Caçadores de Emoção e as pequenas aventuras da vida

(“Point Break”, 1991, Dir.: Kathryn Bigelow)

Não sou, nunca fui e não pretendo ser surfista. Nunca fui sequer rato de praia, desses que encaram dez horas de congestionamento em cada feriado para descer a serra. Minha ligação com o surf se resume a algumas pranchas de isopor usadas em férias de verão na infância e um álbum de figurinhas que eu completei, mas não consigo me lembrar nem por que diabos comecei a colecionar. Acho que eu gostava das paisagens. Quem não gosta? Independente das preferências na hora de viajar, todo mundo reconhece a beleza de uma praia, a força das ondas, a imponência do mar. E quase todo mundo deve ter tido aqueles 15 minutos de surfista, aquele tombo na prancha, aquele isopor ralando a barriga, aquele jacaré desajeitado até a margem.

Apesar de muitas vezes ter preguiça dos pormenores que envolvem o evento praia, como o congestionamento, o sol escaldante e a meleca do protetor solar, eu reconheço o fascínio exercido pelo mar. Lembro bem das primeiras viagens ao litoral sul de São Paulo. Só o ato de descer a serra já era um acontecimento. Chegar na cidade, ver o mar ainda de longe por entre as casas e ruas, sentir aquele cheiro e ouvir aquele som de ondas quebrando… tudo faz parte de uma experiência marcante. Existe algo muito forte ali. Poderoso. Transcendental.

Os surfistas, assim como os pescadores, mergulhadores e demais navegadores, sabem disso. Mas um filme com surfistas meditando e filosofando sobre a magia do oceano seria bem chato, então alguém teve a brilhante ideia de misturar assalto a banco a esta fórmula. Assim nasceu “Caçadores de Emoção”, surpreendentemente um dos melhores filmes de ação da década de 1990 ao lado de preciosidades como “O Exterminador do Futuro 2”, “Velocidade Máxima” e “A Outra Face”.

Foi lançado em uma época onde ter um filme em casa era muito difícil, a fita VHS oficial custava uma fortuna e ter dois videocassetes para fazer uma cópia era um luxo do qual poucos podiam desfrutar. Quem tinha, fazia cópias para vender. Foi assim, pedindo filmes piratas de presente de aniversário, que consegui cópias de “Caçadores de Emoção”, “Robin Hood — O Príncipe dos Ladrões” e “Máquina Mortífera 3” mais ou menos na mesma época. Tudo por baixo do pano, como se estivesse comprando drogas. Criminoso. Radical. O torrent de hoje em dia não chega nem perto desse sentimento de ilegalidade.

“Caçadores de Emoção” envelheceu bem e ganhou um certo status de cult nos últimos anos graças a três fatores: uma homenagem incrível na comédia inglesa “Chumbo Grosso” de 2007, era o filme preferido do policial gordinho; o reconhecimento do talento de Kathryn Bigelow, vencedora do Oscar por “Guerra ao Terror” em 2010; e o falecimento de Patrick Swayze em 2009. Rever o filme agora, rever Swayze no sucesso pós-”Ghost” e no auge de sua forma física correndo, surfando, saltando e lutando, é um golpe duro. Há um imenso contraste com as últimas lembranças do ator debilitado, vítima da doença que o matou. Assim, os discursos espiritualizados de seu personagem ganham outra importância.

Em 2015 foi lançado um desnecessário remake que ninguém viu. Além de ser o filme que lançou Keanu Reeves como herói de ação e inspirou toda a série “Velozes e Furiosos”, o “Caçadores de Emoção” original também tem uma grife extra: a produção executiva de James Cameron, então marido da diretora. Fique esperto, às vezes parece um filme do Jerry Bruckheimer, mas não é.

Os créditos iniciais escancaram o jogo: cenas belíssimas de surf se alternam com o nosso herói Johnny Utah (Keanu Reeves) treinando tiro na academia do FBI debaixo de uma chuva forte. Evidentemente, a água é o elemento mais importante do filme. A água purifica e traz energia, enquanto o surf é o equilíbrio do homem sobre a prancha, da prancha sobre a onda e do homem com a natureza. O filme vai desequilibrar esta harmonia levando crime, violência, tiros e mortes ao ambiente puro do surf. A civilização predatória vai corromper a tribo de surfistas e sua filosofia de vida alternativa. Você já viu isso antes, dos amish de “A Testemunha” aos na’vi de “Avatar”, passando por todos os faroestes sobre a cruel conquista do Oeste.

O agente especial Johnny Utah faz parte do mundo urbano e civilizado de Los Angeles. Recém-saído da academia, o novato de 25 anos tem zero experiência nas ruas. Keanu Reeves também era um novato da ação. Até pouco tempo era um adolescente bobalhão em “Bill & Ted” e agora empunhava uma arma. Alguém ofereceu Charlie Sheen e Johnny Depp para o papel, mas Kathryn Bigelow bateu o pé e insistiu em Reeves. Um cara que costuma atravessar os EUA de moto, que curte pilotar no meio do mato de farol apagado… esse cara tem o espírito kamikaze que o papel exige.

Utah é destacado para o departamento especializado em assalto a bancos de Los Angeles. Seu chefe Harp (John C. McGinley) é um daqueles carrascos clássicos do cinema. Ele lhe apresenta o departamento em um ótimo plano-sequência cheio de bullying de primeiro dia de aula. Por muito pouco, ele chama Utah de “jovem, bobo e presunçoso”. O novo parceiro de Utah a princípio não parece ser muito melhor que o chefe: Angelo Pappas (o lendário Gary Busey) é um veterano experiente, inconsequente e fanfarrão.

Pappas sofre com um caso não resolvido: em 3 anos, 27 bancos foram assaltados por bandidos usando máscaras de ex-presidentes dos EUA. Eles somem como fantasmas, quase não deixam pistas e nunca chegam até o cofre. Pappas tem uma teoria baseada na sazonalidade dos crimes, no bronzeado dos criminosos e em traços de cera recolhidos no local: eles são surfistas e roubam para financiar um verão sem fim. A saber: o verão sem fim é a utopia do surfista. A onda perfeita é o seu objetivo de vida e o mar é seu habitat.

Pappas é ridicularizado no departamento como o Fox Mulder no FBI, mas ganha o apoio e a amizade de Johnny Utah, que resolve se infiltrar no meio do surf, comprando uma prancha vagabunda. Keanu Reeves é ótimo como surfista chapado, mas é bem fraco quando tenta se levar a sério. A cena em que ele pressiona Pappas para que este lhe conte sua teoria é de doer. Tenho um amigo de infância que fazia uma imitação primorosa de Keanu Reeves: ele só olhava para o horizonte estático com a boca levemente aberta e um olhar de quase-espanto. A gente sempre ria muito dessa imitação, mas continuava vendo os filmes do cara até enjoar. Para quem passou uma década vendo filmes de ação com Stallone, Schwarzenegger, Chuck Norris e Van Damme, a atuação não é um problema.

Na primeira tentativa de Utah de pegar uma onda, ele toma um caldo violento e é salvo por uma gatinha de olhos azuis bem ao estilo little surfer girl dos Beach Boys. Seu nome é Tyler (Lori Petty) e ela está longe do clichê californiano da loira peituda, é morena de cabelo curto e corpo com poucas curvas. Também tem personalidade forte e é arredia, mas Utah se aproxima aplicando uma desculpa manjadíssima:

“Sempre fiz tudo que esperavam de mim. Agora quero fazer algo por mim mesmo.”

O surf sempre proporciona esse clichê da busca pela liberdade. Para Johnny funciona, e Tyler será sua professora de surf, seu passaporte para entrar na tribo. As aulas mostradas por meio da tradicional montagem até que são eficientes e Johnny Utah aprende alguma coisa. Os surfistas do filme são sempre mostrados contra o sol para não entregar os rostos dos dublês, dando trabalho para o diretor de fotografia Donald Peterman.

Logo Johnny vai conhecer Bodhi (Patrick Swayze), o arquétipo do velho surfista, do homem maduro que passou toda a juventude pegando onda, loiro, bronzeado e meio louco. Seu nome vem de Bodhisattva, um termo do budismo que significa, na tradução literal do sânscrito, “ser (sattva) de sabedoria (bodhi)”. Bodhi é o líder espiritual zen-budista de sua tribo, um sonhador em busca da onda perfeita, seu Santo Graal, que deverá acontecer no ano seguinte na Austrália durante uma tempestade muito aguardada pela comunidade surfista e que só acontece a cada 50 anos.

Nesse novo ambiente, Johnny Utah mais uma vez é tratado como o novato cabaço no primeiro dia de aula. Johnny está sempre tomando trote. Sua redenção vem em um jogo de futebol americano na praia, quando todos descobrem que ele foi um jogador amador de relativo sucesso que abandonou a carreira após uma lesão grave no joelho e acabou se formando em direito. Diante de tal destino trágico, Bodhi sentencia:

“A vida ainda não acabou, você está surfando agora!”

Por muito pouco, “Caçadores de Emoção” não se tornou um “Top Gun” dos anos 90. Utah & Pappas têm muito de Maverick & Goose, assim como têm muito de outra dupla de policiais de sucesso, Riggs & Murtaugh de “Máquina Mortífera”, uma obrigatoriedade em filmes policiais daqueles dias. Para atingir o Nível Top Gun de relevância pop, falta a “Caçadores” uma trilha sonora mais marcante. Bandas de hard rock farofa como Ratt, LA Guns e somente um clássico (de Jimi Hendrix) não são suficientes. Bruckheimer jamais cometeria esse deslize.

Utah & Pappas encontram uma tribo de neo-nazistas junkies fichados que não têm, segundo Bodhi, “o lado espiritual do surf”. Como curiosidade, entre eles está Anthony Kiedis, do Red Hot Chili Peppers. Utah arruma briga com eles e é salvo por Bodhi, reforçando os laços de amizade entre os dois. Se você é homem, existem algumas formas de você criar laços fortes de amizade com outro homem, como jogar bola e entrar em uma briga ao seu lado. Nem uma mulher, Tyler, é capaz de abalar uma amizade assim.

Utah é convidado para uma festa na casa de Bodhi, surfa com a turma no escuro, transa com a gatinha na praia e ainda ouve do anfitrião a tal história sobre a onda perfeita:

“É o oceano nos lembrando o quanto somos pequenos. Não é trágico morrer fazendo o que se ama.”

Esse mundo dos sonhos não dura muito. As férias não duram para sempre. O fim de semana passa muito rápido. Os surfistas são bacanas e sabem viver a vida, já os colegas de trabalho são os maiores xaropes. E na manhã seguinte lá está Johnny participando da batida à casa dos surfistas nazi e dando seu primeiro tiro em ação–ele perde a virgindade. De certa forma, ele vinha perdendo a virgindade por diversos momentos nas últimas cenas. Não deve ser à toa a cena de sexo imediatamente anterior. Johnny Utah está em processo de transformação. O garotinho que lhe vendeu a prancha vagabunda avisou: sua vida pode mudar. Seu processo de amadurecimento é concluído quando a ficha cai e ele descobre que seus amigos são os bandidos mascarados. O que resta da inocência de Utah é levado pela maré.

Na próxima sequência, sua máscara cai e todos descobrem que ele é policial, fazendo tocaia contra os amigos e mandando bala neles. Bodhi, por outro lado, não deixa que os amigos atirem em Utah. Ele ainda está de máscara, a máscara de Ronald Reagan, ironicamente o símbolo do conservadorismo, da caretice, da era dos yuppies.

Kathryn Bigelow dirige então uma perseguição incrível que passa por um posto de gasolina em chamas e continua com os dois protagonistas a pé, passando por becos, quintais, casas, cachorros raivosos, ruas movimentadas, tudo com a câmera correndo atrás, ao lado ou na frente deles. Uma grande sequência que termina com Utah arrebentando o joelho podre ao cair num córrego. Deitado com Bodhi na mira, ele não tem coragem de atirar no amigo. Para extravasar, atira pro alto até descarregar a arma, gritando com raiva de si mesmo. Que linda cena, que bela demonstração de bromance.

Nesse momento o filme passa de fase. Agora Utah e Bodhi conhecem suas verdadeiras identidades e sabem que estão em lados opostos da lei, mas fingem não saber. Eles vão pular de paraquedas, uma última catarse em grupo, o derradeiro suspiro da amizade. A cena do salto, mais uma vez, é linda. Utah e a gangue se unem em círculo na queda. O filme todo abusa dessa pegada de camaradagem, união, espírito de grupo. É um tal de high five pra cá, uhu é nóis pra lá, “adrenalina pura” e tudo mais. Mas nada supera a imagem dos caras unidos em queda livre. Ao mesmo tempo, a queda livre também demonstra que estão todos indo para o inferno.

A dura realidade está lá embaixo, com os pés no chão, quando Bodhi revela que Tyler foi sequestrada. Ele obriga Utah a participar do próximo assalto, sem máscara. Bodhi assume o papel de vilão e entrega um defeito de “Caçadores de Emoção” que dói admitir: seu personagem mais marcante não faz muito sentido. Um líder espiritual que rouba, sequestra e dá tiros. Que fica perdido entre transmitir uma mensagem e ser ameaçador. Peraí, Bodhi. Deveria haver um jeito mais fácil de financiar a boa vida. Vender pulseirinhas, escrever livros de auto-ajuda, dar aula de surf, plantar maconha em casa, sei lá. No roteiro de W. Peter Iliff, Bodhi fica devendo uma boa explicação a todos nós. A necessidade de “enfrentar o sistema” até justifica os roubos, mas não justifica a violência.

Os surfistas fogem e deixam Johnny para trás cheio de problemas com os colegas e o chefe. Irritado e na fúria para defender o amigo, Pappas derruba Harp com um soco — o segundo maior clichê de parceiro em filme policial. No grande momento dramático do filme, quando a dupla de tiras vai cercar a gangue no aeroporto, Pappas mata dois surfistas e acaba tomando um tiro. Pappas morre — esse sim, o maior clichê de parceiro em filme policial.

No ritmo alucinante de “Caçadores de Emoção”, não há tempo para o luto. Utah embarca com os vilões sobreviventes, Bodhi pula de paraquedas em um plano incrível que revela o próprio Patrick Swayze em ação e Utah vai atrás dele com uma arma na mão e sem paraquedas nas costas! É disso que eu tô falando, porra! Um filme de ação que se preze não deve ter compromisso com a coerência. Essa é a cena em que o pessoal bacana levanta na sala para aplaudir, enquanto os babacas comentam “nossa, meu, que mentira”. A sala de cinema é sempre o melhor lugar do mundo para identificar um babaca.

Utah agarra Bodhi em queda livre, eles brigam no ar e se estatelam no chão. O velho surfista se despede de Utah com um “vejo você na próxima vida”, um clima meio “Ghost”. A próxima vida vai se mostrar bem diferente, mesmo. Johnny está na Australia. Você nota que o tempo passou porque agora seu cabelo está comprido. Chove muito e existe um alerta de ciclone no local — note que não havia tsunami naquela época, o tsunami é uma invenção do século 21. Ele encontra Bodhi na beira do mar. Bodhi pergunta se ele ainda surfa. Utah responde: “todo dia”. Quer dizer, nessa próxima vida, Johnny já está em outra encarnação. Ele se tornou um surfista de verdade.

Mais uma vez eles lutam, Johnny prende o amigo com algemas, mas a prisão é pior que a morte pra Bodhi. Ele implora: “uma onda”. Utah entende a súplica e solta as algemas, libertando-o e condenando-o à morte ao mesmo tempo. Bodhi surfa para a morte na ultimate ride, a onda perfeita. Ele enfim se liberta, morre fazendo o que ama. Johnny Utah se liberta também: da obsessão de capturar o amigo bandido e do trabalho. Ele joga o distintivo no mar, um ato simbólico. Nos dois casos, o mar venceu.

Sem necessidade de se aprofundar muito na filosofia zen, “Caçadores de Emoção” é um filme sobre liberdade, amizade, esportes radicais, festas, garotas e tiros. São conceitos que atraem qualquer moleque que ainda acha que a vida é uma aventura. Eu tinha 14 anos quando o filme passou no cinema.

Desde então não me tornei surfista, nem sequer tenho coragem de pular de paraquedas. Porém, em 2016, fiz uma viagem de mochilão para o deserto do sal na Bolívia e Machu Picchu, no Peru, que podem ser consideradas aventuras bem "radicais" para um cidadão mimado pela cidade grande como eu. Tive a providencial ajuda de um guia com vasta experiência em mochilões, meu primo, e aprendi que os mochileiros são uma tribo com maneiras muito particulares de encarar o mundo, o que é muito legal. Eu fui o Johnny Utah ali.

Teve também aquela excursão para as cavernas de Apiaí, no interior de São Paulo, em 1993. Fui com a turma do colegial, guiado por um professor de física com pouco juízo na cabeça, mas a quem agradeço de coração até hoje. Entramos em cavernas com água até o pescoço, nos enfiamos em buracos estreitos, passamos ao lado de abismos, fizemos trilhas, escalamos cachoeiras, descemos as corredeiras de um rio e ficamos todos mais amigos do que já éramos naqueles poucos dias.

Infelizmente, no resto dos dias, a gente se acostuma a achar que encarar o trânsito de São Paulo todo dia já é aventura suficiente.

A cena final de “Caçadores de Emoção”, com Bodhi encarando a onda gigante e sucumbindo, não tem nada de heróica. Ele aparece de longe, mal consegue ficar de pé na prancha e logo é derrubado. Kathryn Bigelow não se importa em mostrar seu corpo, porque Bodhi agora faz parte do mar. Os mestres jedi, quando morrem, desaparecem e passam a fazer parte da Força.

A teoria da evolução da espécie diz que não viemos do pó, viemos do mar, então faz sentido voltar a ele no final. Eu acho isso bonito. Todo mundo ao morrer deveria ser cremado e ter as cinzas jogadas no oceano. Sem cemitérios caros, espaçosos e inúteis. O mar me parece um destino mais digno para a nossa ultimate ride.