O Feitiço de Áquila e os encontros impossíveis

("Ladyhawke", 1985, Dir.: Richard Donner)

Até uma certa fase da vida, minha especialidade eram os amores não-correspondidos. Aquela velha mania de gostar de quem não gosta de você e achar que essa é a maior desgraça que pode acontecer com o seu pobre coraçãozinho. Não é. Inclusive trata-se de uma posição bastante confortável, você pode sentir pena de si mesmo e culpar o mundo por não te amar como deveria. A culpa nunca é sua.

Com o tempo você aprende a gostar mais de você mesmo e, consequentemente, de quem gosta de você. E daí você descobre que há mais mistérios entre você e o outro do que sonhava sua vã filosofia, que o problema dos relacionamentos humanos é muito mais complexo, que existem inúmeros elementos nesse mundo que vão fazer de tudo para mantê-lo separado de quem você ama, mesmo que esse amor seja correspondido. Não é só gostar ou não gostar.

"O Feitiço de Áquila" é um filme único sobre o tão batido tema dos desencontros do amor. O curioso caso de um conceito tão forte que é capaz de ofuscar todo o resto dos seus atributos. Acredito que muita gente nem tenha visto, ou nem se lembre de muita coisa, mas ninguém esquece a ideia principal: o casal separado por uma maldição. De dia, ele é humano e ela é um falcão. De noite, ela é humana e ele é um lobo. Assim, eles vivem juntos mas nunca se encontram de fato. Uma alegoria para o pior tipo de separação possível, aquela que não é concretizada e portanto jamais será superada. A ideia foi de Edward Khmara, sujeito criativo que também colaborou com outra pérola dos anos 80 sobre as relações humanas, "Inimigo Meu".

É muito fácil conhecer pessoas. Com a ajuda da internet, das redes sociais e dos aplicativos, mais ainda. Já virou clichê: você pode ter centenas de conhecidos no Facebook e continuar se sentindo sozinho. Isso porque conhecer é fácil, mas encontrar alguém é muito mais raro. Alguém que não apenas goste de você, mas que também sinta atração por você, que frequente o seu universo, que compartilhe os mesmos valores e objetivos, que compreenda seus defeitos, que ria das suas piadas, que te respeite e te admire, que esteja disposto a gastar seu precioso tempo com você, adaptar-se a você, acostumar-se com a sua presença e construir uma história ao seu lado. Lendo essa lista parece ser quase impossível.

Tendo perdido tanto tempo correndo atrás de meninas que simplesmente não estavam interessadas, eu valorizo muito quando esse encontro acontece porque, rapaz, a vida é curta e existe um limite para a quantidade de encontros que você vai ter. Por valorizar, entenda não desistir fácil, suportar muitas barbaridades e ir até onde der feito um Rocky Balboa que não cansa de apanhar. Talvez eu valorize mais do que deveria, porque fico desgraçado da cabeça quando algum obstáculo no caminho faz com que eu desista ou, o mais comum, que desistam de mim. É mais do que tristeza, é uma revolta mesmo. Porque o encontro é valioso demais para ser jogado no lixo. Porque quando isso acontece, parece que a gente perdeu a batalha para o Bispo de Áquila, esse cupido ao contrário, essa força maligna que está por toda parte trabalhando para separar casais. Esse grande filho da puta.

Vamos relembrar a trama: o Bispo de Áquila (John Wood), como todos os mortais do planeta, amava Isabeau D’Anjou (Michelle Pfeiffer), sua pele de porcelana, sua voz angelical, sua beleza de comercial de sabonete. Porém, ela amava o capitão da guarda, Etienne Navarre (Rutger Hauer). Enlouquecido pelo ciúme, o Bispo que também é meio bruxo fez um pacto com o capeta e amaldiçoou os amantes. Se ele não poderia tê-la, ninguém mais poderia. O Bispo maldito representa uma das piores características da Igreja: aquela necessidade de patrulhar e proibir a intimidade alheia. Então ele divide o casal em dia e noite, luz e sombra, ser humano e animal, o racional e o irracional. No modo humano, eles nem sequer se lembram do que aconteceu quando estavam no modo animal. Navarre comenta que lobos e falcões costumam formar casais entre si. Casais que duram a vida a toda. Nem isso o Bispo lhes permitiu.

Sempre juntos. Eternamente separados.

Eternamente parece exagero quando descobrimos que eles estão amaldiçoados há apenas 2 anos, mas vamos relevar. Em 2 anos muita coisa pode acontecer. No tempo relativo dos relacionamentos, 2 anos podem mesmo parecer uma eternidade.

Com um conceito tão forte e universal, o feitiço do Bispo de Áquila se aplica com muita facilidade no nosso cotidiano. O exemplo mais óbvio: ela trabalha de dia, ele trabalha à noite, eles só se encontram no jantar. Ele estuda de manhã, ela estuda de tarde, eles só se encontram no almoço, no pátio do colégio. Ele faz uma playlist linda no Spotify, mas ela só usa Deezer. Ele está desesperado por um match no Tinder, mas ela só usa o Happn. Ele tem quase certeza de que daria certo com ela, mas sempre que ele está solteiro ela está enrolada com alguém e vice-versa. Aquela pessoa que você acompanha pela internet há anos mas nunca conseguiu encontrar pessoalmente por inúmeros motivos. Pessoas em diferentes fases da vida. Quem está junto e nunca se vê. Quem vive junto sem se encontrar. Caminhos que nunca se cruzam ou que se cruzam muito rapidamente, como naquela belíssima cena ao nascer do sol em que Navarre e Isabeau se enxergam durante um milésimo de segundo mas não conseguem nem se tocar. Tão longe e tão perto ao mesmo tempo.

No filme, o casal conta com a ajuda de Phillipe Gaston, o Rato (Matthew Broderick, um ano antes de se tornar Ferris Bueller para sempre). Apesar do apelido, ele não se transforma em animais como seus amigos, mas ele também tem seus problemas com o Bispo, já que acabou de fugir das masmorras de Áquila. O carismático Rato é um ladrão de galinhas que serve de alívio cômico, fala pelos cotovelos, faz falsas promessas a Deus, mente sempre que pode mas tem um bom coração e se torna escudeiro de Navarre. O misterioso cavaleiro salva sua vida várias vezes e precisa da sua ajuda para voltar a Áquila, onde pretende matar o Bispo. Navarre é o herói perturbado que cavalga por aí em seu cavalo negro Golias, sempre com um falcão por perto. Durante a noite, nas estalagens e vilarejos aonde eles vão dormir, Navarre e o falcão desaparecem e são substituídos pela presença etérea de Isabeau e de um lobo negro que vive tomando conta dela. Rato pergunta:

Você é carne ou é espírito?

E Isabeau responde:

Eu sou tristeza.

O monge Imperius (Leo McKern) é o responsável por contar toda a verdade a Rato. Ele carrega a culpa por ter dedurado o romance ao Bispo durante uma bebedeira, mas acredita ter a solução para tudo. Deus lhe contou em um sonho que o casal deve aproveitar um eclipse próximo (um dia sem noite e uma noite sem dia) para encarar o Bispo e por um fim à maldição.

"O Feitiço de Áquila" é uma aventura de capa e espada e um romance medieval que eu vi sem querer no cinema só porque "A História Sem Fim" já tinha saído de cartaz. Ou seja, foi o destino que me apresentou a ele. O filme não envelheceu muito bem, principalmente na sua primeira metade. Cenas de aventura bobinhas ficam ainda piores com a trilha sonora pra lá de cafona de Andrew Powell, criada com a colaboração do produtor de rock progressivo Alan Parsons. Sou totalmente contra retoques posteriores nos filmes, mas abro uma exceção aqui: a trilha de "O Feitiço de Áquila" precisa de uma remixagem urgente.

Felizmente, os problemas são amenizados na segunda metade, quando a aventurinha besta dá lugar ao drama do casal e a trilha romântica deixa os insuportáveis teclados progressivos para trás — o tema que toca na singela cena do falcão sobrevoando o lago é de gelar a espinha. Ajuda a fotografia de eterno crepúsculo de Vittorio Storaro e as lindas paisagens do interior da Itália, com seus castelos em ruínas que ainda estão por lá para quem quiser visitar.

A natureza é um elemento importante do filme. Os lobos e os falcões são parentes próximos dos nossos queridos cachorros e passarinhos, provocam identificação imediata além de simbolizarem muita coisa durante toda a história da humanidade. O filme traz a sua mensagem ecológica quando o caçador de lobos interpretado por Alfred Molina, contratado pelo Bispo para caçar Navarre durante a noite, acaba morto em sua própria armadilha.

O período dos anos 80 no qual "O Feitiço de Áquila" foi lançado era fértil em gente virando bicho. Tinha aquele seriado "Manimal" (1983), tinha o clipe do A-ha, "Hunting High and Low" (1985), tinha vários filmes de terror que seguiam as lições de "Um Lobisomem Americano em Londres" (1981). Em Áquila, porém, os efeitos especiais são simples, não há a pretensão de mostrar detalhes. Basicamente, o responsável pelas transformações é o editor Stuart Baird. Na cena em que Imperius arranca uma flecha do peito de Isabeau enquanto o lobo uiva e o Bispo tem pesadelos, Baird e o diretor Richard Donner revivem a experiência de "A Profecia" para um breve momento de terror. O diabo é sempre mencionado, Deus é vítima das chacotas de Rato, o Bispo é do mal: "O Feitiço de Áquila" está sempre cutucando os dogmas católicos e os seus sacramentos.

O filme começa com Rato renascendo, cavando sua fuga como se estivesse, em suas próprias palavras, saindo novamente do ventre da mãe. Na sequência ele ouve hinos religiosos e cai na água, como se fosse batizado no esgoto. Escapando das masmorras de Áquila como ninguém havia conseguido antes, ele repete para si mesmo que nada é impossível. E tudo termina com um “eu te amo” de Isabeau para Navarre na Igreja com toda a pompa de um casamento, ainda que o sacerdote esteja com uma espada enfiada na barriga ali do lado.

Em "O Feitiço de Áquila", nós entramos na história já em andamento, junto com Rato, o representante do público em cena. Não fosse a sua participação ativa, poderíamos até supor que a maldição era um caso de zoantropia induzida por hipnose. Quando Imperius conta a história trágica para ele, está contando para nós. Quando Rato usa sua imaginação fértil para inventar lindas mensagens românticas de Navarre para Isabeau e vice-versa, somos nós ali torcendo para o casal não desistir. Somos nós shipping Navarre e Isabeau, como dizem os jovens. Nós ouvimos o passado como lenda, o filme não mostra flashbacks do casal feliz antes da maldição. Nós só vemos os dois juntos no final feliz, quando ambos aproveitam o eclipse para confrontar o vilão e recuperar a humanidade completa.

No caso, ser completo é mais do que ser humano durante as 24 horas do dia: é estar noite e dia ao lado dela, como naquele clássico de Cole Porter. Nem que seja em pensamento, na expectativa de encontrá-la de novo. Um ideal romântico bem cafona e fora de moda, do jeito que eu gosto. Os Bispos de Áquila estão soltos por aí, agindo nas sombras, conspirando, amaldiçoando a gente com rancor, angústia, orgulho, culpa, exigências, frustrações, traumas, mágoas, feridas que não cicatrizaram e tudo mais que é capaz de afastar as pessoas e mantê-las separadas. É muito mais fácil manter distância, desistir, desencontrar, destruir.

Não acredito em almas gêmeas, amores perfeitos, contos de fadas e finais felizes, mas acredito que a simples vontade de estar junto às vezes é suficiente para superar uma porção de coisas. A parte mais difícil do encontro é ele acontecer. Mantê-lo deveria ser mais fácil. E não deveria, jamais, ser impossível.