Conta Comigo e as amizades perdidas

(“Stand By Me”, 1986, Dir.: Rob Reiner)

Você pode ver “Conta Comigo” na idade de seus personagens, mostrados em flashback entre os 12 e 13 anos, e considerá-lo uma aventura sobre uma turma de amigos em busca de um cadáver. E você pode vê-lo próximo da idade do seu narrador, um homem adulto recordando os amigos de uma infância distante. Já passei pelas duas experiências e cada uma tem o seu valor, só que a segunda é muito mais melancólica. Porque quando você é criança você acha que aqueles amigos vão durar para sempre, que a história do filme não vai acontecer com você. E ela acontece.

“Conta Comigo” foi baseado em um conto quase autobiográfico de Stephen King chamado “O Corpo”, do livro “Quatro Estações”, de onde também saíram “Um Sonho de Liberdade” e “O Aprendiz”. Rob Reiner o levou às telas porque se identificou com aquela trajetória do grupo de amigos amadurecendo no final dos anos 50. Seu amigo Richard Dreyfuss entrou no projeto com a mesma justificativa, interpretando o narrador que é o alter ego de Stephen King. Ou seja, todos eles entraram nessa pela nostalgia, então deve ser gratificante para todos os envolvidos que o filme seja capaz de marcar tanto um menino quanto um adulto décadas depois. É um ciclo que se fecha. Seja qual for a sua época, você é capaz de se identificar com tudo. Por isso me irrita muito quando alguém diz que “tal filme não é da minha época”. Todos são, se o filme for bom e se você estiver vivo.

O que de certa forma machuca ainda mais é o fato de eu ter visto “Conta Comigo” no cinema justamente com amigos cujo contato hoje se resume a uma conexão no Facebook. Amigos dos quais eu me distanciei sem nenhum motivo aparente, simplesmente porque é assim que as coisas acontecem. Amigos que eu fui perdendo pelo caminho. Ainda perco. Estamos todos perdendo, todo dia. Hoje temos a internet aí pra gente acompanhar o crescimento dos filhos dos nossos amigos de infância, ver o que eles andam fazendo da vida. Pode parecer pouco, enganador e distante, mas é melhor do que nada. Melhor do que aquela cena cruel no final de “Conta Comigo” em que Chris Chambers desaparece enquanto caminha para casa — ainda mais cruel depois da morte prematura de seu intérprete, River Phoenix.

Não quero citar os amigos que perdi ou os que faziam parte da minha vida naquela época porque fatalmente vou esquecer de alguém, mas quase todos giravam em torno de um mesmo ambiente: o clube, a AABB de Leme, onde passei a maior parte da minha infância. Meu pai sendo funcionário do Banco do Brasil, cresci ali com os filhos dos outros funcionários como uma grande família que se encontrava regularmente. Nunca fomos atrás de um cadáver como os meninos de “Conta Comigo”, mas tivemos nossas próprias aventuras, desbravando pequenas florestas, acampando no meio do mato e morrendo de medo do barulho do vento, atravessando a cidade de bicicleta.

Pode parecer um tema semelhante, mas “Conta Comigo” é diferente demais de “Os Goonies”, seu parente próximo. “Os Goonies” é aventura, Indiana Jones para crianças. “Conta Comigo” é “Anos Incríveis”. É crescer, amadurecer, enfrentar o medo. Seus personagens são mais densos, ainda que alguns se repitam — os gordinhos de ambos são bem parecidos, o valentão rival também, e ambos têm o Corey Feldman. “Os Goonies” era Spielberg com Cyndi Lauper na trilha. “Conta Comigo” era Stephen King com muitos clássicos 50’s e a música-título de Ben E. King, certamente uma das melhores canções de todos os tempos. John Lennon me apoia nesta opinião.

Recapitulando a turma de “Conta Comigo”: Wil Wheaton, hoje semi-famoso por suas participações em “The Big Bang Theory”, é o protagonista Gordie Lachance, um moleque inseguro rejeitado pelo pai e que sente a falta do irmão mais velho, morto recentemente (John Cusack). Gordie é o Stephen King moleque e, mesmo que essa história em particular não tenha elementos sobrenaturais e terror, a morte é um tema importante demais em “Conta Comigo”. É a partir de uma morte noticiada no jornal da cidade que o escritor adulto (Richard Dreyfuss) vai relembrar sua história em flashback, enquanto escreve um livro de memórias. Somente no final saberemos que o falecido em questão era Chris Chambers, justamente seu melhor amigo, interpretado por River Phoenix.

O mito mirim Corey Feldman é Teddy Duchamp, filho de um veterano de guerra meio louco, que idolatra o pai mesmo que apanhe muito dele. E Jerry O’Connell é Vern Tessio, o tradicional gordinho atrapalhado, o mais covarde e por isso a vítima dos maiores bullyings. Lá em Leme tinha uns dois ou três gordinhos com este perfil e o apelido de todos eles era “Banha”. Se Vern tivesse nascido em Leme, seu apelido seria Banha com certeza. É ele quem ouve o irmão mais velho comentando o local onde está o corpo de um menino desaparecido, Ray Brower. É ele que traz a informação para a casa de árvore onde a turma se reúne. E então eles resolvem ir atrás do cadáver para receber os créditos da descoberta.

Eles são movidos apenas pela curiosidade mórbida ou por algo mais? Ray Brower é um garoto da mesma idade dos quatro. Eles o conheciam e agora ele está morto. Eles também temem a morte e o futuro. Trata-se de uma jornada de auto-descoberta. Quando a turma invade um ferro-velho para cortar caminho, o narrador conta a história do cachorro que toma conta do local, Chopper. Ele é treinado para morder o saco do invasor. Quando o cão aparece e Gordie escapa pulando a cerca, o cachorro não se mostra tão monstruoso assim. O narrador comenta:

“Foi a primeira vez que notei a diferença entre mito e realidade.”

Quem conhece a obra de Stephen King sabe que isso é importante. Se tem alguém no mundo que sabe como criar mitos que metem medo, é ele.

Gordie se revela um pequeno King em uma sequência muito querida pelos fãs de “Conta Comigo” quando, sentados ao redor da fogueira, ele conta a história escatológica do Bola de Sebo, um moleque muito gordo que resolve se vingar da comunidade que o despreza vomitando geral em um concurso de comer tortas. O Bola de Sebo é uma versão infantil e light de “Carrie — A Estranha”, usando seus superpoderes gastronômicos contra a sociedade opressora.

Outra sequência de terror infantil, ou quase isso, é aquela em que os quatro amigos atravessam um pântano e saem com os corpos forrados de sanguessugas. Quando terminam de tirar os bichos vampirescos uns dos outros, Gordie nota algo estranho dentro da sua cueca. Ele tira a sanguessuga dali e desmaia depois. Tem algo perturbador na cena que faz você imaginar coisa ruim. Quando vi pela primeira vez, ainda moleque, fiquei imaginando se Gordie teria ficado estéril ou perdido um pedaço do saco no processo, algo assim. O filme não entra em detalhes, ficamos com o olhar solidário dos outros três amigos e com o fato de Gordie não querer mais falar do assunto.

Evidentemente não foi algo tão grave assim, mas é preciso lembrar daquela outra cena em que o narrador diz:

“Esses eram nossos assuntos quando ainda não falávamos de garotas.”

Os tais assuntos ao redor da fogueira giravam em torno do enigma “que bicho é o Pateta, afinal?”, a comida preferida e coisas do tipo. Em algum momento eles comentam que uma menina da escola já estava com peitinhos, mas é o máximo da sexualidade demonstrada no filme. Portanto, uma sanguessuga no saco é o equivalente, aqui, a uma doença venérea. Qualquer coisa que tira sangue dos genitais seria.

Os bate-papos antes de dormir ou nas caminhadas pelos trilhos do trem são os momentos mais reveladores de “Conta Comigo”, quando os personagens mostram quem são. Sabemos que Gordie se acha esquisito e queria o amor do pai, que Teddy herdou a insanidade da família e que Chris não queria ter a fama de moleque de rua que tem, que sonha com uma carreira profissional estável e outros privilégios que sua pose com cigarro numa mão e um revólver carregado na outra podem atrapalhar. Vern é o mais novo e ingênuo da turma. O moleque que leva apenas poucos centavos e um pente na aventura, pensando na foto que vai tirar depois de encontrar o corpo e virar herói. O estereótipo do gordinho covarde é reforçado na cena da ponte, em que um trem faz a turma correr em debandada enquanto Vern engatinha nos trilhos.

Aos poucos, a cada trecho percorrido e obstáculo superado, Rob Reiner cria uma clima de camaradagem com tanta perfeição que é impossível não se identificar. Estão lá as piadas internas, a zoeira impiedosa, os versinhos desbocados, a milenar arte de xingar a mãe do outro. E está lá o ombro amigo para quando um deles resolve desabafar e chorar. Já no final da epopeia, Gordie está sentado na beira dos trilhos e vê um cervo. Eles se olham por um segundo e o animal vai embora. O narrador diz que aquele momento ele nunca contou pra ninguém. Foi uma epifania, uma comunhão completa com a natureza, um amigo que mal chegou e já partiu. Trata-se de uma cena simples, mas que pode significar muito e marca uma nova etapa do filme, quando tudo fica mais sombrio. Logo em seguida, eles encontram o corpo de Ray Brower.

O amadurecimento total das crianças se dá ali, diante da morte. O conto de fadas acabou, o negócio agora é de verdade. Os valentões mais velhos, liderados pelo rebelde sem causa Kiefer Sutherland, chegam para tomar para si as glórias da descoberta e as duas gangues se enfrentam. Gordie aponta a arma para seu rival e de certa forma se vinga do desgraçado que roubou o boné dos Yankees que ele havia ganhado do irmão falecido. A prova do amadurecimento é que eles deixam o cadáver ali e voltam pra casa cabisbaixos, calados, diferentes. Eles se despedem, vão se encontrar novamente na escola, mas todos sabem que não será a mesma coisa.

O narrador então conta o destino de cada um. Vern se casou e teve filhos, Teddy tentou o exército mas sua orelha machucada pelo próprio pai e seus óculos não permitiram — ele chegou a ser preso e hoje vive de bicos pela cidade. Chris contrariou todas as expectativas e se formou em direito. Pacificador, morreu tentando apartar uma briga. Sua morte foi o gatilho que despertou o narrador lá no começo do filme. Cada morte de “Conta Comigo” desperta algo, como se o fim de um ciclo desse início a outro.

Quando Chris se despede de Gordie e some pelo caminho, também é uma espécie de morte. Estamos sempre lidando com pequenas mortes, ausências, saudades e pessoas que você não sabe se verá de novo. O narrador diz:

“Amigos vêm e vão como garçons em um restaurante.”

Você não tem controle sobre isso. Já aconteceu com você e vai acontecer de novo. Afastar-se de alguém não quer dizer necessariamente que você não goste mais dela. Significa apenas que seus caminhos, por algum motivo, pararam de se cruzar.

Na última cena do filme, o narrador está digitando as palavras finais do seu livro enquanto seus filhos, que agora têm a mesma idade de 12 ou 13 anos, o esperam para brincar no quintal. Ele termina assim, falando da morte de Chris:

“Embora eu não o tenha visto há mais de 10 anos, sei que vou sentir sua falta para sempre. Eu nunca mais tive amigos como aqueles que tive aos 12 anos. Jesus, alguém tem?”

Há uns anos, já com mais de 30, fui a uma festa na AABB bem parecida com aquelas que tínhamos regularmente quando eu era criança. Cheguei cedo, não tinha muita gente por lá, o pessoal estava arrumando as mesas ainda. A mãe de um amigo de infância veio até mim e falou: “Renato, espera aí que a molecada já está chegando”. Aquelas palavras fizeram passar todo um filme na minha cabeça, o meu “Conta Comigo” particular. De vez em quando ainda esbarro com alguns daqueles moleques por aí. É cada vez mais raro, mas acontece. A gente se abraça, eu vejo os filhos deles, imagino por onde eles andaram. Não é a mesma coisa, nunca vai voltar a ser, mas eu ainda fico genuinamente feliz de ver que eles estão bem. E sei que vou sentir falta dessa molecada para sempre.