Instinto Selvagem e o filme de sacanagem

("Basic Instinct", 1992, Dir.: Paul Verhoeven)

Qual foi o primeiro par de peitos que você viu em um filme? Outro dia surgiu esta linda questão numa mesa de bar. E a primeira nudez? A primeira mulher pelada? Eu fiquei entre a Nastassja Kinski em "A Marca da Pantera" e a Kelly LeBrock em "A Dama de Vermelho". Peito é mais difícil acertar, porque é mais comum e bem menos censurado. Chutei Jennifer Jason Leigh e Phoebe Cates em "Picardias Estudantis" ou alguma atriz bem menos memorável num daqueles "Porky's" da vida. Cena de sexo? Talvez "A Lagoa Azul" com a Brooke Shields ou seu genérico que passava no SBT, "Paraíso Azul", de novo com a Phoebe Cates. Já parei para avaliar se todas as mulheres pelas quais me interessei nas décadas seguintes não tinham algo daquelas pioneiras, nem que seja apenas um olhar, um pequeno gesto capaz de virar a chavinha secreta que aciona todo o complexo mecanismo que faz com que eu me apaixone. É bem provável que sim.

É um exercício interessante, já que o cinema tem uma função social de educação sexual e outra função recreativa de fornecer material para a famosa punheta. Aquelas aulas de sexo na escola, por exemplo, me davam vontade de desistir de tudo, virar um monge e nunca correr o risco de pegar aquelas doenças horríveis. O instinto de reprodução básico, puro, selvagem, foi encarcerado ainda na época de Adão e Eva para evitar que as pessoas andassem por aí trepando aleatoriamente na rua. Então a humanidade criou a revista de mulher pelada e o filme de sacanagem para compensar. Nem estou falando do estágio avançado de pornografia com todas aquelas subdivisões de fetiches específicos, estou naquele nível pré-adolescente no qual um clipe da Madonna já era erótico o suficiente.

Dos filmes mais quentes do mainstream hollywoodiano, "9 1/2 Semanas de Amor" marcou época, estabeleceu a Kim Basinger como musa da época e ficou anos em cartaz no Brasil, mas eu não tinha idade para ver. Quando finalmente consegui assistir, achei sem graça. Tanto alarde para tão pouca sacanagem. Qualquer filme da Sexta Sexy ou do Cine Privé na Band tinha aquilo lá, soft porn vagabundo, um catálogo de lingerie afetado e datado.

Você já deve ter notado que os homens da minha geração estão se tornando os tiozões do pavê que juntam a molecada nas festas de fim de ano para contar como era difícil arrumar pornografia naqueles dias. Na minha época não era essa moleza que é hoje, essa infinidade de vídeos pornôs disponíveis na internet é revoltante, etc. Na minha época a gente tinha que atravessar a cidade de bicicleta para comprar edições encalhadas da Playboy na única banca que vendia para menores. Meus amigos mais bandidos desbravavam bairros distantes para descobrir pequenas locadoras que não exigiam muita burocracia para abrir uma ficha, alugavam meia dúzia de filmes pornôs no nome de algum moleque da cidade que todos odiavam e nunca mais apareciam na região. Um crime que eu defenderia na seguinte maneira perante um juiz: vossa excelência, aquela meia dúzia de fitas desempenhou um papel educativo que escola nenhuma seria capaz de cumprir.

Nas poucas vezes em que tive coragem de eu mesmo alugar um filme pornô, passei vergonha. Em uma delas, o balconista que já me conhecia há anos perguntou: você tem certeza? Sim, eu tenho certeza, enfia a fita logo na sacolinha que eu quero sumir daqui. Por que as pessoas dificultam tanto o que já é tão complicado? Um belo dia um amigo meu foi comprar camisinha para ver como aquilo funcionava, porque ninguém distribuía camisinha de graça para a molecada com medo da gente, sei lá, sair enfiando o pau um no outro. Então ele foi até o supermercado e pegou a camisinha e um pacote de bolacha junto para disfarçar. Nunca é fácil, mas em uma cidade pequena como Leme é ainda pior. O cara da locadora te conhece desde criança, num dia você está lá alugando "Fievel" e no outro um filme da Savannah. A moça da farmácia estuda com a sua irmã. Os caixas do supermercado sabem o que a sua mãe costuma comprar toda semana. O dono do cinema é amigo do seu pai. É mais fácil comprar droga do que putaria.

"Instinto Selvagem" foi um fenômeno que marcou época muitos anos antes dos Lars Von Trier da vida convencerem atores renomados a meterem em nome da arte. É verdade que não há sexo explícito nele, o filme é até bem light e careta perto do que o Paul Verhoeven aprontava na Holanda, mas era bem pesado para os padrões hollywoodianos e definiu novos patamares para o sexo no cinemão em 1992, misturando nudez, mistério e violência de uma maneira que seria muito copiada e jamais igualada nos anos seguintes. E trazia como bônus a nova sex symbol do planeta, a nova musa da garotada, a nova deusa suprema Sharon Stone, a única capaz de encerrar o reinado de Kim Basinger.

Com censura 18 anos, entrar na sessão de "Instinto Selvagem" até que foi bem fácil, mas no alto de nossos 15 anos de vida nós fizemos o possível para dificultar a missão. Lá fomos eu e o Vitão, meu fiel parceiro de cinema, para a porta do Cine Alvorada, como fazíamos toda semana. Não tivemos coragem de entrar de cara, ficamos observando a movimentação, vendo quem entrava e quem era barrado. Lá pelas tantas uma menina da nossa classe e portanto da nossa idade entrou de boa, sem ser incomodada, sem ninguém perguntar "tem certeza?". É muito verdade que as meninas amadurecem antes e são bem mais corajosas do que os meninos. Fomos no vácuo e entramos também.

O filme começa com uma foda bem dada com direito a espelho no teto, homem amarrado na cama e um clímax mortal: a loira cujo rosto jamais vemos estraçalha o sujeito com um picador de gelo. Apesar da morte remeter a "Psicose", é outro Hitchcock que será resgatado diversas vezes ao longo do filme: "Um Corpo Que Cai", filme que Verhoeven diz ter visto, revisto, analisado e estudado. O jogo de falsas aparências, as perseguições silenciosas pelas ladeiras de São Francisco, os figurinos, os penteados e até a trilha de Jerry Goldsmith são completamente "Um Corpo Que Cai". Mas eu não sabia disso na época, eu só queria ver a Sharon Stone pelada.

O roteiro de “Instinto Selvagem” é de Joe Eszterhas, um grande picareta que tentou reproduzir a fórmula do sucesso várias vezes, mas só conseguiu chamar a atenção novamente quando retomou a parceria com Verhoeven no incompreendido, subestimado e maravilhoso “Showgirls”. Assim como sua sequência tardia (2006) que eu fiz questão de não ver, “Instinto Selvagem” seria só um soft porn safado ou um suspense que apela pro manjadíssimo recurso do quem matou?” se não fosse por Paul Verhoeven. Sem ele, “RoboCop” seria só um policial robô caçando bandidos, “Tropas Estelares” seria só uma invasão alien com insetos e “Showgirls” um exploitation com strippers. Verhoeven tem essa habilidade de pegar roteiros banais e criar obras transgressoras para a eternidade. “Instinto Selvagem” é o seu Hitchcock anos 90. A diferença é que toda a parte sexual que Hitchcock reprimia, Verhoeven escancara. É o tal do instinto.

O voyeurismo do mestre do suspense e de seu principal discípulo, Brian De Palma, também se manifesta a todo instante, seja quando o detetive Nick Curran (Michael Douglas) observa a suspeita Catherine Tramell (Sharon Stone) se trocando, seja quando a amante dela, Roxy (Leilani Sarelle) a observa com outros homens, mas principalmente na clássica sequência do interrogatório, quando todos os tiras machões vestidos em seus ternos cinzas sem graça voltam a ser moleques virgens e punheteiros diante da cruzada de pernas mais emblemática do cinema. Em um único plano, que talvez seja o frame mais pausado da história dos videocassetes, Verhoeven mostra que nós, homens, nunca crescemos. Nossa maturidade para na quinta série. Aquele suor na testa de Wayne Knight nos dá a certeza de que sempre teremos vergonha de alugar um filme pornô e de entrar na sessão censurada. Uma mulher incrível sempre vai dominar a nossa mente, manipular os nossos sentidos e fazer o que quiser com a gente.

Catherine Tramell é incrível porque, além de linda, é inteligente, esperta, dirige igual uma doida, gosta de viver perigosamente, fala abertamente sobre sexo, drogas, morte e está sempre no controle da situação, por cima, sua posição sexual favorita. Ela é psicóloga e escritora de romances sobre crimes que já aconteceram ou que ainda vão acontecer, nunca se sabe ao certo. Ela saía com o roqueiro aposentado Johnny Boz (Bill Cable), o sujeito assassinado exatamente como ela descreveu em seu último livro, sugestivamente batizado de "Love Hurts". Será ela a culpada? O livro é prova e álibi ao mesmo tempo. Ninguém seria tão estúpido a ponto de cometer um crime que descreveu em um livro.

Catherine é incrível porque vai ao interrogatório sem advogado e sem calcinha, já que "não tem nada a esconder". Ela é incrível porque fode com a mente do detetive encarregado do caso, Nick Curran, usando traumas e pontos fracos como as mulheres cruéis sabem fazer tão bem. E ainda usa tudo isso em um novo livro que está escrevendo, soltando frases ambíguas sem nunca deixar claro o que é real e o que é ficção em sua vida, exatamente como a Madeleine de "Um Corpo Que Cai". Ela é a femme fatale dos filmes noir, a loira platinada dos filmes do Hitchcock, ela é má, ela é brilhante.

"Meu livro está quase no fim. Meu detetive está quase morto."

Outro momento que deixa claro o papelzinho ridículo que nós homens protagonizamos é quando, enfim, Nick transa com Catherine. "A foda do século", segundo ele. "Um bom começo", segundo ela, em uma evidente tentativa de baixar a bola do sujeito.

Tem aquela piada do cara que encontra a Sharon Stone em uma ilha deserta, transa com ela e depois pede para que ela finja ser outra pessoa, só para que ele possa contar a alguém que comeu a Sharon Stone. A moral da história é óbvia: contar que comeu a Sharon Stone é tão gratificante quanto o ato em si. Então Nick precisa contar ao seu único amigo, o parceiro gordinho Gus (George Dzundza), que comeu a Sharon Stone. Gus retruca com um discurso moralista, supostamente preocupado com a integridade física do amigo, porque correr atrás daquela mulher é um perigo e tudo mais, mas todos sabemos que ele só está é com inveja.

Nick Curran tem um trauma recente, matou inocentes por engano e recebeu o apelido carinhoso de "o atirador" dos colegas e do pessoal da corregedoria que vive no seu pé. Sua mulher se matou. Ele tem problemas com Jack Daniels e cocaína. Ele á autodestrutivo. Ele eventualmente pega a terapeuta que deveria tratá-lo, a Dra. Beth Garner (Jeanne Tripplehorn), o que é errado em todos os níveis psicológicos imagináveis. O detetive Curran está amaldiçoado e se reconhece em Catherine. Ele usa os argumentos dela em seu próprio interrogatório e sabe que ela seria capaz de enganar o detector de mentiras, porque ele próprio já o fez. Depois de conhecê-la e sentir os primeiros efeitos de seu veneno, um Nick cheio de raiva praticamente estupra Beth. A pobre Beth, versão mais perturbada da Midge de "Um Corpo Que Cai", é o que os jovens de hoje chamariam de recalcada. Ela não goza, ela não curte a vida, ela é o total oposto de sua rival loira.

Mais adiante vamos descobrir que Beth e Catherine estudaram juntas na universidade e tiveram um breve relacionamento mal resolvido. No ato final, as duas serão suspeitas de vários crimes e Nick, trouxa, vai ficar perdido entre elas: a loira supostamente má e a ruiva supostamente boa.

Como em "Um Corpo Que Cai", a trama de "Instinto Selvagem" caminha em círculos, se repete, e Gus é mais uma vítima a morrer da maneira que estava descrita em um livro de Catherine, em uma sequência que remete a "Vestida para Matar". Só que dessa vez o livro ainda nem havia sido lançado, o que reduz o número de suspeitos. Beth aparece na cena do crime com as mãos nos bolsos do sobretudo, Nick atira. No bolso dela, apenas o chaveiro do Bart Simpson que levava a chave de casa. Suas últimas palavras antes de morrer são: “eu te amo”. Teria ele matado uma inocente de novo?

O clímax do filme é mais uma trepada de Catherine e Nick. Verhoeven, danado, escurece a cena e dá o assunto por encerrado. No tempo de uma respiração ele volta para mostrar o picador de gelo embaixo da cama. A trilha sonora explode. O assunto não foi encerrado. O assunto vai para casa com você. A hipótese mais provável é que Catherine era a assassina o tempo todo, incriminou Beth e não matou Nick porque, nas palavras dela:

“Eu perco todo mundo, não quero te perder.”

Porém, não conte com isso. Ter uma certeza seria fácil demais. Paul Verhoeven não faz filmes para você ter certezas e o recente "Elle" está aí para provar isso mais uma vez. Psicologia e manipulação, sexo e morte, prazer e culpa… "Instinto Selvagem" nunca foi só um filme de sacanagem. Talvez a maior de todas as sacanagens seja a forma como Verhoeven manipula nossa percepção e, principalmente, nossas tentações. O erotismo do filme está em todas as tentações que ele apresenta. Catherine tenta Nick com sexo, bebidas, drogas e até com a verdade. Quando ele sugere a ela uma vida comum, com família e filhos, ela não quer, porque não é tentador. Alguém tem que morrer nessa história para ela ficar legal, para esse livro vender. Matar alguém também é uma tentação. Então ela faz Nick matar sua própria terapeuta e amante para assumir seu lugar.

A máscara de Catherine só cai de verdade quando ela está lidando com a morte de Roxy, algo que não estava nos seus planos ou nos seus livros. Sem o controle da situação, ela se mostra frágil, pede colo, pede sexo. Sexo é vida, também pode ser morte, alguns dizem que é o mais próximo que podemos chegar de Deus. Infelizmente não somos evoluídos o suficiente para encarar algo tão bom sem ter que lidar com traumas, culpas, receios, da vergonha de comprar camisinha no supermercado àquela última brochada que você ainda está tentando explicar. O fundamental é que o sexo mostra quem nós somos de verdade. Nem precisa ser a foda do século, pode ser só aquela punhetinha descompromissada para a sex symbol do momento.