E.T. e a importância da primeira sessão

(“E.T. — The Extra-Terrestrial”, 1982, Dir.: Steven Spielberg)

Eu tinha 5 anos em 1982. Tenho algumas lembranças dessa época. Lembro vagamente da Copa do Mundo e da tristeza geral quando a incrível seleção do Telê perdeu pra Itália. Tenho flashes de coisas boas e ruins que aconteceram na pré-escola — o nome da escola era Perereca, veja só você. Lembro bem da menina com quem eu dancei na festa junina, a Dani, e do perfume que ela usava. Lembro do Tio Zé, que dirigia a perua que levava todos nós, eu, a Dani e o resto, pra Perereca. Lembro do cheiro que tinha minha lancheira. Lembro de ter ido ao cinema ver alguma coisa dos Trapalhões ou da Turma da Mônica ou dos Muppets no Cine Alvorada de Leme, mas sem levar muito a sério, como se fosse uma TV grande passando desenho em uma sala escura.

Minha primeira lembrança de cinema, no sentido da arte cinematográfica levada a sério, impactante e grandiosa como deve ser, é da extinta sala do Shopping Ibirapuera, em São Paulo, onde vi a concorrida estreia de “E.T. — O Extraterrestre”. Havia muita fila: o filme era um fenômeno, a maior bilheteria de todos os tempos, capa da Veja (o que era bem significativo naquela época). Foi lançado em junho nos EUA, mas só chegou no Brasil em dezembro, tempo suficiente para todas as expectativas crescerem bastante. Viajei de Leme pra São Paulo com a minha família pra ver, provavelmente a caminho da praia, ou aproveitando alguma ida ao Playcenter. A fila durava horas. Lembro perfeitamente de ter dormido nela, reclamado, chorado. Para eu calar a boca, meus pais me compraram um bonequinho do E.T. que eu tenho até hoje. Minha maior relíquia cinematográfica, sem dúvida.

Quando o filme finalmente começou, foi como se a minha vida estivesse começando pra valer naquele momento. É possível dizer que cada fotograma de “E.T.” funciona como uma regressão, uma volta à infância, uma espécie de hipnose.

“E.T.” foi o campeão de bilheteria de sua época, batendo “Star Wars” e “Tubarão”, o filme que inventou os blockbusters. Os amigos Steven Spielberg e George Lucas pareciam disputar o topo ano a ano. “E.T.” foi um grande filme-evento quando saiu nos cinemas e anos mais tarde o seu lançamento em vídeo, pela saudosa CIC Vídeo (que lançava tudo da Paramount e da Universal) seria outro grande evento. Foi o primeiro VHS a vir com selo holográfico anti-pirataria, uau. Nas locadoras, a fila para locação era tão grande quanto aquela do Shopping Ibirapuera. Então fui rever “E.T.” na casa do meu vizinho, que tinha TV 29 polegadas e videocassete estéreo, junto com um monte de gente da vizinhança — outro grande evento. Mais tarde ele seria reprisado à exaustão na TV, principalmente na época do Natal. Passou tanto que, mesmo que não seja reprisado há anos na TV aberta, muita gente ainda acha que continua passando.

Em 2002, o filme foi relançado no cinema em comemoração aos seus 20 anos, com o tradicional “tapa” nos efeitos especiais. O personagem ganhou retoques digitais, sua nave ficou mais moderna e eu não quis ver. Fiquei com medo da decepção. Eu já tinha visto o E.T. original no cinema, não precisava correr esse risco. Ao contrário dos outros lançamentos, dessa vez não foi um grande evento. Aparentemente ninguém se importou. “E.T.” perdeu sua magia em tempos de “O Senhor dos Anéis” e o posto de maior bilheteria da história já era de “Titanic” desde 1997. Apesar de não ter visto o relançamento atualizado, isso tudo me frustrou. É sempre uma porcaria se sentir velho e ultrapassado. E com esse sentimento na cabeça, relutei em comprar o DVD com a tal reedição, mas minha irmã me presenteou com ele no meu aniversário de 31 anos. Aí tudo bem, depois dos 30, sentir-se velho e ultrapassado é uma constante do dia-a-dia. Você vai ao cinema ver o “Speed Racer” e tem que aguentar o Mach 5 sendo trocado por um Mach 6 tunado, esse tipo de coisa. Assim, rever “E.T.” não poderia trazer mais riscos a minha memória afetiva. Eu estava pronto para ele.

A primeira impressão de “E.T.” é que se trata de um filme de suspense e terror. Spielberg usa muita fumaça (vapor, neblina, gelo) para caprichar nessa atmosfera o filme todo. Numa mata escura, seres alienígenas chegam ao nosso planeta para explorar o ambiente. Você ainda não sabe se eles são pacíficos, principalmente se você tem 5 anos e está acostumado aos contos de fadas — como Guillermo Del Toro já nos ensinou, eles são todos histórias de horror. Durante muito tempo tive medo de florestas escuras (medo este agravado mais tarde por "Twin Peaks") e ficava observando todos aqueles matagais ao lado da Rodovia Anhanguera quando viajava de noite, pensando se havia ETs ali, perdidos de suas naves e procurando amigos terráqueos. Quando os primeiros humanos aparecem em cena, vemos apenas sua silhuetas e eles carregam lanternas. Um deles leva um chaveiro pendurado na calça, que faz barulho quando ele corre. Eles são ameaçadores e perseguem os ETs na floresta. Eles são adultos, e adultos são como a professora do Charlie Brown, não mostram o rosto e falam numa língua só deles. Então você se identifica com os pequenos ETs apavorados, porque Spielberg coloca a câmera na altura de suas cabeças, na altura de uma criança, e porque os adultos só aparecem pra estragar a festa, como sempre, esses malditos.

E.T. é uma criança curiosa e, fisionomicamente, não se parece com os alienígenas ufologicamente corretos de “Contatos Imediatos do 3º Grau”. Ele não tem cabeça oval e corpo esguio e olhos profundos e negros. O E.T. da roteirista Melissa Mathison, modelado por Carlo Rambaldi e manipulado por Dennis Muren tem cabeça chata, é gordinho e desengonçado. Ele não tem pernas, seus pés são horríveis e seus braços desproporcionais. Ele estica o pescoço, acende o dedo indicador e se comunica com seus semelhantes através do coração — uma metáfora que dispensa comentários. Sua nave não tem cara de disco voador, é redonda, parece algo saído de um circo. “E.T.”, o filme, se distancia dos conceitos de “Contatos Imediatos” para se tornar mais fábula e menos um objeto de estudo dos Fox Mulders lá fora. Não à toa, é “Peter Pan” que será evocado diversas vezes ao longo do filme. Lembre-se: até determinado ponto de sua carreira, Steven Spielberg era aquele cineasta que se recusava a crescer.

Fugindo da mata, E.T. encontra refúgio numa casa de subúrbio de uma cidadezinha norte-americana, cenário preferido de nove entre dez sucessos dos anos 80. O lar de Elliott (Henry Thomas, one hit wonder) também é bem típico. Seu pai fugiu com a amante para o México. Sua mãe, Mary (Dee Wallace) luta para criar os três filhos sozinha: além de Elliott, o mais velho Michael (Robert Macnaughton) e a pequena Gertie (Drew Barrymore). Devo mencionar que me apaixonei pela Drew Barrymore ao ver o filme pela primeira vez, de tal maneira que só a Simony do Balão Mágico conseguiria superar. O elenco infantil mais uma vez prova o imenso talento de Spielberg para dirigir crianças. Muitos anos mais tarde, Drew Barrymore sairia na Playboy e o cineasta lhe enviou de presente uma toalha, com um bilhete escrito “se cobre, menina!”.

A casa da família é uma bagunça e a ausência da figura paterna é evidente. Como em outros filmes emblemáticos dos anos 80 como “Labirinto” e “A História Sem Fim”, lares desfeitos geram crianças fantasiosas. Como em outros filmes emblemáticos dos anos 80 como “Os Goonies”, “Conta Comigo” e “Os Garotos Perdidos”, uma turma de amigos em bicicletas BMX ajuda bastante a superar as dificuldades. Mas pertencer a uma turma é difícil, e a princípio Elliott se vê rejeitado pelos amigos, igualzinho ao E.T. Já a ausência paterna deve ser Spielberg pensando como a família do personagem de Richard Dreyfuss se virou depois que o pai se mandou para uma viagem sem volta espaço afora, no final de “Contatos Imediatos”. O cineasta nunca superou esse arrependimento.

A primeira aparição do novo E.T. versão 2002, gritando no milharal, incomoda. Ele é mais malemolente, ágil, serelepe. Causa a mesma estranheza que o Yoda e o Jabba das versões reeditadas de “Star Wars”. Ora, Spielberg, E.T. ganhou espaço no imaginário popular como uma criatura dura, travada, de movimentos limitados, pra que mexer em time que está ganhando? Passado o incômodo inicial, porém, você se acostuma e deixa pra lá. Seus longos dedos buscando os docinhos que Elliott deixa na casa feito João & Maria não são digitais, eles são toscos e lentos, e por isso fascinantes. E quando E.T. aceita os docinhos, você finalmente percebe que ele é do bem e não pretende comer o cérebro do moleque. O primeiro ato da amizade, depois dos docinhos, é Elliott mostrando seus bonequinhos de “Star Wars”. Estão lá Greedo, Lando Calrissian e Boba Fett, entre outros. Mais um bate-bola de Spielberg com Lucas, duas crianças grandes manipulando a cultura pop nas nossas cabeças. Mais tarde, outras referências aparecem. Michael imita a voz de Yoda (“você tem poder absoluto!”) e um moleque fantasiado de Yoda aparece durante o Halloween, causando identificação imediata com E.T. Anos mais tarde, George Lucas retribuiria a gentileza acrescentando toda uma família de ETs no debate político que acontece em “A Ameaça Fantasma”. Quem é nerd se diverte muito mais, não é mesmo? No filme, Elliott é tão nerd que xinga um amigo de “zero carisma”. Zero carisma é a nota dos efeitos digitais da edição 2002 de “E.T.”.

Motivo de crítica de gente insensível que armazena uma manga podre no lugar do coração, as demonstrações de extrema sensibilidade de Spielberg transbordam ao longo do filme. Na cena mais tocante, Mary lê “Peter Pan” para Gertie, enquanto Elliott e E.T. escutam a história escondidos no armário. É quando Elliott corta o dedo e E.T. o cura usando seu próprio dedo iluminado. E.T. é a fada vinda do espaço, Spielberg é a criança que não quer crescer, e todos os garotos perdidos vão sair voando até o final do filme. Você acredita em fadas? Você acredita em extraterrestres? Como sempre se reflete nos seus filmes, especialmente nos fantásticos, Steven Spielberg teve uma infância solitária e queria, mais do que ninguém, ter um amigo vindo do espaço sideral pra lhe fazer companhia.

Logo E.T. e Elliott (perceba que até os nomes são parecidos) estão emocionalmente conectados. Primeiro, quando E.T. se assusta com um guarda-chuvas e faz Elliott derrubar a comida da geladeira. A conexão emocional entre ambos rende os momentos mais divertidos e bonitos do filme — principalmente na genial sequência das rãs dissecadas, quando Elliott, embriagado por uma cerveja que E.T. bebeu, reproduz cenas de um filme antigo e beija a menina mais bonita da escola (Erika Eleniak, que mais tarde também seria playmate e atriz do “Baywatch”). A conexão é o grande tema de “E.T.”. Conexão entre amigos. Conexão com o lar. Em “Poltergeist”, produzido por Spielberg, a garotinha levada para outra dimensão se comunicava com a família através da televisão. Em “E.T.”, o simpático alienígena aprende com a TV a usar o telefone para ligar para casa. E.T. phone home. Conexão entre pais e filhos. A mãe, perturbada com o divórcio, não ouve os filhos, não vê o E.T. debaixo de seu nariz. Por isso as crianças não contam nada a ela, porque ela é adulta, porque adultos não entendem, porque adultos não têm tempo. A mãe ainda mostra seu rosto, mas só porque é mãe. Professores, policiais e cientistas permanecem nas sombras ou com o enquadramento em suas cinturas. Estabelecidas as conexões, porém, surge o medo de perdê-las. Assim que as crianças descobrem que E.T. veio do espaço, através de seu malabarismo com os planetinhas e a ressurreição das flores, a trilha sonora muda de tom e surge o medo, porque é certo que alguém virá buscar o novo amigo mais cedo ou mais tarde.

O último lampejo de alegria antes da queda na trama é um daqueles momentos mágicos da arte cinematográfica, só comparado à cena do chuveiro de “Psicose”, ao final de “Casablanca” e a mais três ou quatro momentos que definem o que é o cinema: a cena do vôo da bicicleta na lua cheia. Virou até logo da produtora de Spielberg, a Amblin. A partir dali, é só tristeza. Elliott e E.T. adoecem, cientistas e militares da NASA invadem a casa e transformam tudo numa ficção científica B de invasão alienígena, trocando os papéis: o homem é o vilão e o E.T. é o mocinho. Até “Guerra dos Mundos”, os extraterrestres de Spielberg sempre seriam do bem. As luzes que inundam a casa e o trenzinho que funciona sozinho sem explicação trazem “Contatos Imediatos” de volta, só que com os homens buscando o alienígena e não o contrário. Com 1h23 de filme, finalmente o homem das chaves mostra a cara (Peter Coyote), assume uma postura paternal com relação a Elliott e confessa que desde os dez anos de idade queria encontrar um E.T. Ele tem inveja de Elliott. Elliott é a criança que Spielberg gostaria de ter sido, o homem da chave é o adulto que Spielberg se tornou. Mas quando o mundo adulto assume o controle, é para dar uma cara de autópsia alienígena ao filme. Malditos adultos. É quando E.T. entrega suas forças para salvar a vida de Elliott, e se você não chorou neste momento, você é uma pedra de gelo adulta e sem sentimentos. Se mate.

O que salva E.T. e lhe dá forças para voltar à vida? A possibilidade de voltar pra casa. A conexão com o lar. Seus amigos entram em contato, seu coração brilha e as flores renascem. Após uma boa sequência de fuga a la Indiana Jones, E.T. ressurge renascido perante os garotos incrédulos, com um manto branco e o coração aceso, fazendo pose messiânica. A polícia os persegue, e aqui entra a única alteração digital que faz sentido: as armas dos policiais foram trocadas por walkie-talkies. Realmente não há muito motivo pra perseguir crianças de bicicleta com armas, a menos que você more no Rio de Janeiro. Faz sentido, mas não precisava, que fique bem claro.

O vôo da turma em suas BMX no pôr-do-sol é a realização do sonho supremo da infância. O antes desacreditado Elliott agora faz parte da turma. E.T. também está voltando pra sua turma, a nave está esperando na mata. Temos a comovente cena da despedida, aquela pá de cal pra acabar com o resto de lenços que você ainda tem. “Seja boa”, E.T. diz pra Gertie. “Eu estarei bem aqui”, ele diz com o dedo na testa de Elliott, dando o recado de que jamais vai sair da memória dele e de todas as crianças que estão assistindo. Ele tinha razão. Ninguém esquece o E.T.

Com exceção dos novos efeitos destoantes, a revisão de “E.T.” não decepciona entre outros motivos pela qualidade estética e pela direção de arte atemporal. O que significa que ele não tem cara de anos 80, como muitos outros exemplares da década. Um filme que marcou época, que estabeleceu uma série de ícones eternos e espantosamente nunca teve uma sequência. Entre os produtos relacionados, indico a sensacional paródia do Robot Chicken que mostra o nosso querido personagem voltando pra casa e revelando-se um moleque “mentalmente limitado”, incapaz de pronunciar muitas palavras e que só acende um dedo, enquanto os colegas acendem todos. Do lado do reconhecimento, recentemente o cineasta Richard Attenborough (o milionário de “Jurassic Park”) disse que “E.T.” é muito melhor do que o seu “Gandhi”, filme que ganhou todos os Oscars importantes daquele ano e deixou Spielberg chupando o dedo na cerimônia, cheio de troféus técnicos. Desnecessário mencionar mais uma trilha sonora antológica de John Williams, que estava naquela fase de criar uma obra-prima por ano desde “Tubarão”, de 1975. O que seria daquele vôo na lua cheia sem sua música?

Hoje ninguém mais dá bola para o "E.T.". Ninguém nem se lembra que ele já foi a maior bilheteria da história. Ninguém cogita um remake (graças a Deus) ou uma sequência tardia. É muito bom que de vez em quando apareça um J.J. Abrams, um Shyamalan ou um Bryan Singer prestando homenagens para reacender a chama. “E.T.” foi o filme que me fez gostar de cinema, onde tudo começou pra mim. Se tivesse sido outro, talvez eu nem estivesse aqui hoje escrevendo sobre filmes e por isso eu realmente me preocupo com o primeiro filme que uma criança vai ver no cinema — pais, caprichem! Agradeço ao Spielberg e à minha família por toda essa magia e por me permitir começar com o pé direito. Uma sessão de cinema pode ecoar pelo resto de uma vida.