Busca Frenética e a essência do desespero

("Frantic", 1988, Dir.: Roman Polanski)

Uma das minhas palavras favoritas é "desespero", mas em sua versão inglesa, "despair". Vem do francês antigo e significa a perda da esperança. Uma palavra muito elegante para definir um sentimento tão ruim. Muito frequente nas letras niilistas do Manic Street Preachers e em poemas desgraçados — H.P. Lovecraft tem um com este nome. "Busca Frenética" se chama "Frantic", frenético, um estado de inquietude, agitação, desequilíbrio, loucura, delírio, frenesi — título de um dos últimos trabalhos de Hitchcock, influência enorme no filme de Polanski. Um bom nome para um thriller, mas eu o considero muito mais desesperado do que frenético.

Tendo sobrevivido ao Holocausto e perdido a esposa Sharon Tate de maneira trágica, brutalmente assassinada por uma seita de lunáticos, Polanski entende bem de desespero. Ele construiu sua carreira com filmes claustrofóbicos e tornou-se um mestre do terror de apartamento (“O Inquilino”, “Repulsa ao Sexo”, “O Bebê de Rosemary”), mas em "Busca Frenética" ele trocou as quatro paredes pela não menos sufocante cidade de Paris.

Depois de estuprar uma menor de idade, Polanski fugiu dos EUA e passou a viver em Paris em 1978. A capital francesa se tornou a sua prisão, então em "Busca Frenética" não há nenhuma ode à cidade luz, a Torre Eiffel só aparece ao fundo porque simplesmente não dá pra evitá-la, o tal almoço que deveria acontecer lá nunca acontece de fato, o último plano é o de um caminhão de lixo horroroso tentando limpar a cidade. Ao contrário de Wim Wenders com Berlim ou Woody Allen com Nova York, Polanski não demonstra muito amor por Paris. Deveria. Por pior que seja, ainda é melhor que a cadeia.

Passei um dia em Paris em 2014, antes dos atentados terroristas virarem rotina por lá, e já naquela época não me senti à vontade. Nem é pela tradicional falta de simpatia dos franceses. As pessoas simplesmente te olham diferente por lá. Os cartões postais parecem não fazer muito sentido, a menos que você esteja em lua de mel, pendurando seu cadeado cafona na Pont Neuf, ou tirando selfie em frente à Torre Eiffel pra ilustrar rede social. Também em 2014, a prefeitura tirou 70 toneladas de cadeados da Pont des Arts porque uma de suas grades desmoronou. Paris não aguentou todo esse amor. É como se a cidade dissesse: parem de colocar a responsabilidade por seus relacionamentos em nossas costas. Eu passei por lá sozinho, então existe esse paradoxo: é uma cidade saturada de casais apaixonados, mas que te olha feio se você estiver sozinho. Ou talvez eu tenha cara de terrorista.

O casal norte-americano de "Busca Frenética" passou a lua de mel em Paris em 1968 e está de volta à cidade em 1988 para um congresso de medicina. O Dr. Richard Walker (Harrison Ford) é o típico americano que nunca aprendeu outro idioma porque nunca precisou. Sua esposa Sondra (Betty Buckley), por outro lado, fala francês. A chegada dos dois à cidade tem contratempos como o pneu do táxi furado e uma mala trocada no aeroporto, mas tudo está sob controle até ela desaparecer enquanto ele toma um banho. A princípio surge a suspeita dela ter fugido com um amante (Paris é foda), mas logo o Dr. Walker tem certeza absoluta de que ela foi sequestrada. Da família nos campos de concentração nazistas ao massacre proporcionado pela família Manson, Polanski sabe o que é ter um ente querido levado embora.

Uma das influências de Hitchcock no filme é a trama do homem comum envolvido em uma situação extraordinária. Poderia ser o James Stewart ali, mas é Harrison Ford no auge de sua carreira de herói hollywoodiano aparecendo meio lento, meio atrapalhado, meio descabelado, sempre ofegante e sonolento, metido em um terno cinza meio grande demais. O funcionário do hotel aconselha que ele faça mais exercícios. Da mesma forma que transforma um ponto turístico romântico em um cenário de pesadelo, Polanski transforma o grande herói americano da década em um homem frágil, impotente e perdido.

É claro que eu assisti ao filme pela primeira vez só por causa dele, alugando um VHS pirata antes de estrear no cinema. Está longe de ser um filme para crianças, mas sei lá por que eu adorei, assim como adorei "A Testemunha", outro drama policial adulto que enganou muito moleque por trazer o Indiana Jones como protagonista.

O MacGuffin de "Busca Frenética" é a tal mala trocada no aeroporto. Depois de aberta a mala, o MacGuffin se torna uma pequena réplica da Estátua da Liberdade que estava nela. E depois que a estátua se quebra, o MacGuffin se torna um dispositivo capaz de detonar bombas atômicas, uma tecnologia de filme de espionagem completamente absurda em um filme sobre um homem comum procurando a esposa desaparecida. Além de salvar a esposa, o super médico americano vai ter que salvar o mundo, porque os árabes (sempre eles) estão atrás do tal dispositivo. Parece ironia de Polanski e deve ser mesmo.

Antes de se transformar no mais manjado dos souvenirs, a Estátua da Liberdade foi um presente da França para comemorar o centenário da Declaração da Independência dos EUA. Para comemorar o centenário da Revolução Francesa, os norte-americanos retribuíram o presente com réplicas que estão espalhadas por Paris. Algumas delas aparecem em “Busca Frenética”. Símbolo da amizade entre os países, é mais um ícone que Polanski subverte ao posicioná-la sempre no meio do conflito entre o americaníssimo Dr. Walker e os franceses.

Além disso, a polícia francesa e a embaixada americana são mostradas como um amontoado de burocratas incompetentes que não estão nem aí para a mulher desaparecida e fazem você concluir que não é à toa que o único policial francês famoso é o Inspetor Clouseau. Independente da nacionalidade, as instituições não funcionam. O Dr. Walker vai ter que cheirar, brigar, mentir e descer ao submundo parisiense por conta própria para resolver o problema. O homem branco americano de classe média alta sendo vítima de opressão pela primeira vez na vida. Tudo isso aumenta o isolamento do personagem. Desespero é não poder contar com ninguém.

Eu sou um homem desesperado!

A se destacar a sequência em que o Dr. Walker se revela "desesperado em busca da dama branca" e acaba arrumando cocaína. Mesmo quando as pessoas falam a sua língua, o Dr. Walker está perdido.

Em sua caçada solitária, o médico esbarra em Michelle (Emmanuelle Seigner), uma gatinha francesa underground. Ela é a dona da mala trocada, trouxe a Estátua da Liberdade sob encomenda mas nem sabe do que se trata. Como sua vida também está correndo perigo, ela se une ao Dr. Walker para juntos formarem um casal improvável, um conflito de culturas e gerações tão bem representando na cena em que eles dançam o "Libertango" de Grace Jones, grande sucesso das rádios parisienses de 1988. Enquanto Michelle rebola e se contorce com toda a falta de ginga francesa, o Dr. Walker mal consegue mover os pés. Durante o filme eles vão fingir ser um casal de amantes, o típico tiozão de férias curtindo uma garota de programa, mas no final das contas ele a trata como uma filha, fechando o zíper da sua jaqueta de couro para ela não tomar friagem. Michelle é daquelas personagens doidinhas adoráveis tão comuns no cinema francês, também é o coração de "Busca Frenética", e não espanta que a atriz tenha se tornado a nova musa do cineasta. Quer dizer, o Dr. Walker até conseguiu resistir ao seu charme, já o Polanski…

É no telhado do prédio de Michelle, que ela usa como atalho para entrar no apartamento quando está sem chave, que acontece a cena mais emblemática de "Busca Frenética". É ali, entre construções antigas de ângulos irregulares que parecem prestes a desmoronar a qualquer momento, que o Dr. Walker vai enfim se despir de qualquer orgulho. Seu sapato não aguenta o tranco, a mala que ele carrega se abre e derruba tudo que tinha dentro e, todo atrapalhado, ele se agarra à antena de TV para não cair. É o protagonista de "Um Corpo Que Cai" sem a desculpa da vertigem. Para completar o processo de nudez moral, poucos minutos depois ele vai encarar uns bandidos completamente pelado, usando um bicho de pelúcia para preservar sua intimidade. Um clássico Harrison Ford apontando o dedo, mas completamente diferente dessa vez.

Não mexa comigo! Eu sou um americano e eu sou louco!

No clímax às margens do Sena, o Dr. Walker deve trocar o detonador por sua esposa e Michelle surge como a negociadora. Os vestidos de Sondra e Michelle têm a mesma cor vermelha, mas cada um ao estilo de sua dona. Quando elas se cruzam e trocam de lugar, voltam aos seus habitats naturais: Sondra está segura com o maridão, Michelle está sozinha e em perigo. Então você compreende que o desespero do homem americano rico era passageiro, ele era apenas um turista em uma situação extraordinária. Já o desespero de Michelle, a mocinha francesa pobre envolvida com o mundo do crime, não. Ela não tinha como fugir do seu destino.

E o destino chega após um tiroteio e um singelo plano de Michelle perdendo o sapato quando é baleada. Polanski mata sua musa e a cena, naturalmente triste, machuca um pouco mais se você conhece a história do diretor. É sempre comovente quando um artista talentoso expõe suas cicatrizes para você.

O filme termina onde começou, com o casal Walker no táxi e a mais subestimada das trilhas de Ennio Morricone. No início, o Dr. Walker diz que a cidade mudou muito nos últimos 20 anos. No final, ele tem a certeza de que o cenário de lua de mel já não existe mais. Aquela citação clássica de "Casablanca", "nós sempre teremos Paris", já não vale mais. A vida é essa eterna decepção com algo que um dia você amou. Um eterno descobrir que não era tudo isso.

Com a Europa contando vítimas de atentados terroristas numa frequência assustadora, "Busca Frenética" parece ainda mais atual agora. Nenhum cartão postal de lua de mel está seguro e qualquer barulho de rojão já deixa todo mundo apreensivo.

Evidente que existem muitos outros filmes mais desesperadores, com temas mais densos e relevantes. Porém, há algo na combinação da história pessoal de Polanski com a imagem heróica de Harrison Ford distorcida e a trilha melancólica de Morricone que me remetem a deslocamento, impotência, intimidação, solidão, aquilo tudo que costuma gerar o péssimo sentimento de autopiedade. Quando você está em um dia ruim se sentindo um lixo, cheio de problemas pra resolver e sem ninguém pra te ajudar, e você leva uma bronca injusta do seu chefe, e furam sua fila no caixa do mercado, e arranham seu carro na rua, e seu time perde, e te xingam na internet, e chegando em casa a resistência do seu chuveiro queima, justo agora que esfriou. Você tem a certeza absoluta de que o mundo todo está te fazendo de trouxa ao mesmo tempo em que ninguém parece se importar com você. Você é uma vítima de toda a maldade do mundo.

Em sua trajetória, Polanski já foi vítima e culpado. Quando alguém com tanta experiência em terror fala, você precisa prestar atenção e tentar aprender alguma coisa. Suas tragédias e seus pecados não se anulam, não se justificam e vão acompanhá-lo pelo resto da vida. Desesperador, não?

Assim os vivos, sós e soluçantes,
nos amplexos da angústia palpitantes,
são vítimas das fúrias repugnantes,
que à noite e ao dia vêm a paz roubar;
mas para além da dor e do lamento,
de uma vida de tédio e de tormento,
há de coroar o doce esquecimento
tantos anos de inútil procurar. 
(H.P. Lovecraft)