ter pedido a moça em casamento antes; a amiga do casal, Liz (Joan Cusack), que não quer tomar partido mas acaba tomando; justificativas manjadas como “eu evoluí e você não mudou nada”; as traumáticas devoluções de objetos pessoais; e por aí vai. Tudo com diálogos incríveis, cheios de melancolia e ironia porque, mesmo no fundo do poço, jamais devemos perder a piada. Rir da própria desgraça é o que nos diferencia dos imbecis. Como na curta porém simbólica cena onde uma cliente da loja pergunta:

“Você tem soul?”

E um miserável Rob responde:

“Ali no fundo, perto do blues.”

Em determinado momento, Liz deixa escapar que Laura está morando com um tal de Ian. Rob descobre que Ian era o zen vegetariano fã de world music que morava no andar de cima e fazia sexo por horas. Tim Robbins aparece perfeito com seu rabo-de-cavalo de Steven Seagal e você quase é capaz de sentir o seu cheiro de patchouli. A notícia é suficiente para tirar o sono de Rob. Ele fica imaginando Laura e Ian transando loucamente ao som de Barry White. É quando Laura entra no top 5 com honras e nós começamos a compreender porque ela era tão adorável. Um flashback mostra como eles se conheceram: Rob era DJ e gravou uma fita para ela. Ajuda muito uma declaração de amor sincera como esta:

“Ela não me deixava triste, ansioso, nem desconfortável. Pode parecer uma chatice, mas não era.”

O top 5 coisas de Laura das quais Rob sente falta reforça o sentimento e vem na forma de um monólogo comovente, uma declaração simples e sincera, daquelas que não vemos no cinema todo dia. Não é sentimental e bobo, é só um homem explicando porque ama uma mulher. Laura também se mostra gente fina quando analisa o top 5 empregos ideais de Rob e o convence de que ter uma loja de discos merece uma posição no ranking. O filme faz você acompanhar gradualmente o sentimento de Rob pós-rompimento, passando da raiva para a tristeza, para a saudade e para a constatação de que o amor ainda existe.

Quando Rob decide ir atrás das top 5 ex e perguntar a cada uma delas o que ele fez de errado, o filme recebe uma visita especial: Bruce Springsteen aparece no quarto de Rob como uma entidade conselheira, apoiando sua atitude. Depois da visão, Rob diz “boa sorte, adeus”, que é o último verso de “Bobby Jean”, canção de Springsteen sobre alguém indo atrás de uma pessoa do passado para esclarecer assuntos que ficaram pendentes, dizer que sente sua falta e desejar boa sorte. Sim, já enviei os versos finais de “Bobby Jean” para mais de uma ex e preciso parar com isso.

Caso você precise enviar umas letras do Chefe Springsteen para alguma ex, recomendo, além de “Bobby Jean”, “Fade Away” e “Human Touch”. Já fiz isso e, na sequência, vi um show do homem com essas três músicas no repertório. Chorei igual criança. Obrigado, Chefe. É assim que Rob agradece a visita de Bruce Springsteen ao seu quarto:

“Obrigado, Chefe.”

Quem já ouviu uma música e a compreendeu como um conselho de pé do ouvido vindo direto do artista sabe bem o que essa cena representa. Ela não está no livro e é a maior contribuição do roteiro à adaptação cinematográfica, já que materializa toda a conexão entre artista e ouvinte sem precisar explicar nada. Além disso, a escolha do artista não poderia ser melhor. É ótimo ter Bruce Springsteen como amigo conselheiro. O Chefe realmente sabe das coisas. Meu top 1 artista no last.fm.

Para mim, ver Bruce Springsteen numa história de Nick Hornby tem um sabor especial: fui me interessar pela obra do Chefe depois de ler “31 Canções” de Hornby, no qual a música “Thunder Road” tem imenso destaque. E o mesmo “31 Canções” me inspirou a escrever sobre meus 31 filmes mais queridos. O que você está lendo agora faz parte disso, então estamos todos juntos nesse barco.

Em sua busca pelas top 5 do passado, Rob descobre que Alison se casou com o moleque que beijou na escola; que Penny (Joelle Carter) se sente rejeitada até hoje; que Sarah (Lili Taylor) tornou-se uma perdedora desempregada e com problemas médicos, comparada à Adrian do Rocky; e que Charlie (Catherine Zeta-Jones), ao contrário do que ele imaginava, é uma baita de uma chata, superficial e insuportável. Aquele tipo de constatação que você só percebe à distância, depois que a sujeita já desceu do pedestal.

É como reencontrar todas as ex que mais feriram seu coração desesperadas no Tinder, judiadas pela vida, disfarçando a tristeza com fotos beijando golfinho e em frente à Torra Eiffel, tentando arrumar príncipe encantando em um aplicativo. Você se sente meio vingado. Você canta "We Are the Champions" mentalmente, dando soquinhos no ar.

Com os fantasmas do passado exorcizados, Rob está livre para resolver seu presente, ou seja, Laura. Os diálogos do casal discutindo a finada relação são tão reais que chegam a doer. No final das contas, ele só quer saber se ela já transou com Ian. Quando ela responde que não transaram AINDA, mas que dormir junto é melhor, ele ignora a segunda sentença (pois homem) e vai comemorar transando com a cantora Marie De Salle (Lisa Bonet). Marie representa o fetiche pop, a fantasia de transar com uma popstar, o que fica bem claro quando o trio Rob, Barry & Dick se encanta com a moça e começa a sonhar em ter seu nome no encarte de um CD dela. Entendo bem a importância disso. Não posso descrever minha felicidade quando tive meu nome impresso nos agradecimentos de um EP do Ludov, ou quando a banda me convidou para fazer figuração em um clipe. Momentos importantes na vida de um pacato fã de música que não sabe tocar nada e jamais vai ser capaz de gravar um disco. Nós, fãs, somos patéticos, nunca negamos isso.

Mais adiante Laura vai fazer o mesmo por Rob: vai ajudá-lo a deixar de ser um consumidor passivo para se tornar parte daquele mundo, lançando seu próprio selo e organizando uma grande festa. Uma prova de amor e tanto.

Rob está longe de ser perfeito e são nos seus defeitos que nós, homens, nos identificamos. Cínico, ele usa sua melancolia oportuna para seduzir Marie. Assim que se despede dela e a fantasia pop se desfaz, o AINDA de Laura volta para atormentá-lo. A insegurança o faz agir de forma infantil, correndo atrás dela, marcando outro encontro só para ouvir que, dessa vez, ela já transou com Ian. E veja, ele transou com Marie, mas não consegue aceitar que Laura tenha transado com Ian. É machismo, é ciúme, é o fora definitivo, é quando a ficha cai de verdade, a tristeza supera a raiva e Rob toma chuva novamente, dessa vez ao som de “Oh! Sweet Nuthin’” do Velvet Underground. E nosso herói ainda tem que aguentar a ida de Ian à loja na cena mais hilária do filme, que envolve fantasias de homicídio. Quem nunca?

A morte do pai de Laura muda o rumo do filme na sua parte final. No velório, sentindo a cobrança ao seu redor, Rob entra na fila para dizer um muito sincero e com duplo sentido “eu sinto muito” a ela. Ele sai na chuva mais uma vez, desta vez ao som de “Most of the Time” do Bob Dylan. Pense em todas as comédias românticas que apelam para baladinhas açucaradas no tradicional clipezinho de fossa e você vai ver que “Alta Fidelidade” está muitos níveis acima. Sofrer na chuva com Bob Dylan é sofrer com dignidade. Sozinho debaixo d’água, ele assume seus erros, sua falta de comprometimento, sua covardia. Ela vai atrás dele, eles transam no carro e reatam o namoro. Tudo muito simples, sem grandes firulas românticas. Pelo contrário, ela diz:

“Estou cansada demais pra não ficar com você.”

Um último desafio para Rob Gordon surge na figura da jornalista indie Caroline (Natasha Gregson Wagner), mais um fetiche pop em sua vida, trazida ao som de Stereolab para a loja de discos. É essa fantasia final que leva Rob ao clímax num singelo bar onde ele pede Laura em casamento, primeiro lugar no meu top 5 pedidos de casamento do cinema. A conclusão é que Laura é real, uma pessoa de verdade, não é fetiche pop idealizado por anos e anos de músicas e filmes e livros que enchem nossa cabeça de bobagem. Ela diz:

“Você achou que eu fosse aceitar?”

Rob responde:

“Não sei, eu achei que o importante era pedir.”

E ela só agradece, sem aceitar ou recusar. Lindo, lindo.

A cena final na festa de lançamento do selo Top 5, com Rob de DJ, o lançamento do CD dos skatistas Kinky Wizards e a performance de Barry Jive and the Uptown Five mandando ver “Let’s Get It On” é apenas um epílogo divertido, arrematado por Rob gravando a fita definitiva para Laura ao som de “I Believe (When I Fall In Love It Will Be Forever)” (Stevie Wonder, fase boa). Porque agora ele sabe como fazer uma fita que deixe Laura feliz.

“Alta Fidelidade” é música, top 5, relacionamentos e as combinações disso tudo, feito para um público muito específico. É para quem tem vontade de se apaixonar só pra ter em quem pensar ouvindo aquela música. Para quem para de ouvir determinada música porque ela lembra demais de certa pessoa. Para quem reconhece que músicas têm o poder de marcar uma época, explicar sentimentos, curar feridas e reabrir cicatrizes. Para quem é capaz de colocar tudo em ordem de prioridade com as devidas justificativas, pra provar que em algum momento parou pra pensar no assunto. A gente analisa um relacionamento com a mesma falsa sabedoria e as mesmas falsas certezas com que analisa um disco ou um filme. Até que um dia a gente chega lá e aprende a gravar a fita certa para a pessoa certa.