Asas do Desejo e os anjos que curam

(“Der Himmel über Berlin”, 1987, Dir.: Wim Wenders)

Lá pelo meio do ano de 2008 eu estava completamente destruído e perdido na vida. Depois de sair de um relacionamento de anos, eu simplesmente não sabia o que fazer, como me comportar, que rumo tomar. Meus dias eram um longo caminho de casa pro trabalho e vice-versa, meus fins de semana eram uma busca por algum amigo para tomar uma cerveja comigo. Encontrar distração, aprender a ficar sozinho, juntar os cacos e seguir em frente. Você sabe como é.

Naquela época eu tinha no quarto um pôster com todas as capas de discos do U2 e toda noite, antes de dormir, eu olhava para aquelas fotos e pensava que seria bem legal conhecer aqueles lugares um dia: o deserto americano na capa do “The Joshua Tree”, o porto de Dublin na capa do “October”, a loucura de Berlim na capa do “Achtung Baby” — de longe meu preferido, o disco que mudou minha vida lá no começo dos anos 90 quando a MTV chegou na minha cidade e não havia nada mais legal do que aquele clipe de “Even Better Than The Real Thing” com a câmera rodopiando ao redor do Bono vestido de couro preto e óculos de mosca.

Naquela época eu estava justamente lendo “At The End Of The World” do Bill Flanagan, livro que conta os bastidores desta fase incrível da banda, do “Achtung Baby”, do “Zooropa” e da ZOO TV, maior turnê que já existiu e que eu não tive a oportunidade de ver ao vivo apesar de desgastar aquele VHS “Live from Sydney” a ponto de decorar os cortes da edição. Berlim fazia parte daquela história como um quinto membro da banda. Mais do que isso, Berlim uniu a banda em um momento de crise, deu tapas nas caras de todos eles e inspirou um punhado de músicas sobre dor, fé, superação, amor, ódio e futuro. Bono abre o disco cantando que está pronto para o que está por vir.

Naquela época eu também tinha um grande amigo, o Markus, morando em Berlim. E ele sempre dizia que eu precisava ir para lá. Talvez nem ele imaginasse o tanto de razão que tinha ao dizer isso. E enfim, naquela época, eu tinha medo. Minha única viagem internacional até então havia sido um reveillon em Buenos Aires. Sozinho, eu nunca tinha ido a lugar nenhum. Tudo frescura. Quem vem do interior para morar sozinho em São Paulo logo percebe: se eu encaro isso aqui todo dia, não é uma capital europeia que vai me amedrontar.

Dias depois de tomar a decisão de viajar, nada menos do que uma crise econômica mundial apareceu para jogar um balde de água fria na minha mala e eu aprendi uma lição importante sobre viagens internacionais: a partir do momento em que você decide sair de casa, já começou a perder dinheiro. É preciso aceitar o inferno e abraçar o capeta.

A crise foi um sinal negativo, mas quando você quer acreditar em algo você só dá importância para os sinais positivos. Como parte da preparação para a viagem, resolvi rever “Asas do Desejo”, filme que eu havia visto sem a maturidade necessária há muitos anos, só porque a revista Set havia colocado no topo do ranking dos melhores filmes dos anos 80. Fui até uma 2001 perto de casa e me deparei com um “festival Wim Wenders” na vitrine, com todos os seus filmes em promoção. Se isso não foi um sinal divino, eu não sei o que mais pode ser. Locadoras também têm anjos.

“Asas do Desejo” fez parte da bagagem cultural da minha viagem ao lado dos discos do U2. Não por acaso, Wim Wenders e U2 estão intimamente conectados, são amigos e colegas de ofício: Wenders já dirigiu uma história do Bono (o bizarro “O Hotel de um Milhão de Dólares”), o U2 fez uma de suas melhores músicas, “Stay (Faraway, So Close!)” justamente para a trilha da sequência de “Asas do Desejo”, “Tão Longe, Tão Perto” e Wenders dirigiu aquele clipe lindo com a banda fazendo as vezes de anjos. Tudo em casa. E foi assim que “Asas do Desejo” ganhou importância turística, histórica, religiosa, filosófica e sentimental, transformando a viagem em uma pequena jornada de autoconhecimento, um investimento melhor do que qualquer terapia. Eu fui até lá em busca de experiência, como canta o convidado muito especial Johnny Cash na última faixa do “Zooropa”, “The Wanderer”.

Berlim não é um destino turístico para qualquer um. Os brasileiros do meu voo ficaram todos na conexão em Madrid, indo para outros lugares mais ensolarados e coloridos. Quem vai a Berlim para fazer compra em outlet e tirar selfie em monumento costuma se decepcionar. A cidade exige um mínimo de conhecimento histórico e de sensibilidade artística, você tem que saber sobre o Holocausto e sobre o Muro, você tem que saber que o David Bowie e o Brian Eno gravaram uma trilogia ali. Se isso soou pedante demais, siga em frente, tem outros destinos mais ensolarados e coloridos para você conhecer. Berlim não é para amadores.

Imagino que quem entende Berlim automaticamente entende “Asas do Desejo”, que é considerado um “filme de arte” naquelas divisões ridículas das locadoras. Um filme alemão, a maior parte em preto e branco, com planos que remetem ao expressionismo e ao cinema mudo, aquele céu sobre Berlim que dá título ao filme e parece mais uma pintura, poucos diálogos e longos monólogos reflexivos. Aqueles movimentos de câmera que têm a leveza de um anjo sobrevoando a cidade, os ângulos que adotam o ponto de vista do anjo olhando para a humanidade. É, pensando bem é um filme de arte mesmo.

“Asas do Desejo” foi filmado nos últimos anos de existência do Muro de Berlim e divide seus personagens como o muro dividia a cidade: os anjos de sobretudo e rabo de cavalo vivem no mundo PB (o oriente comunista que preza pela igualdade), os humanos vivem no mundo colorido (o ocidente dos prazeres terrenos capitalistas). A arte (cinema e circo) é responsável por unir esses dois mundos quando o anjo Dammiel (Bruno Ganz) se apaixona pela trapezista Marion (Solveig Dommartin) e ouve o conselho de um ex-anjo, o astro de cinema Peter Falk (ele mesmo), para que pule o muro e se torne mortal. “Asas do Desejo” tem uma grande importância histórica ao retratar aquela época e antecipar a queda do Muro, já que é um filme sobre transição.

Berlim é uma cidade cheia de traumas e memórias tristes e acompanhamos muitas delas conforme os anjos Dammiel e Cassiel (Otto Sander) vagam pela cidade ouvindo os pensamentos dos berlinenses. Os ecos do passado estão por toda parte, as vozes na cabeça. O som do filme é uma mistura de consciência com ondas de rádio, algo que o U2 conseguiu assimilar muito bem na ZOO TV, com as interferências visuais em seus telões enormes e aquelas mensagens parte slogans parte autoajuda aparecendo quase subliminarmente. O que os anjos ouvem são dúvidas, angústias, reflexões. A maior parte deles fica na biblioteca, servindo como inspiração para estudantes, historiadores e filósofos, o que mostra bem como Berlim valoriza o conhecimento.

Se, como dizem, a ignorância é uma bênção, o conhecimento é um castigo. Em cada quarteirão da cidade existe um atestado de culpa, um aviso de que algo horrível aconteceu ali e nós devemos nos lembrar sempre para que nunca mais aconteça de novo. É uma cidade que foi destruída e reconstruída inúmeras vezes, mas que às vezes prefere deixar uma igreja pela metade para que nunca se esqueçam do que houve naquele local. Uma cidade cheia de cicatrizes. Wim Wenders explicou a diferença de Berlim para outras capitais europeias também destruídas pela guerra, o que também explica a necessidade de anjos nela:

“Berlim não só viveu o inferno, mas abrigou o inferno”.

Anjos da guarda tomando conta do que um dia foi o inferno — parece algo bem religioso, mas de alguma forma misteriosa não é. Em determinada cena, Dammiel e Cassiel conversam sobre a origem da história, quando não havia nada além deles, e nem ali há citações bíblicas ou menções a um Deus específico. Parece mais uma versão da evolução da espécie que permite a existência de um lado espiritual e isso é lindo demais. Trata-se de uma fantasia — só as crianças conseguem enxergar os anjos — mas os assuntos abordados são completamente adultos. Um poema que sempre repete o verso “quando a criança era criança” fala o tempo todo da inocência perdida, de uma felicidade que Berlim não se permite mais sentir. Quando um homem sofre um acidente e está jogado da sarjeta entre a vida e a morte, Dammiel faz com que ele comece a listar bons motivos para continuar vivo, porque seguir em frente às vezes é muito difícil mesmo. Cassiel, por sua vez, não consegue impedir um suicida de se atirar do prédio da Mercedes-Benz.

Dammiel carrega o peso da história do universo nas costas, mas ele quer seguir em frente. Cansado de sua existência espiritual, ele quer sentir o peso das coisas.

“Supor, em vez de saber sempre.”

Veja, ele quer se tornar humano para poder ter mais dúvidas do que certezas. Então o anjo deixa de ser o guia para ser o guiado, e quem se torna seu guia é Peter Falk, o astro de TV da série “Columbo”, um ex-anjo que encontrou outra forma de tocar as pessoas na Terra. Bono dizia que a fase “The Joshua Tree” e “Rattle and Hum” do U2, quando a banda foi desbravar a América, era baseada num conceito de Wim Wenders sobre os EUA terem colonizado o nosso subconsciente. Então a presença de uma celebridade norte-americana em Berlim atuando em um filme sobre a Segunda Guerra não deve ser à toa. “Paris, Texas” já havia deixado claro o fascínio que a cultura americana exerce sobre Wenders.

A outra personagem responsável pela transição de Dammiel é Marion, a trapezista que se sente tão solitária quanto ele. Os colegas do circo a chamam de anjo, mas na solidão do seu trailer, ouvindo um LP do Nick Cave, ela reclama que é tudo muito vazio e que sente falta de sentir desejo. Enquanto isso Dammiel segura a representação etérea de uma pedra, querendo sentir o seu peso, querendo tocar a moça que se despe à sua frente. Mais do que o desejo carnal de tocá-la, ele queria estar lá para ela. O anjo se reconhece nela. Os solitários sempre se reconhecem.

Que imagem pode ser mais solitária que a do anjo sentado no ombro da Siegessäule, o Anjo da Vitória, provavelmente o lugar mais mágico que já visitei na vida? Um local poderoso onde diversos caminhos se cruzam. Se um dia você for até lá e subir a escadaria até o topo, procure meu nome na parede, está escrito “Renato Thibes Faraway So Close” no meio de um trilhão de outras mensagens e desenhos bacanas. Fique pelo menos uma hora lá em cima. Ouça “Stay (Faraway, So Close!)” no repeat até acabar a bateria do player. Você nunca mais será o mesmo. Dizem que algumas pessoas sentem isso no Vaticano e em Jerusalém, eu senti em Berlim. A arte pode exercer o mesmo efeito que a religião, principalmente se você acreditar que todo artista está sendo guiado por seus anjos.

Dammiel também nunca mais será o mesmo depois de se transformar em humano. A transição ocorre entre dois trechos do Muro de Berlim, uma zona neutra e cheia de significados. Ele está conversando com Cassiel e de repente ganha peso, deixando pegadas pelo caminho. Acorda já do outro lado do muro em um mundo colorido, com a armadura angelical que ele vende a um antiquário para comprar uma roupa bem cafona, bem colorida, bem humana. Seu primeiro sentimento como ser humano é a dor de um machucado na cabeça, porque nós somos frágeis mesmo. Frágeis e pesados. Deixamos sangue e marcas pelo caminho.

O ex-anjo então se comporta como um perfeito turistão em Berlim: toma um café e sai caminhando pelas ruas deslumbrado com tudo. Vale lembrar que logo no começo do filme Dammiel está no avião no qual Peter Falk está chegando à cidade. Mais tarde, Marion diz:

“Aqui sou estrangeira, mas tudo me é familiar.”

Wim Wenders quer muito que você visite Berlim. Ele faz pela capital alemã o que Woody Allen e todas as sitcoms do mundo fazem por Nova York, o que James Bond faz por Londres, o que o turismo sexual faz pelo Brasil. Já humano, Dammiel vai pedir ajuda a Falk:

“Eu quero saber de tudo!”
“Você vai ter que descobrir sozinho, essa é a graça.”

Essa é a minha filosofia de turista. Por favor, não me indique bistrozinho delícia lá não sei onde, pode deixar que eu me viro. Recomendo que você também descubra seus próprios caminhos nessa vida, é muito mais interessante.

“Eu não saberia dizer quem sou. Não tenho a menor ideia. Sou alguém sem raízes, sem história, sem país e persisto nisso. Estou aqui, sou livre, posso imaginar qualquer coisa para mim. Tudo é possível, basta levantar os olhos e me confundir com o mundo.”

Marion diz, quando o circo vai embora. Esse é o espírito da coisa. Estar perdido também significa que você está livre.

Dammiel e Marion finalmente se encontram no plano físico durante um show do Nick Cave & the Bad Seeds porque, eu sempre soube, grandes músicos são todos cupidos. É como se ela estivesse esperando por ele desde sempre:

“Não existe história maior que a nossa.”

Na última cena do casal, ela está ensaiando seu número e ele segura as cordas, embaixo, olhando para ela lá em cima, revertendo o ângulo de visão do anjo.

“Eu estive dentro dela, ela esteve em volta de mim. Quem neste mundo pode dizer que já esteve unido a outro ser?”

Este é o modo sublime como Wenders trata o sexo: como algo sagrado, espiritual, transcendental. O que torna Dammiel humano é esse “quadro imortal compartilhado”. Ele encerra dizendo:

“Eu agora sei o que nenhum anjo sabe.”

Ele foi até lá para viver uma experiência e viveu sua experiência plena.

O filme termina com um homem idoso que já havia resgatado tristes memórias da guerra, se espantado com a nova cara da Potsdamer Platz e revisitado as ruínas de Berlim. Agora ele está caminhando em direção ao muro e diz: “embarquemos”, enquanto o letreiro anuncia que a história terá uma continuação. De fato teve, mas poderia ser a continuação da vida, da sua, da minha, de Berlim se reerguendo de novo. Embarquemos para o futuro, prontos para o que vier, como o Bono cantou lá no começo de “Zoo Station”, nome de uma estação de metrô de Berlim.

Wim Wenders dedica o filme a todos os ex-anjos, especialmente Yasujiro (Ozu), François (Truffaut) e Andrej (Tarkovsky), cineastas que certamente o abençoaram enquanto ele criava “Asas do Desejo”.

Dizem que, em toda viagem, quem volta não é mais aquele que partiu. O que não impede que você volte a cometer os mesmos erros e precise de novas viagens para tentar aprender alguma coisa nessa vida. Depois de conhecer outras capitais do mundo eu cheguei à conclusão de que nunca mais vou sentir aquilo que senti entre 23 de outubro e 5 de novembro de 2008 em Berlim. Todo o aprendizado sobre reconstrução, sobre assumir os erros, pedir desculpas e seguir em frente, sobre lidar com o passado e deixar o futuro chegar, sobre derrubar os muitos muros que separam a gente. Não é qualquer lugar que ensina tanto.

Da mesma forma, sei que nunca mais um disco vai mexer comigo como o “Achtung Baby” mexe até hoje. Consegui separar umas horas da viagem para ir até a porta do Hansa Tonstudio onde ele foi concebido, não entrei porque estava tendo gravação e porque não se trata de um destino turístico, é só um estúdio. Mas tenho certeza de que devia ter um monte de anjos lá dentro também.

Esses fenômenos acontecem poucas vezes na vida, mas os reflexos deles duram para sempre. A Alemanha continua dando lições para quem quiser aprender. Como não agradecer as inúmeras lições do povo alemão que veio para o Brasil na Copa na maior simpatia, enfiou 7 a 1 na nossa seleção de insuportáveis garotos mimados e ainda pediu desculpas pelo placar elástico? Foi pouco, amigos. Nós merecíamos muito mais. Berlim, se gostasse mais de futebol, merecia muito mais.

Berlim não se importa muito com futebol mas compensa esse pecado com outras formas de arte. Tem lá um simpático museu de cinema que vende o poster de “Asas do Desejo” por um preço ligeiramente superior aos demais, porque até a Alemanha dá seu jeito de explorar turista. Hoje o “céu sobre Berlim” está na parede do meu quarto, justamente onde ficavam aquelas capas do U2. É sempre bom ter anjos cuidando do seu sono. Eu não sou exatamente um sujeito religioso, não tenho muita fé na humanidade e não sei nem se acredito tanto assim na existência de anjos. Mas que eles existem, existem. Pelo menos em Berlim.