Era uma Vez no Oeste e os homens do passado

(“Once Upon a Time in the West/C’era una Volta il West”, 1968, Dir.: Sergio Leone)

Existem filmes bons, relevantes, clássicos. Filmes queridos da vida, obrigatórios, filmes especiais sob diferentes pontos de vista. Filmes que fazem você chorar porque são bonitos ou tristes, porque te lembram alguém, porque a música é linda, porque aquele enquadramento específico acaba com você, porque aquele movimento de câmera causa arrepios. Porque aquela surpresa final do roteiro fica na sua cabeça por meses. Porque você se identifica com os personagens de alguma forma. Existem filmes de importância histórica, que marcam época e são até capazes de mudar o mundo. Filmes que ensinam lições importantes sobre força e caráter ou simplesmente aliviam suas angústias internas com uma bem executada e merecida trama de vingança. Filmes que colocam a maldade, a insanidade e o desespero sob perspectiva e conseguem dar algum sentido ao mundo… E existe “Era uma Vez no Oeste”. Um favorito por motivos que vão além da sua incontestável qualidade artística, passam por uma questão familiar e terminam naquele tema tão fascinante, angustiante e traumatizante que é a morte.

A primeira vez foi ainda criança, quando programei o videocassete para gravar uma transmissão da madrugada graças às indicações dos guias de cinema da Nova Cultural (do Rubens Ewald Filho) e do caderno Ilustrada da Folha (do Inácio Araújo). Se estava no top 10 de seu respectivo gênero no guia, eu tinha que ver. Se tinha carinha feliz na avaliação da Ilustrada, eu tinha que ver. Porém, mais do que a indicação dos críticos renomados, vi principalmente porque meu pai, grande admirador de um bom bangue-bangue, indicou. "Os Brutos Também Amam" é o seu favorito, mas posso dizer que "Era uma Vez no Oeste" é o NOSSO filme.

Pais e filhos vivem sob o mesmo teto mas nem sempre conversam o suficiente, seja por falta de tempo, de interesse, de intimidade ou simplesmente porque às vezes as pessoas são fechadas assim mesmo e demonstram carinho de outras maneiras que não as verbais, ensinam com exemplos sem precisar chamar pra conversar. É preciso encontrar pontos de convergência, e eu descobri no cinema, na música e no futebol alguns canais de comunicação inesgotáveis com o meu pai. Inclusive, queria ter um filho só pra poder repassar esse legado, esse DNA adiante. Imagine o orgulho de ver seu filho se tornando uma pessoa honesta, torcendo pro mesmo time que você e curtindo "Era uma Vez no Oeste". Acho que é pra isso que as pessoas se reproduzem.

Em 2007, eu e meu pai fomos ver o Ennio Morricone, autor da trilha de "Era uma Vez no Oeste", no Teatro Municipal do Rio. Foi num festival de música de cinema que quase passou batido, pouca gente fora do ramo cinematográfico ficou sabendo, mas conseguimos os ingressos sem muitos problemas. Alguns anos depois, o maestro voltou ao Brasil com mais pompa e os ingressos custavam muito mais do que um punhado de dólares. Até hoje não conheço muito bem a cidade maravilhosa, mas tenho as melhores memórias ali da Cinelândia, da aura imponente do teatro, do clima de entrega do Oscar que tomou conta daquela noite. Entre todas as composições sublimes do nosso maestro favorito, como "Os Intocáveis", "A Missão" e "Cinema Paradiso", o tema de “Era uma Vez no Oeste” se destacou. Lembro que o Papa vinha ao Brasil na mesma época e eu não dei a menor importância, porque Deus já havia falado comigo naquela noite. Por isso chorei quando aquele senhorzinho enfim ganhou o Oscar em 2016, pela trilha de "Os Oito Odiados", corrigindo uma injustiça histórica da Academia. O que ele costuma fazer não é só trilha sonora, da mesma forma que "Era uma Vez no Oeste" não é só um filme.

As histórias sobre a criação dessa trilha são lindas. Ela foi composta com base no roteiro de Sergio Leone e Sergio Donati e serviu tanto de inspiração para a atuação do elenco — dizem que era comum os câmeras trabalharem com lágrimas nos olhos durante as filmagens — quanto para o planejamento das cenas, que Leone coreografava de acordo com as músicas. Para o tema mais marcante de todos, “The Man With the Harmonica”, Morricone diz que se inspirou nos últimos suspiros de um homem. “Era uma Vez no Oeste” tem esse caráter de réquiem, que o diretor classificou como “a dança da morte”. Existe essa relação meio sobrenatural entre a música e a imagem no filme. O resultado é um faroeste que é quase uma ópera. Se o título remete à fábula, é porque Leone se propôs a recontar a história dos EUA do seu ponto de vista e realizar o western definitivo, perfeito, para encerrar uma era em sua carreira mostrando o fim de uma era na história norte-americana. Não deixa de ser irônico que a tarefa tenha sido realizada por um cineasta italiano, em mais uma demonstração de como os imigrantes europeus construíram a América.

Eu já gostava das sessões da tarde com aqueles pastelões da dupla Terence Hill e Bud Spencer, então o chamado western spaghetti não era uma novidade pra mim. Mas passar das aventuras de Trinity para “Era uma Vez no Oeste” foi um salto de maturidade. Foi como passar anos vendo os Trapalhões e de repente descobrir o Monty Python. E foi um salto também para Leone, que vinha de sua bem-sucedida Trilogia dos Dólares: “Por um Punhado de Dólares”, “Por uns Dólares a Mais”, “Três Homens em Conflito”, todos com Clint Eastwood como o pistoleiro sem nome que salvava o dia. Eastwood não quis o papel principal em “Oeste” e sua agenda de estrela em ascensão não permitiu nem a participação na abertura, ao lado dos outros homens em conflito Lee Van Cleef e Eli Wallach, como queria Leone. “Oeste” então deu origem a uma nova trilogia sobre a América, acompanhada por mais um western spaghetti, “Quando Explode a Vingança”, e uma obra-prima sobre a máfia, “Era uma Vez na América”.

Na comparação com outro clássico amado e idolatrado, “Três Homens em Conflito”, eu fico com “Oeste” não só pela questão afetiva, mas porque no conjunto da obra ele me parece mais completo nas questões da conquista do oeste, da origem dos EUA, dos conflitos políticos e pessoais. É um western levado a sério, que ainda tem a ousadia de colocar uma personagem feminina como protagonista no meio de todos aqueles cowboys feios, sujos e malvados. Um filme de menino, um bangue-bangue com mocinhos e bandidos cheio de elementos clássicos do gênero, com história criada por um trio poderoso do cinema italiano: Dario Argento, Bernardo Bertolucci e Sergio Leone. Mas apesar de toda essa testosterona, tudo gira ao redor da forte, valente e determinada Jill, vivida pela musa Claudia Cardinale. Que mulher.

“Era uma Vez no Oeste” começa com um prólogo maravilhoso. Diz a lenda que são os mais longos créditos da história do cinema, 10 minutos até aparecer o nome do diretor Sergio Leone na tela. Três pistoleiros chegam a uma estação de trem, esperando alguém desembarcar. Quase nenhum diálogo, muitos efeitos sonoros: a porta rangendo, o giz na lousa, a biruta, o telégrafo, um estalar de dedos, uma mosca, uma goteira que insiste em pingar no chapeu de um dos pistoleiros. Dois parceiros de Leone ajudam a estabelecer o clima tenso e os enquadramentos épicos do prólogo: o editor Nino Baragli e o diretor de fotografia Tonino Delli Colli. A espera traz uma sensação de angústia, de abandono. Os pistoleiros arrumam o que fazer. O da goteira bebe a água do chapeu. O da mosca prende o inseto no cano do revólver e tem prazer de ouvi-la sofrendo ali dentro. Eles são bandidos cruéis. O trem finalmente chega. Eles não encontram quem estavam esperando e resolvem partir. Mas quando o trem se vai, o som de uma gaita cortando a alma ecoa na estação.

Harmonica (Charles Bronson) está do outro lado dos trilhos parado, cabeça baixa e gaita na boca. Ele levanta a cabeça em um daqueles primeiríssimos planos que são a marca registrada de Leone. Vemos a sujeira em cada linha de expressão do seu rosto. Quem ele queria encontrar não está presente, o tal do Frank.

“Trouxeram um cavalo pra mim?”
"Parece que falta um cavalo.”
“Trouxeram dois a mais.”

O homem da gaita então derruba os três e todo aquele prólogo vira poeira para apresentar o primeiro personagem importante do filme.

Não tão longe dali, um pai e um filho estão caçando faisões. Uma família feliz prepara uma festa de recepção no rancho de Água Doce. O filho mais velho deve buscar alguém na estação, mas ele está atrasado. O pai, Brett McBain (Frank Wolff), está ansioso e promete um futuro melhor para a filha, mas sente que algo está errado. Leone mais uma vez brinca com o som, alternando grilos, insetos e revoada de faisões com o silêncio absoluto que precede os tiros. Os McBain são massacrados e só o filho mais novo sobrevive para ver a família morta e cinco pistoleiros saindo do meio do mato. O líder do bando é Frank, Henry Fonda, até então exemplo de bom moço em Hollywood, desta vez um vilão extremamente cruel a ponto de matar uma criança só porque ela ouviu seu nome. Frank sabe, ou deveria saber, que crianças traumatizadas podem se tornar adultos vingativos.

O som do tiro se mistura ao apito de um trem chegando a Flagstone para apresentar a terceira personagem, Jill (Claudia Cardinale), que desembarca sem ninguém para recepcioná-la. Sem maiores explicações, você entende que Jill vinha para assumir seu papel como Senhora McBain, que seu sonho foi frustrado pela ação do vilão Frank, que está sendo caçado por Harmonica. Que beleza de roteiro e de apresentação de personagens.

Enquanto ela caminha pela estação, o filme nos apresenta o seu contexto histórico mais claramente: com ela desembarcam índios escravos, trabalhadores, cavalos, sinais de que um novo mundo começa a se formar ali. Morricone nos apresenta o tema principal do filme, mais solene e menos trágico que os mostrados até então, enquanto Jill atravessa a estação e entra na cidade com a câmera subindo junto com a música ao revelar Flagstone. No caminho até Água Doce, Jill passa por Monument Valley, o mais clássico dos cenários dos faroestes, um capricho de Leone para homenagear John Ford e outros grandes do gênero. Ao longo do filme, outros ícones do western dão as caras: por exemplo, em determinado momento é citado o famoso trem para Yuma. Já outros clichês são desconstruídos: por exemplo, o xerife de Flagstone não só não é o mocinho como não vale um dólar furado.

Jill para em um entreposto sujo no meio do caminho, onde o quarto personagem será apresentado. Após ouvirem uma grande agitação e um tiroteio do lado de fora, Cheyenne (Jason Robards) entra em grande estilo, ainda algemado. Harmonica também está por ali, tocando sua música de morte. Entre sombras, olhares desconfiados e buracos de bala, os dois estabelecem uma relação. Eles se reconhecem como semelhantes, se respeitam.

Jill tem uma boa conversa com o barman. Ele diz que gosta da vida no interior e que não daria certo na cidade grande, “cheia de homens rápidos e mulheres perdidas”. Pobre barman, nem desconfia que os homens rápidos e as mulheres perdidas estão chegando a sua cidadezinha junto com o progresso.

Em Água Doce, Jill é recebida com um velório. Recém-casada com o falecido McBain, sua esperança de uma vida nova durou pouco. A ex-prostituta agora é uma viúva solitária e um alvo fácil. Cheyenne vai até ela para esclarecer que não matou sua família, já que Frank está tentando incriminá-lo. E principalmente para limpar sua honra, já que não costuma matar crianças. A vivida Jill custa a acreditar, acha que ele está ali para estuprá-la. O velho oeste nunca foi um bom lugar para mulheres. Ainda mais para Jill, vinda da cidade grande, incapaz de acender o fogo para fazer um simples café. Cheyenne logo percebe que ela era uma prostituta, “porque me lembra minha mãe, a melhor mulher que já viveu”. Não dá pra não se apaixonar por esses personagens. Mais tarde Harmonica também vai abordar a moça e conquistar sua confiança. Jill, Cheyenne e Harmonica formam uma espécie de triângulo amoroso nunca consumado, mas Cheyenne esclarece que eles não são os homens certos para ela.

“Homens assim têm algo por dentro. Algo a ver com a morte”.

Apesar de toda a maldade já apresentada, o verdadeiro vilão da trama ainda é outro. Aquele cujos planos interferem na vida de todos os demais: o barão da ferrovia Morton (Gabriele Ferzetti), que contratou Frank para remover obstáculos como McBain do caminho da estrada de ferro, porque ninguém pode parar o progresso da civilização. Morton é o imperialista, o explorador, o burguês capitalista mais sujo que os cowboys. E ele também é aleijado, vítima de tuberculose óssea, vive de muletas sem sair do seu luxuoso vagão. Ou seja, ele vive na máquina, faz parte dela, depende da tecnologia, o que o torna frágil apesar de poderoso, um contraste com a brutalidade crua do oeste. Ele é a cidade grande avançando sobre o interior. Seu objetivo é chegar de trem ao Pacífico e ver o mar, com o qual ele sonha todo dia.

Como homem de negócios, Morton vive em conflito com Frank, o homem da ação. O primeiro defende que o dinheiro é capaz de vencer qualquer batalha, o segundo prefere usar um revólver. O primeiro é o futuro, o segundo é o passado — dos EUA, do cinema, do mundo. O duelo entre os dois é ideológico, mas no final das contas um depende do outro para sobreviver. A viúva McBain é o presente, o obstáculo que os dois devem superar. Isso porque o finado McBain, empreendedor de visão, deixou de herança muita madeira para a viúva erguer uma estação de trem em Água Doce, esperar a chegada da ferrovia e fazer do lugar uma cidade. “Era uma Vez no Oeste” também é um filme de especulação imobiliária, afinal.

Em vários momentos o filme apresenta flashbacks nebulosos de um homem caminhando no deserto, seu principal mistério, relacionado ao interesse de Harmonica por Frank. Afinal, o que o pistoleiro sem nome quer com ele? Harmonica é um fantasma que veio prestar contas com o passado de pecados de Frank. Atormentado, Frank precisa entendê-lo antes de matá-lo, o que adia o duelo entre ambos até que tudo esteja devidamente resolvido. Você sabe que uma hora eles vão ter que se encarar, mas o filme todo diz "ainda não". Harmonica chega a salvar Frank de seus capangas traidores, comprados por Morton, para poder ele mesmo enfrentá-lo no final. A interpretação de Henry Fonda, encurralado e perseguido por seus próprios demônios, tentando entender quem é Harmonica e por que ele o está ajudando naquele momento é um negócio fora de série e transforma a cena em muito mais do que um tiroteio na cidade.

Morton encontra seu destino bem longe do mar. Em um banho de sangue entre mocinhos de roupas claras e bandidos de roupas escuras (como curiosidade, o cineasta John Landis é um dos cadáveres ali), Morton rasteja do lado de fora do vagão, indo de encontro a uma pequena poça d’água suja no meio do deserto. No velho oeste, como Cormac McCarthy nos ensinou, os velhos e fracos não têm vez.

Frank descobre que nunca será como Morton, um homem de negócios. Ele diz ser apenas um homem. Harmonica se identifica com ele. São dois homens de uma raça em extinção, pioneiros, das antigas. Não há mais lugar para eles ali, a era dos cowboys está acabando e os personagens de Leone sabem disso. Frank sabe que só vai descobrir a verdade sobre Harmonica quando estiver à beira da morte e nada mais importa para ele. Ele quer se livrar dos seus fantasmas. Os dois então partem para o duelo final.

A cena do duelo é a melhor representação da tal "dança da morte" de Sergio Leone. A música “The Man With the Harmonica” mais uma vez toma conta da cena enquanto Harmonica, de branco, acompanha com o olhar a movimentação de Frank, de preto. Tudo coreografado como um verdadeiro balé. Os duelos são os maiores clichês dos faroestes, o clímax perfeito, quando o bem e o mal se enfrentam, medem forças e o mais rápido no gatilho vence. Muito melhor quando os dois personagens são tão bem construídos como em “Era uma Vez no Oeste”, porque sabemos que tem algo mais em jogo ali, um mistério do passado, o fim de uma era, um novo futuro começando. Tudo vai se resolver e nada mais vai ser como antes. Ou seja, o melhor clímax que o cinema pode proporcionar.

Mas ainda não é hora de disparar o gatilho. Os olhos torturados de Charles Bronson disparam o flashback revelador: um Frank mais jovem se aproxima no deserto, tira uma gaita do bolso e a coloca na boca de um moleque que está sofrendo, o jovem Harmonica. Ele carrega nos ombros seu irmão mais velho, que está com uma corda no pescoço. Se Harmonica enfraquecer e cair de joelhos, seu irmão morre enforcado. Frank assiste àquilo com satisfação, contemplando sua obra sádica. O jovem Harmonica não aguenta e cai, matando seu irmão.

Voltamos para o presente, os gatilhos são disparados, Frank gira sobre os calcanhares e cai, baleado. Conforme previsto, todos são afetados: Jill se assusta com o tiro, Cheyenne se corta com a navalha enquanto faz a barba. Harmonica pega sua gaita e coloca na boca do agonizante Frank, que finalmente compreende tudo e aceita sua morte. “Era uma Vez no Oeste” é um filme sobre vingança, afinal. Das melhores que o cinema já proporcionou.

No epílogo, Harmonica e Cheyenne devem partir. A cidade que está nascendo ali não é lugar para eles, homens brutos do campo. Paz, felicidade, amor e finais felizes também não combinam com eles. Cheyenne, ferido, não aguenta muito tempo, fica pelo caminho e morre.

E aí eu me lembro dos meus avôs, dois homens de antigamente, do interior, cada um, do seu modo particular, um velho cowboy para mim. Meu avô paterno foi tropeiro, jockey, amava cavalos. Meu avô materno tinha como hobby a caça, guardava várias armas em casa e fazia arminhas de madeira pros netos brincarem de mocinho e bandido. O tempo deles passou. Eles já partiram há anos e talvez não haja mais lugar para homens como eles nos dias de hoje. E aí eu olho ao meu redor e vejo o espaço que ocupo na história de uma maneira diferente. Cada um tem o seu tempo. Um dia meu tempo também vai passar. Está passando. Um dia, ele acaba.

O trem chega, e sempre que ele chega traz esperança: primeiro foi Harmonica, depois Jill, agora novos trabalhadores enquanto a câmera de Leone sobe mais uma vez, revelando a nova cidade. Jill segue o conselho final de Cheyenne e vai levar água para os trabalhadores, elevar a moral da tropa, sendo recebida com festa. É o nascimento de uma nação que tem Jill como figura materna. E que maneira mais genial de dizer ao mundo que a América é filha de uma puta.

“Era uma Vez no Oeste” influenciou muita gente, redefiniu um gênero e nos últimos anos ganhou um saudável status de cult. Quentin Tarantino e Robert Rodriguez não se cansam de homenagear a obra sempre que possível –as homenagens mais evidentes em "Kill Bill — Vol. 2" e "Era uma Vez no México", respectivamente. Robert Zemeckis praticamente recriou algumas de suas cenas em "De Volta Para o Futuro — Parte III". Além do valor cinematográfico, a sua música também marcou a cultura pop. Entre outras peripécias, “The Man With the Harmonica” ganhou uma versão eletrônica do Apollo 440 (presente na trilha da “Família Soprano”) e uma versão ao vivo do Muse (que usa a música como introdução para o seu número de faroeste espacial, “Knights of Cydonia”), além de abrir uma recente turnê do Bruce Springsteen, que também regravou o tema principal do filme em uma coletânea de covers de Morricone. Pode parecer bobeira, mas esses reconhecimentos me deixam feliz. Quando as pessoas que você admira gostam das mesmas coisas que você, o mundo faz mais sentido. Na loja de quadrinhos Forbidden Planet de Nova York tem um quadro do filme desenhado pelo Paul Pope, custa uma pequena fortuna, mas ainda sonho com ele na minha sala. Um dia eu chego lá.

Mais do que qualquer clássico do Bob Dylan ou do próprio Springsteen, foi “Era uma Vez no Oeste” que me chamou a atenção das gaitas. Eu, que nunca toquei instrumento nenhum na vida, ganhei de presente das minhas irmãs uma gaita que nunca aprendi a tocar direito, mas que guardo com carinho para um dia, quem sabe, aprender pelo menos aquelas notas mágicas do Morricone. Aquela melodia que vem das sombras, de longe, de alguma outra dimensão, para despertar fantasmas, encerrar ciclos e homenagear os homens do passado. Uma melodia que tem algo a ver com a morte.