Antes do Amanhecer e a vida sem final feliz

(“Before Sunrise”, 1995, Dir.: Richard Linklater)

Toda geração tem seu filme romântico definitivo, aquele que transcende a barreira da água com açúcar ou da mera comédia romântica juvenil, estabelecendo uma linha de comunicação direta com um público de uma certa idade, que tem um certo tipo de interesse e um comportamento em comum. De preferência com um final melancólico, como “Casablanca” nos ensinou. Não sei se é exclusividade da minha geração adolescente nos anos 90, a década do grunge, mas finais felizes sempre parecem uma traição. Um final feliz joga na sua cara que aquilo ali é só um filme. Você sabe que na vida real não é bem assim. Por mais feliz que seja sua história de amor, sempre existe o dia seguinte. Aquilo que acontece depois dos letreiros é sempre uma incógnita, ninguém vive feliz para sempre porque ninguém é feliz o tempo todo. A menos, é claro, que você seja um bobo alegre.

A minha geração cultuou alguns romances de final incerto como “Encontros e Desencontros”, “Apenas uma Vez” e, o meu preferido, “Antes do Amanhecer”. Nele, um rapaz norte-americano chamado Jesse (Ethan Hawke) conhece a francesa Celine (Julie Delpy) em uma viagem pela Europa e eles se apaixonam.

Existe um apelo nesta simples sinopse que é irresistível: todo mundo sonha em fazer um mochilão pela Europa e se envolver com alguém interessante no trem, não? Se não sonha, deveria. É o básico do romantismo ou da fantasia sexual, dependendo do grau de envolvimento obtido. Quando vi o filme pela primeira vez, nos anos 90, em pleno processo de adaptação à capital para onde vim fazer faculdade, viajar pela Europa era um sonho tão distante quanto conhecer uma Julie Delpy no trem. Então “Antes do Amanhecer” parte desse apelo que conquista com facilidade nosso subconsciente para se aprofundar no relacionamento do casal e no seu modo de ver o mundo, por meio de diálogos contínuos e da sensibilidade do diretor e roteirista Richard Linklater.

Jesse e Celine começam o filme viajando em um mesmo vagão. Ela foge de um casal alemão mais velho, que está discutindo sobre algo que não sabemos o que é, e acaba se sentando perto dele. Quem inicia a conversa é ele, perguntando se ela entendeu alguma coisa da briga. Quem alimenta a conversa é ela, contando um fato interessante: conforme os casais envelhecem, eles naturalmente perdem a capacidade de ouvir um ao outro. Jesse e Celine, não. Eles ainda são bons de papo e bons ouvintes. Ainda são jovens, bonitos, inteligentes, livres e estão lendo bons livros no trem. Ainda.

A apresentação dos personagens é feita ao longo de todo o resto do filme conforme eles conversam, e é surpreendente como eles — diretor e elenco — conseguem fazer isso sem se render ao tédio. “Antes do Amanhecer” é uma longa conversa entre duas pessoas se conhecendo, com constantes mudanças nas locações e nos temas abordados. Então logo descobrimos que Celine estuda na Sorbonne, fala vários idiomas e está vindo de Budapeste, onde foi visitar a avó. Já Jesse é o típico americano que só fala inglês, está viajando pela Europa e pretende parar em Viena. Sim, eles são meio “Eduardo & Mônica”.

A conversa flui tão bem que Jesse convida Celine para passar o dia com ele em Viena. Seu argumento é muito bom, ele pede para que ela se imagine dali a 10 ou 20 anos, casada e infeliz, pensando no que perdeu por não conhecer melhor aquele estranho. Apelar para o futuro arrependimento sempre dá certo. Na manhã seguinte, cada um deve seguir o seu rumo.

Já em Viena, no primeiro grande plano-sequência do filme, eles conversam no banco de trás de um vagão de trem sobre sexo e amor, entre outras amenidades. Jesse revela-se meio tarado. Celine, por sua vez, revela seu lado ativista, preocupada com as guerras e com o poder controlador da mídia. Celine é uma daquelas personagens de Woody Allen, a gatinha intelectual de esquerda que eventualmente pode se tornar uma tremenda mala.

Ao longo deste plano-sequência, o trabalho dos atores começa a se destacar: no meio de tanta conversa há espaço para os pequenos gestos, como no breve momento em que Jesse tenta tirar o cabelo da frente dos olhos dela, para enxergá-la melhor. Esse tipo de interação sutil e delicada vai se repetir na cena seguinte, quando os dois estão em uma loja de discos, ouvindo um LP juntos numa cabine. No plano fechado, a troca de olhares que nunca se cruzam, um flerte meio sem jeito, ainda tímido.

A próxima locação é o cemitério dos sem nome, onde repousam os mortos recolhidos nas margens do Rio Danúbio. “Antes do Amanhecer” apresenta em seus diversos cenários algumas teorias e suposições bastante pertinentes: de onde vêm as almas se a população está sempre crescendo? A tecnologia não faz ninguém aproveitar melhor a vida, só faz a gente trabalhar mais? Se você morrer e ninguém ficar sabendo, é como se não tivesse morrido? Quem morre para de envelhecer? São algumas das questões metafísicas que Linklater abordaria com mais complexidade nos pirados “Waking Life” e “O Homem Duplo”, sua adaptação de Philip K. Dick.

Os cenários continuam ditando os temas. Na roda-gigante ao pôr-do-sol, Jesse e Celine se beijam pela primeira vez. No parque de diversões, eles conversam sobre seus pais. Na igreja, sobre religião e fé. No bar, sobre seus últimos relacionamentos. Seja com a cigana que lê a mão de Celine e diz “não se esqueçam de que vocês são poeira cósmica!” (“We’re all made of stardust”, como diria Carl Sagan) ou com o poeta de rua que faz um poema com a palavra "milk shake", Jesse é cético e considera tudo uma grande armação.

“Tudo que fazemos é para sermos amados um pouco mais.”

Celine conclui que, se Deus existir, ele não está DENTRO das pessoas, mas sim ENTRE as pessoas. A magia está na tentativa de entender e compartilhar. Celine, por mais esperta que seja, não consegue compartilhar com tanta facilidade assim, mas encontra um jeito lindo de se declarar indiretamente. Ela simula uma ligação para uma amiga de Paris, na qual conta o que está acontecendo. Jesse faz o mesmo, simulando uma ligação para um amigo. Os dois colocam as cartas na mesa, estão apaixonados. Estão à vontade, vivendo em um sonho, ou melhor, um no sonho do outro. Mas o conto de fadas tem hora para acabar, pela manhã os dois vão virar abóbora. Talvez eles nunca mais se vejam de novo.

É quando o lado intelectual aguçado dos dois começa a jogar contra. Sem saber como encarar o que estão sentindo, eles tentam racionalizar. Namoro à distancia não funciona. Afinal, por que relacionamentos têm que durar para sempre? Então eles concluem que não há saída, aquela é a única noite, ponto final. Sem ilusões, sem projeções. O filme começa a ficar triste. Estamos acompanhando todo o ciclo de um relacionamento em um dia, do primeiro encontro à despedida.

Com a missão de aproveitar ao máximo a única noite juntos, eles vão a um parque com apenas uma garrafa de vinho, mas Celine hesita em fazer sexo porque não quer ser “a fantasia da francesa que ele conheceu no trem, comeu e nunca mais viu”. Interessante que o filme se reconheça como uma fantasia, um clichê. Eles acabam transando mesmo assim.

Amanhece. Hora de cair na realidade, de se despedir. Na estação de trem, bate o desespero e diante da dor da separação, eles abandonam o racional e assumem que querem se encontrar de novo. Está marcado: dali a 6 meses, na plataforma 9, às 18h.

Linklater nos mostra de novo todos os lugares por onde eles passaram, agora vazios e silenciosos como cartões postais, porque agora já se tornaram memória.

A ausência é triste. Assim, não há final feliz. Jesse está no ônibus indo para o aeroporto, Celine está no trem indo pra Paris. Cada um está indo para um lado, de acordo com o eixo da câmera. Fade in. The end.

Será que eles se encontraram 6 meses depois? Essa foi uma das grandes questões dos anos 90, ao lado de “quem matou Laura Palmer?” e “o que aconteceu com Ronaldo na final da Copa de 98”. Eu sempre achei que não. Sempre achei que aquele compromisso dos 6 meses era uma enganação mútua, que aos poucos eles iriam se esquecer, deixar pra lá e seguir suas vidas. Sou cínico e pessimista? Mas é claro que sim. Já era nos anos 90 e depois só piorei.

Eis que 9 anos depois, Richard Linklater, Ethan Hawke e Julie Delpy se reuniram e resolveram contar o que aconteceu. “Antes do Pôr-do-Sol” (2004) mostrou os personagens quase uma década depois, mais ou menos como fez Claude Lelouch em “Um Homem, Uma Mulher” (1966) e “Um Homem, Uma Mulher — 20 Anos Depois” (1986). E depois de mais 9 anos veio “Antes da Meia-Noite” (2013), com o casal já passando dos 40 e deixando todo o romantismo de lado em uma longa DR, mais parecido com o casal alemão do começo do primeiro filme. Lembre-se: à meia-noite é quando o conto de fadas acaba.

Quem viu “Antes do Amanhecer” nos anos 90 tem uma relação diferente com o filme, já que a própria existência de uma sequência pode ser considerada um spoiler. Acabou o mistério sobre o futuro do casal mas criou-se um novo interesse, que é acompanhar o envelhecimento dos personagens, algo que Linklater sabe fazer bem, como vimos em "Boyhood".

Eu tenho sorte de estar cronologicamente em sintonia com os filmes. Estou sempre a alguns anos de chegar na idade dos personagens, então de certa forma eu vejo meu futuro ali. Vi “Antes do Amanhecer” nos anos 90, atingindo a maioridade, solteiro e cheio de sonhos para realizar. Vi “Antes do Pôr-do-Sol” nos anos 00, com 20 e poucos anos, tentando me encontrar no mercado de trabalho e com uma namorada. Vi “Antes da Meia-Noite” nos anos 10, bem acima dos 30, com outra namorada que já morava comigo. Gosto de pensar que fui evoluindo e aprendendo com os filmes.

Sei que tem mais gente por aí que compartilha dessa experiência íntima com eles. Mais de uma vez alguém puxou conversa comigo como se fosse um segredo compartilhado. Cria-se um elo imediato entre os seguidores desta “saga”, é como conhecer alguém que torce para o mesmo time, teve a mesma criação e viu os mesmos desenhos animados que você na infância.

E cada revisão traz novidades, é como rever álbuns de fotos de décadas passadas. Hoje eu revejo “Antes do Amanhecer” com um pouco de inveja, como quem sente inveja de viagens alheias no instagram. Não é todo mundo que tem essas experiências e, principalmente, essa eloquência. Em 2014 viajei para Londres, passei um dia em Paris e fiz questão de ir de trem. Na ida, uma francesa bonita se sentou do meu lado, mas nem olhou na minha cara a viagem toda. Esse foi o máximo que eu cheguei de viver minha experiência "Antes do Amanhecer". Paciência, a vida não é um filme, eu não sou o Jesse e ela definitivamente não era nenhuma Celine.

Minhas experiências em viagens internacionais confirmam pelo menos um ponto do filme: viajar é assim mesmo, cada pequeno detalhe da jornada vai mudando você. E minhas experiências em relacionamentos confirmam que a incerteza sobre o futuro faz parte do jogo. Mesmo os mais cínicos, céticos, pessimistas e aqueles que racionalizam demais estão na torcida para que dê tudo certo daqui a 6 meses, 9 ou 18 anos.