O Exorcista e a superação do medo

(“The Exorcist”, 1973, Dir.: William Friedkin)

O mestre Yoda nos ensinou que o medo é o caminho para o lado negro. A gente passa a vida toda enfrentando o medo e ele sempre volta em novos formatos, deixa traumas. Não lembro de tanta coisa da minha pré-escola, mas lembro bem do pavor que me provocou uma ilustração do Lobo Mau em um daqueles livrinhos infantis que têm por função ensinar o medo para as crianças. Porque o medo é necessário na vida. Superá-lo, principalmente. Tem gente com medo de escuro, palhaços, borboletas, assombrações, baratas, de botar o pé pra fora de casa. Eu, depois de superar o tal Lobo Mau, tive medo do demônio.

A culpa foi de uma revista Manchete que eu folheava inocentemente em algum momento da infância. Lá estava uma foto do filme “O Exorcista”: uma menina deitada na cama cheia de feridas pelo corpo e um padre desesperado, impotente ao seu lado. Até aí, beleza, era só um filme. Mas o texto da legenda entregava: o filme foi baseado em fatos reais.

Aquilo me perturbou a ponto de eu passar muito tempo indo dormir no quarto das minhas irmãs. Toda noite eu arrastava meu colchão pra lá. Acho que nunca havia contado pra ninguém o real motivo do meu pavor noturno, mas aí vai, eu admito, a culpa é da maldita legenda da foto da revista Manchete. O pai de um amigo meu tinha o livro de William Peter Blatty na estante do escritório, a capa era um diabo voador, daquele típico clichê com chifre e tridente, e só de passar o olho nela eu já tinha calafrios. O pôster do filme, sombrio, misterioso, com aquele homem de chapeu encarando do lado de fora da casa um quarto onde algo sinistro está acontecendo, também.

Não sei em que ordem cronológica da vida isso ocorreu, mas uma noite passou “O Bebê de Rosemary” na TV e minha família estava assistindo. Eu fui proibido, mas entrei na sala justamente na cena em que aparecem os olhos do demônio prestes a possuir a Mia Farrow. Medo. Muito medo. Nunca tive problema com monstros, mas as assombrações de filmes como “Poltergeist” e “Não Adormeça, Por Favor” (um telefilme desconhecido exibido no Supercine, sobre uma garotinha morta que voltava para assombrar a própria família durante a noite) e principalmente o capeta me tiravam o sono por serem ameaças… reais? Na minha cabeça, eram ao menos possíveis.

Deve ter sido a criação católica, todos aqueles anos de catecismo, o medo e a culpa fazem parte do combo. Se passam muito tempo colocando na sua cabeça que Deus existe, então o demônio também existe. E se a revista Manchete disse que possessões demoníacas existem, quem sou eu pra discordar?

Não ajudou o fato de eu ter sofrido convulsões noturnas durante um período da infância, acordando no dia seguinte com o corpo todo dolorido sem saber o que aconteceu e vendo o estrago que fiz ao morder a mão da minha mãe durante o ataque. Apesar de eu acreditar nos médicos e nos remédios que tomei por um tempo, sempre fica aquela pulga atrás da orelha.

Isso tudo, veja você, sem ter assistido ao filme. Eu poderia passar o resto da vida sem ver “O Exorcista”, mas que diabos, toda a crítica dizia ser o melhor filme de terror já feito, e meu amor pelo cinema sempre foi maior do que qualquer medo. Então encarei o fatídico filme numa tarde ensolarada, com as janelas abertas e mais pessoas em casa, e sobrevivi ao desafio. A partir daí, nunca mais tive tabus com filmes. Aguento qualquer porcaria sanguinolenta, gore explícito, terror psicológico, qualquer Lars Von Trier e Gaspar Noé querendo me chocar na base da apelação. Danem-se todos eles. Foi William Friedkin que mostrou toda a verdade sobre o medo em 1973.

O filme começa com uma breve demonstração do exterior da casa onde se desenrolarão os eventos trágicos, mas a câmera se afasta como quem diz “ainda não” e vai até o norte do Iraque, onde acontece uma escavação arqueológica. Ali o Padre Merrin (Max Von Sydow) desenterra uma pequena cabeça de demônio. Pela sua reação de espanto, você já sabe que aquilo é um mau sinal. Friedkin e o roteirista Blatty (autor do livro e vencedor do Oscar de roteiro adaptado) colocam pequenos sinais no caminho do padre: um homem sem um olho, cabeças de estátuas decapitadas, espelhos quebrados, velhinhas sinistras, cães raivosos, a estátua do diabo de corpo inteiro. Então você e o padre já sabem: a natureza bisbilhoteira do ser humano mais uma vez mexeu com o que não devia. Despertamos o mal.

Os tais sinais ecoam de volta aos EUA, mais precisamente na capital Washington. A mãe divorciada Chris MacNeil (Ellen Burstyn), uma atriz de sucesso, ouve barulhos no sótão acima do quarto da filha Regan (Linda Blair) e conclui que são ratos. Regan é uma garotinha fofa, brincalhona e doce, mas também mexe onde não devia — ela conversa com um tal Capitão Howdy através de uma tábua Ouija. Parece brincadeira de criança, mas nós sabemos que não é. Assim como na cena em que Regan vai dormir com a mãe alegando que sua cama está tremendo, nós sabemos que não se trata de sua fértil imaginação infantil.

Em outro canto da cidade, um padre encontra uma imagem de Nossa Senhora vandalizada em sua igreja. Regan, sentindo os primeiros sintomas de que algo não está normal, vai fazer exames e durante um eletrocardiograma enxerga um rosto demoníaco em um piscar de olhos. A partir daí, a menina meiga dá lugar a uma pré-adolescente nervosinha e hiperativa, que fala palavrões dos mais cabeludos. Fosse hoje, botariam a culpa no rock, nos videogames ou na internet.

Na primeira meia hora de filme, “O Exorcista” empilha elementos sobrenaturais e dá pistas que misturam fatos com superstição. E é assim que Friedkin e Blatty vão construindo o medo. Paralelamente, passamos a conhecer o padre psiquiatra Damien Karras (Jason Miller). Infeliz e questionando sua fé, ele sente culpa por viver longe da mãe doente que mora em Nova York. Mais ainda quando ela surta, vai parar em um hospício e morre. O padre Damien (nome que batizaria o próprio filho do capeta em “A Profecia” alguns anos depois) parece um Johnny Cash atormentado, treinando boxe, tomando cerveja e vendo filmes para aliviar a tensão do dia a dia.

O que era preparação de terreno, criação de clima e construção de personagem até então torna-se a história de fato na festa que Chris dá em sua casa para a alta sociedade da qual faz parte. Para a alegria do espírito transgressor de Friedkin, a primeira demonstração de possessão de Regan acontece justamente no meio de uma festa da elite intelectual de Washington. Estão todos felizes cantando quando a garotinha aparece de camisola, diz ao astronauta convidado, prestes a embarcar em uma missão, que ele vai morrer lá em cima e, sem a menor cerimônia, faz xixi no tapete. Que fim de festa! Na noite que segue, Chris finalmente vê que a cama tremendo não é exagero da menina.

Ela começa a receber atenção médica — é tudo um distúrbio do cérebro, eles dizem — e a atuação visceral da menina Linda Blair junto com a maquiagem de feridas na cara e lábios rachados começa a se destacar. Depois de ver a criança se debater, revirar os olhos, gritar “fuck me” e os penosos exames não apontarem nada de anormal, os médicos resolvem indicar um psiquiatra para o caso.

Friedkin não mostra a cena do amigo cineasta Burke (Jack MacGowran) morrendo tragicamente enquanto cuidava de Regan — MacGowran morreu de verdade durante as filmagens devido a complicações causadas por uma gripe, uma das tais “maldições” atribuídas ao filme. Mas nem precisava mostrar. A cena de Regan descendo as escadas de costas feito uma aranha com a boca cheia de sangue, acrescentada na versão do diretor relançada em 2000, é mais apavorante do que qualquer personagem secundário quebrando o pescoço. O horror subliminar de flashes quase imperceptíveis e o horror visual escancarado convivem numa boa em “O Exorcista”.

Um investigador da polícia, William Kinderman (Lee J. Cobb), entra em cena para esclarecer a morte bizarra de Burke. Ele questiona o Padre Merrin sobre bruxaria (“no ponto de vista da bruxaria, não do inquisidor”), unindo os pontos entre a morte e a profanação na igreja. Enquanto isso, depois de Regan agarrar as bolas do psiquiatra e fazer a junta médica desistir de qualquer diagnóstico, pela primeira vez é sugerido à inconsolável mãe que ela pense na hipótese de um exorcismo. São os próprios médicos que apontam a alternativa, o que é bastante raro no milenar debate entre ciência e religião. A explicação do médico é que o exorcismo é um placebo que funciona, atuando no lado psicológico.

Acontece que Chris não é religiosa. Graças ao bom Deus, “O Exorcista” não cai no discurso carola de culpar a falta de fé da mãe pelo ocorrido com a filha. Como bom representante do cinema norte-americano dos anos 70, ele pretende levantar o debate e, sempre que possível, dar uns tapas na cara e uns chutes no traseiro. Os tapas mais doloridos na Igreja Católica vêm quando Chris flagra a filha se masturbando com um crucifixo. “Let Jesus fuck you”, grita o demônio. Quando a mãe tenta fazê-la parar, Regan agarra seus cabelos e a empurra para baixo gritando “me chupe”. Como isso passou pela censura, pelo moralismo e pela Igreja, eu não sei. Mas não venha me dizer que o cinema norte-americano é careta depois dessa.

Diante desse ápice de insanidade, finalmente Chris vai até o Padre Karras. No primeiro encontro de Karras com Regan possuída, a menina já está completamente dilacerada, bem amarrada à cama e a decoração de seu quarto de menina deu lugar a cordas e acolchoados. O diabo tenta intimidar Karras com seus truques sujos, apela pra mãe falecida e pro clássico vômito verde (suco de abacate) que pega todo mundo de surpresa. “O Exorcista” não é um filme de sustos fáceis, o vômito é a exceção que comprova a regra.

Karras começa seus estudos sobre a possessão e o caso chega até o velho arqueólogo Padre Merrin que, agora sabemos, tem experiência em exorcismos. Friedkin não trata seus padres protagonistas como super-heróis, mas como figuras renegadas pela sociedade e com crises existenciais. Daí o impacto da cena que ilustra o pôster do filme, em que Merrin chega até a casa numa noite fria e cheia de névoa, prestes a cumprir mais uma vez a sua missão e enfrentar o seu destino. Um senhor de idade, pálido, já debilitado, contra o demônio. É uma briga injusta.

No ritual do exorcismo conduzido por Merrin, a cama levita, temos mais suco de abacate, vemos novamente o rosto demoníaco que aparece de relance durante o filme todo. Os vapores que saem das respirações e das luzes azuladas do quarto, junto com as sombras dos personagens, criam uma atmosfera clássica que virou referência, assim como o giro de pescoço 360 graus e a levitação da menina.

Durante uma pausa no exorcismo, Merrin volta sozinho para o quarto e Karras o encontra morto, com o demônio rindo ao seu lado. Tomado de raiva, Merrin chama o diabo para a briga e pede para trocar de lugar com Regan. Quando a transferência é feita, ele se joga pela janela e se mata, sob o olhar de Chris e do detetive Kinderman, que finalmente compreende a complexidade do caso.

Kinderman tem um papel importante como observador da trama. Ele tem uma figura de detetive noir, é cinéfilo de carteirinha e procura fazer amizade tanto com o padre Merrin quanto com o padre Dyer (interpretado pelo Reverendo William O’Malley, que também foi consultor do filme). Parece que Kinderman está em busca de uma compreensão maior das coisas, ele é o verdadeiro representante do público na tela. Porque do lado de cá, eu já me peguei pensando no lado da pessoa possuída — como lidar com o trauma?; no lado da mãe — como não ter medo de que aconteça de novo?; no lado de todos que entraram em contato com o diabo — não seria melhor seguir o exemplo de Karras e acabar logo com isso? Como se convive com a lembrança do mal? Já pensei até no lado da pessoa que vai comprar a casa depois sem saber que o diabo esteve naquele quarto. Prefira imóveis em construção, é o que eu sempre digo. E certifique-se de que ele não foi construído sobre um antigo cemitério indígena.

Essas questões ainda me atormentam. Hoje tenho 33 anos, a idade de Cristo, e ainda dá vontade de rezar um Pai Nosso depois de ver o filme, só pra garantir. Creio que essa sensação de filme-tabu nunca vai passar completamente. Mas eu tento.

No relançamento com cenas adicionais em 2000, fiz questão de ir ao cinema sozinho. Shopping Paulista, poltronas apertadas, uma menina de longos cabelos ondulados sentou-se na minha frente e vi o filme todo com meus joelhos esmagando aquela cabeleira toda. Foi engraçado e meio nojento ao mesmo tempo, e ajudou a tirar o peso do filme — não sei quem o Bono do U2 estava citando quando disse que a melhor maneira de enfrentar o demônio é rir dele.

Não vi a parte II nem a prequel, vi a terceira parte muito ruim e outros filmes tentando abordar o mesmo tema — “O Exorcismo de Emily Rose” sendo bastante perturbador também — mas nada que chegue perto de “O Exorcista”. Duvido que alguém chegará. A humanidade está cada vez mais bunda mole. Dizem que mulheres abortaram em salas que exibiam o filme nos anos 70. Hoje tem gente que morre do coração em cenas bestas de automutilação. Nunca mais alguém vai se masturbar com um crucifixo na tela grande. Nunca aproveitaremos a recente onda do 3D como ela deveria ser aproveitada: com um vômito verde voando na plateia. E com raras excessões como "O Bebê de Rosemary", "A Profecia" e "Coração Satânico", as melhores histórias de demônios continuam sendo as da Bíblia. Antigo Testamento, ali o bicho pega.

Quando li “Como a Geração Sexo, Drogas e Rock’n’Roll Salvou Hollywood” de Peter Biskind, livro que me deixou obcecado pelo cinema americano dos anos 70 durante alguns meses, fiquei espantado ao ver “O Exorcista” tratado como um simples… filme. Não era uma maldição, uma grande obra milimetricamente criada para semear o medo… era só o trabalho de alguém, um filme feito pra ganhar dinheiro, como qualquer outro. Finalmente, depois de velho, desmistifiquei a obra.

Sempre gostei de todos os gêneros cinematográficos, mas o terror foi o último a me conquistar, porque um moleque pode ver “Cidadão Kane” sem entender nada, mas com o terror é diferente. O terror é coisa séria, exige preparação. Mesmo com efeitos especiais datados, cenas clássicas que se tornaram clichês e foram satirizadas até desgastar, o terror tem que ser respeitado. “O Exorcista”, maior clássico do gênero, principalmente. Você pode superar um medo infantil, parar de se importar com o Bicho Papão, mas você vai ganhar novos motivos para se preocupar: o medo da violência, de perder alguém querido, de envelhecer sozinho e frustrado, de morrer. Cada um tem seus demônios particulares para superar nessa vida. O cinema às vezes te ajuda nesse processo.