Blade Runner e a fragilidade da existência

(“Blade Runner”, 1982, Dir.: Ridley Scott)

Mais cedo ou mais tarde, todo mundo encontra aquele momento de reflexão, autoanálise e autodescoberta na vida. Ou pelo menos deveria. É quando você descobre que Papai Noel não existe, que a vida não faz muito sentido, que todos que você ama um dia irão morrer, que o mundo pode não ser exatamente aquilo que você imagina. Talvez nem você seja o que você imagina.

Não sei exatamente quando foi a primeira vez em que pensei nisso, mas sei que “Blade Runner — O Caçador de Andróides” foi o ponto de partida para algumas questões filosóficas importantes e chegou como uma bomba, disfarçado de filme de ação e ficção. Assisti pela primeira vez em uma daquelas férias de verão em Itanhaém, ainda na febre Harrison Ford proporcionada por “Star Wars” e Indiana Jones. Eu e meu primo alugamos a fita de “Blade Runner” e, entre outros filmes daquela leva, acabamos vendo outro ícone existencialista: “2001 — Uma Odisséia no Espaço”. Crianças não deveriam mexer com drogas tão pesadas. "2001" seria parcialmente assimilado apenas uns 10 anos depois. “Blade Runner” não, ele plantou a semente da dúvida logo cedo. Isso porque, ao contrário da semiótica kubrickiana, suas mensagens são diretas, certeiras e universais.

A longevidade é relativa. Quanto tempo nos resta? Como encarar a mortalidade? É melhor uma vida longa e covarde ou uma vida curta e intensa? Você sabe realmente quem você é? É a sua memória, o seu passado que faz de você humano ou são suas atitudes no presente? O que você faria se encontrasse o seu “criador”? Até que ponto o homem deve avançar na busca pela inteligência e pela emoção artificiais? O homem deve brincar de Deus? Uma máquina pode ter sentimentos? Acompanhe os noticiários sobre robótica, clonagem, inteligência artificial, aplicativos cada vez mais espertos e você pode se surpreender.

As questões foram levantadas há décadas por um gênio chamado Philip K. Dick, escritor de relativo sucesso que só ficou famoso após sua morte. Dick não chegou a ver sua obra “Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?” no cinema, morreu pouco tempo antes. “Blade Runner” é dedicado a ele postumamente. Se tivesse visto, não teria mudado muita coisa em sua vida. O filme foi um fracasso no lançamento, em 1982. O estúdio fez alterações significativas, inclusive uma narração em off que fez Harrison Ford renegar o filme durante muito tempo. Seu personagem deixou de ser um homem com dúvidas existenciais para se tornar o que eu e meu primo queríamos ao alugar o filme na época: um detetive heróico. Em 1991, finalmente “Blade Runner” foi relançado como um director’s cut (a reedição do diretor Ridley Scott). Entre outras alterações, saiu a narração em off e entrou a simbólica cena do sonho com o unicórnio.

Mesmo antes disso, com o tempo “Blade Runner” encontrou seu público, virou fenômeno na era do VHS e se tornou cult. Foi inclusive a primeira vez que li a palavra cult. Também foi a primeira vez que li a palavra noir, gênero dos policiais clássicos do cinema, com suas mulheres fatais, detetives canalhas e o forte contraste entre luzes e sombras. Outras obras de Philip K. Dick seriam adaptadas nos anos posteriores, mas foi só quando Steven Spielberg aprendeu a lição, copiou a fórmula e retomou o noir em “Minority Report” que outra obra-prima surgiu.

“Blade Runner” tornou-se referência principalmente na estética futurista criada pelo designer Syd Mead, com seus arranha-céus claustrofóbicos, as chaminés das indústrias, a chuva que não para, os carros voadores, os neons, a publicidade onipresente, a China tomando conta da Los Angeles de 2019. O visual influenciou toda uma geração, mas “Blade Runner” não foi só fundamental esteticamente. Para se tornar um marco dos anos 80, o filme também mostrou que uma ficção científica poderia ser inteligente e filosófica sem perder o ritmo de suspense e ação. Isso tudo 17 anos antes de “Matrix”.

Estamos no início do século 21. A Tyrell Corp. criou os robôs da série Nexus, idênticos aos humanos. Eles são conhecidos como Replicantes e usados em exploração espacial, na colonização de planetas. A Terra é um lugar horrível e só os perdedores permanecem por aqui. Mesmo assim, cansados do trabalho escravo, os Replicantes se rebelam e alguns voltam para o nosso planeta sujo em busca de respostas. Os blade runners são os policiais encarregados de caçá-los e “aposentá-los”, eufemismo para “matar”. Curiosidade: o nome blade runner não existe no livro de Philip K. Dick, foi “emprestado” de outro livro de ficção, “The Bladerunner”, texto escrito por Alan E. Nourse e adaptado para o cinema pelo escritor beatnik William S. Burroughs já com o título “Blade Runner — A Movie”, mas jamais produzido de fato. Nos créditos, Ridley Scott agradece a cortesia.

Quando chegamos à Los Angeles de 2019, o blade runner Holden (Morgan Paull) está interrogando o suspeito Leon Kowalski (Brion James). O primeiro plano depois da apresentação da caótica cidade é o destaque de um olho. Segundo o teste Voight-Kampff aplicado nos suspeitos, é no olhar que está a verdade. Assim como em “Alien” (também de Scott) e “Coração Satânico” (outro clássico noir dos anos 80, de Alan Parker), o prenúncio da desgraça vem com as batidas do coração. A sessão acaba mal, depois de Leon não aceitar bem uma pergunta sobre sua mãe, porque mexer com a mãe é mexer com a sua origem, com a sua identidade. Não se mexe com a mãe dos outros.

Holden é baleado e seu chefe, Bryant (M. Emmet Walsh) convoca o blade runner aposentado Rick Deckard (Harrison Ford) para a ingrata missão de encontrar e “aposentar” quatro Replicantes foragidos. Os quatro andróides são inteligentes, fortes, têm emoções humanas e um dispositivo de segurança: apenas quatro anos de vida. Aí você pergunta: se a data de validade já estava expirando, qual a necessidade de caçá-los? Bem, minha teoria não justifica eventuais falhas no roteiro, mas “Blade Runner” é uma viagem de autoconhecimento. A jornada é mais importante do que a chegada, ou do que a missão em si. Apesar do subtítulo brasileiro, “O Caçador de Andróides”, não se trata de um jogo de gato e rato.

A primeira missão de Deckard é testar a máquina do Voight-Kampff em um Nexus 6 que vive na Tyrell Corp. Essa primeira missão já soa como pegadinha de Bryant e seu braço direito, o sinistro Gaff (Edward James Olmos), um homem que aparenta saber demais e é figura-chave no mistério que se esconde atrás da cortina em “Blade Runner”. O roteiro brinca com a relação homem/máquina: quando Deckard está aprendendo sobre os fugitivos e dá de cara com a imagem do líder Replicante Roy Batty (Rutger Hauer), ele pergunta “o que é isso?” e não “quem é esse?”. Quando Bryant pede para que ele teste a máquina, Deckard pergunta “e se a máquina não funcionar?”, uma questão que fica sem resposta até o fim do filme. E finalmente temos os origamis de Gaff, os bonequinhos de papel que ele vai deixando pelo caminho em uma metáfora nada sutil sobre a vida criada pelas mãos do homem.

Na Tyrell Corp., o genial cientista, designer de cérebros e candidato a Deus conhecido como Dr. Eldon Tyrell (Joe Turkel) pede para que Deckard teste a máquina em um humano antes, indicando a sua sobrinha, Rachael (Sean Young). Rachael se move como andróide, é fria, de pele macia e perfeita, e responde às perguntas com uma certeza absoluta demais para ser humana. Desconfie de pessoas que têm certeza de tudo.

Você não precisa ser blade runner pra saber que Rachael é uma Replicante. Mas ela não sabe, porque tem memórias falsas implantadas — um dos temas preferidos de Philip K. Dick, vide toda a trama de “O Vingador do Futuro”, adaptado para o cinema por Paul Verhoeven. As memórias implantadas dão um background emocional ao robô e o tornam quase perfeito. Afinal, se ele tem sentimentos, o que o diferencia de um ser humano? Em uma atitude desesperada e comovente para provar que é humana, Rachael vai até o apartamento de Deckard com fotos da infância. O cruel detetive rebate suas provas e Rachael chora, devastada. Quem é menos humano aqui? Imagine alguém dizer que você é de mentira e que suas memórias pertencem a outro.

Como na cena acima, o roteiro escrito por Hampton Fancher e aperfeiçoado por David Peoples usa uma série de paralelismos para construir esses conflitos. Por exemplo, em busca de respostas na Tyrell Corp., os Replicantes descobrem que o projetista genético J. F. Sebastian (William Sanderson) pode ajudá-los. E não é por acaso que Sebastian sofre de envelhecimento precoce: com 25 anos mas aparentando muito mais, ele vive solitário com os bonecos que ele mesmo cria. Em determinado momento, ele diz de maneira melancólica:

“Eu faço amigos.”

Os Replicantes de certa forma fazem parte da sua coleção de bonecos, criados para satisfazer suas necessidades, ser amigo, empregado ou amante, como as assustadoras real dolls à venda por aí. Pris (Daryl Hannah), que parece uma Barbie do inferno, aproveita para se aproximar do carente e solitário Sebastian com segundas intenções. Ela esconde-se debaixo de uma maquiagem branca e uma pesada sombra preta nos olhos, uma personagem forte capaz de botar medo, seduzir e ainda ser irônica soltando um “penso, logo existo” que não poderia faltar no contexto do filme.

Depois de sonhar com o tal unicórnio e analisar uma foto com uma espécie de photoshop cyberpunk, Deckard chega até a dançarina exótica Zhora (Joana Cassidy), que se apresenta com uma cobra artificial. Fiel ao espírito do livro e da grande maioria das ficções distópicas, tudo é artificial em “Blade Runner”: a cobra, a coruja, os personagens, as memórias. Deckard a “aposenta” em uma belíssima e triste sequência na qual Zhora se recusa a morrer, quebrando uma série de vitrines até encontrar seu destino em meio a manequins tão falsas quanto ela.

Não demora para Leon buscar vingança, mas Deckard é salvo por Rachael e começa um duelo psicológico entre os dois. Ela pergunta se ele já fez o teste em si mesmo. Deckard força um beijo, tenta arrancar alguma emoção daquela face gélida, quer provar que ela pode ser humana. O compositor grego Vangelis ajuda no climão com uma das mais marcantes trilhas sonoras da década de 80.

Pris e Roy Batty conseguem encontrar seu criador, o Dr. Tyrell. O que Batty tem a lhe pedir é simples: mais tempo de vida. Tyrell explica que é cientificamente impossível, Batty não foi feito para durar. A chama que arde mais forte dura menos.

“Comemore o tempo que tem.”

Essa espécie de carpe diem é a mensagem final do cientista antes de pagar por sua pretensão de querer ser divino. Em uma sequência primorosa à luz de velas e intensa conotação religiosa, Roy Batty ensaia uma confissão diante de seu criador, lhe dá um beijo e o mata com as próprias mãos, assumindo-se como uma espécie de anti-Cristo deste novo Deus cientista. J. F. Sebastian também vai dessa pra melhor, mas Ridley Scott nem perde tempo mostrando como. Pobre Sebastian, ninguém se importa com ele.

O clímax de "Blade Runner" acontece no prédio de Sebastian, aonde Deckard vai para apanhar mais um pouco, porque ele apanha de todo mundo o filme todo. Camuflada entre os bonecos de Sebastian e assumindo seu papel de objeto sexual, Pris é mais uma Replicante a encher Deckard de porrada, com direito a chave de perna e ataques acrobáticos. Porém, o blade runner tem uma arma de fogo. Quando Pris é alvejada e cai, ela se debate como um inseto, como um robô com defeito, deixando qualquer traço humano para trás. A única diferença entre sua agonia e a do robô Ash de “Alien” é que Pris tem sangue vermelho. Ridley Scott adora máquinas defeituosas.

O duelo final entre Deckard e Batty vai além de uma simples luta entre mocinho e bandido. Você sabe disso quando o Replicante grita:

“Venha Deckard, me mostre do que você é feito!”

De caçador, Deckard torna-se uma presa acuada. De caçado, Batty torna-se um caçador enfurecido, animalesco, uivando entre as luzes, goteiras e corredores do prédio imundo. Sua vida está chegando ao fim e ele sabe disso. Nada bota mais medo do que um vilão sem nada a perder. Mas será que Roy Batty é mesmo um vilão? Quando ele salva Deckard de uma queda fatal do prédio, temos a demonstração definitiva de sua humanidade. Segue seu comovente monólogo final, seu epitáfio, sua elegia, seu momento Marlon Brando em “Apocalipse Now”:

“Eu vi coisas que vocês não acreditariam. Naves de ataque em chamas perto da costa de Orion. Vi a luz do farol cintilar no escuro na Comporta Tannhauser. Todos estes momentos se perderão no tempo como lágrimas na chuva. Hora de morrer.”

E então ele morre diante de Deckard, deixando a simbólica pomba da paz que estava segurando voar livre, seguir sua vida. Um Replicante ainda vive: Rachael. O misterioso Gaff aparece para dizer mais uma frase dúbia a Deckard:

“Fez um serviço de homem!”

E completa com a minha citação preferida de todo o filme, se referindo a Rachael:

“É uma pena que ela não vá viver. Mas afinal, quem vive?”

Gaff dá a entender que ela vai morrer, seja de morte matada ("aposentada"), seja de morte morrida (o prazo de validade replicante). E que isso não faz a menor diferença, já que todos morrem mais cedo ou mais tarde. E mesmo quem está vivo não está necessariamente vivendo, talvez esteja apenas matando tempo, como diz aquela música do Radiohead. Quanta coisa numa única linha de diálogo.

Deckard corre para casa e encontra Rachael viva. Na fuga, ela pisa em um origami de unicórnio. A frase de Gaff volta à mente de Deckard. Na primeira versão do filme, a narração de Deckard explicava que Gaff tinha deixado ela viver e o casal partia feliz para o Norte em uma viagem por paisagens que não tinham nada a ver com o resto do filme — usaram cenas que sobraram de “O Iluminado”, que vergonha. Na versão do diretor, o origami remete diretamente ao sonho de Deckard, o que dá a entender que ele próprio pode ser um Replicante de memórias implantadas. Deckard e Rachael fecham a porta do elevador e a questão fica para a posteridade. Que "Blade Runner 2" não ouse respondê-la.

Presença garantida em meus top 5 filmes favoritos desde sempre, “Blade Runner” é a prova de que um filme com um astro heróico empunhando uma arma na capa pode sim ser uma obra-prima. Um filme dirigido por um ex-publicitário, também. Mais uma prova de que ficção científica não é, nunca foi e nunca será apenas sobre navinhas, tiros de laser e robôs. Um filme que nos ensina a encarar nossa própria mortalidade, questionar nossa própria identidade, entender melhor a humanidade. Tente indicar alguma outra obra com esse tipo de conteúdo para um moleque procurando filmes para as férias de verão, vamos ver se ele abraça a ideia para o resto da vida.

Mesmo com uma ou outra peça de design que agora parece cafona, “Blade Runner” acertou muito mais do que errou e continua influenciando até hoje. No mínimo, aquele ambiente superpovoado e chuvoso é comum em qualquer megalópole do mundo. Os smartphones do Google com sistema operacional Android não se chamam Nexus à toa. E se Ridley Scott e Harrison Ford tiveram muitos outros sucessos, cabe a “Blade Runner” ainda espalhar por aí o nome de Philip K. Dick, meu autor preferido de ficção científica.

Ainda que seu Deckard não tivesse nenhum traço heróico que valesse a escalação de um astro como Harrison Ford, a essência do autor está em toda parte, seja nas traquitanas tecnológicas que hoje parecem peça de museu, seja em detalhes como aquele último plano, da porta se fechando e deixando a dúvida no ar. O destino de Deckard e Rachael permanece incerto como o de qualquer um de nós. Será que eles vão viver? Quem é que vive de verdade? No final, vamos todos morrer mesmo.