O Homem Elefante e os monstros em cada um de nós

(“The Elephant Man”, 1980, Dir.: David Lynch)

Pelo menos você não tem câncer. Essa é a frase clichê que os falsos sábios usam para te dar uma lição de moral quando você reclama de alguma bobagem da sua vida. É a piada do pavê das lições de moral, é apelativa, mas lá no fundo faz algum sentido. Talvez você esteja mesmo reclamando demais. Talvez sua vida não seja tão ruim assim. Talvez seja ok colocar seus dilemas em perspectiva de vez em quando. Mesmo que isso não resolva seu problema, saiba que tem alguém passando por dificuldades piores neste momento. Pelo menos você tem saúde. Pelo menos você tem o que comer. Pelo menos você não é cego. Pelo menos você tem uma família. Pelo menos você tem um emprego.

Quando o assunto é aparência física, o meu “pelo menos” sempre foi “O Homem Elefante”, a triste história verdadeira de um homem doente e de aparência monstruosa que escondia um sujeito gentil e bondoso, tão judiado pela vida. A saber: minha auto-estima sempre foi um lixo. Uma infância e uma adolescência de óculos, aparelho nos dentes, cabeçudo, magrelo e tomando anticonvulsivo fizeram um verdadeiro estrago aqui. Obviamente eu estava muito longe de ser um Homem Elefante, mas ele sempre foi referência. Principalmente porque assisti ao filme muito cedo. Quando aluguei a fita de “O Homem Elefante”, David Lynch ainda não havia feito “Twin Peaks”, Anthony Hopkins ainda não havia se transformado em Hannibal Lecter e eu ainda não tinha coragem de ver aquele personagem deformado. Eu tapava parte da tela com a mão de maneira covarde. Certas coisas a gente prefere fingir que não existem.

Assim, o filme ganhou o status de tabu na minha vida, superado apenas uns 30 anos depois. Ah, que maravilha é a maturidade! Hoje o mundo cão é bem mais escancarado. Programas de TV a cabo mostram pessoas com problemas físicos de todas as modalidades possíveis: obesidade mórbida, elefantíase, gêmeos siameses. Amigos se divertem com vídeos de gente decapitada na internet. Atropelamentos, fuzilamentos, gente arrastada por carro em alta velocidade… qualquer telejornal vespertino é uma versão de “Faces da Morte”, aquela série de documentários que eu nunca tive coragem de ver, mas que faziam sucesso nas locadoras de Leme. O mundo perdeu a sensibilidade, a curiosidade mórbida venceu. Por isso “O Homem Elefante” de David Lynch envelheceu tão bem. Deveria ser mais cultuado, inclusive por se tratar de uma obra-prima em todos os sentidos.

Vale lembrar que, até aquele filme lançado em 1980, o único longa de David Lynch era “Eraserhead”, o pesadelo doentio e claustrofóbico que ele fez na conclusão de seu curso de cinema. “O Homem Elefante” é um filme maior, inacreditavelmente produzido pelo comediante Mel Brooks e baseado em dois livros: “The Elephant Man and Other Reminiscences” de Frederick Treves e “The Elephant Man: A Study in Human Dignity” de Ashley Montagu. Lynch e os outros dois roteiristas, Christopher De Vore e Eric Bergren, tomaram liberdades para aumentar ainda mais o sofrimento do Homem Elefante real, Joseph Merrick, aqui rebatizado como John e interpretado por John Hurt, cheio de maquiagem que impressiona e causa repulsa até hoje — e está exposta no Museu da Imagem em Movimento no Queens, em Nova York. Anote essa dica de turismo.

O letreiro deixa claro que o filme é baseado nos livros e não tem nada a ver com o espetáculo homônimo da Broadway. Sim, nos anos 70 houve um Homem Elefante na Broadway. Entre os atores que o interpretaram estavam David Bowie e Mark Hamill, sim, o Luke Skywalker. Nenhum deles usava maquiagem, o público deveria imaginar as deformidades de acordo com a performance dos atores. Mark Chapman, o assassino de John Lennon, tinha ingressos na primeira fila para ver o espetáculo, mas foi preso antes. Há quem diga que Bowie era o seu próximo alvo. O circo das celebridades tem mais glamour que o circo de horrores, mas também tem lá seus monstros.

Por falar em assassinos, o Homem Elefante de verdade viveu no East End em Londres no final do século XIX, contemporâneo de Jack, o Estripador. David Lynch situa seu filme ali com toda a herança do expressionismo alemão, seus contrastes entre luz e trevas e o preto-e-branco do diretor de fotografia Freddie Francis, que chegou a dirigir filmes de terror da Hammer. Ou seja, um cara que entendia de monstros no cinema. Por tudo isso, “O Homem Elefante” não entrega sua idade. No visual, nas interpretações às vezes exageradas e até nos efeitos especiais a la Méliès, em nenhum momento ele lembra um filme feito em 1980. Parece muito mais velho.

Como dizia o trailer da época, você vai sentir o horror, mas não é um filme de horror. Você vai sentir o amor, mas não é um filme de amor. E definitivamente não é um filme de monstro, embora Lynch o trate como tal justamente para atrair a sua atenção. E rapaz, como ele capricha na atmosfera de terror. Começa o filme com cenas que parecem tiradas de um pesadelo, sua especialidade: é a mãe de Merrick sendo atacada por um elefante. A lenda dizia que ela levou um susto com um elefante durante a gravidez e por isso seu filho nasceu deformado. Mas do jeito que Lynch mostra, é como se o animal estivesse violentando a mulher. Só algo com essa brutalidade poderia criar algo tão monstruoso. Um simples susto ou uma falha genética não são explicações que se encaixam aqui.

O diretor leva mais de meia hora para revelar a face do monstro, escondendo seu corpo cheio de tumores, seu braço desproporcional e sua cabeça enorme no escuro, debaixo de roupas que abafam a respiração prejudicada pela bronquite crônica ou atrás da cortina. Primeiro a cortina do circo de horrores, onde ele é tratado como bicho por seu dono Bytes (Freddie Jones). Depois, pela cortina do hospital, onde o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) o trata como uma cobaia diante de seus colegas médicos. Não há muita diferença na reação das plateias de cada ambiente. A diferença é que, quando vê Merrick pela primeira vez, Treves chora. Todos os demais personagens do filme se assustam, gritam ou disfarçam o incômodo.

A princípio, Merrick é tratado até pela ciência como um animal, como se não tivesse consciência. “Ainda bem que ele é assim”, diz Treves, confirmando que a ignorância pode ser uma bênção. Porém, com o passar do tempo no hospital, descobre-se que o Homem Elefante é doce, gentil, educado e inteligente. Ele sabe falar, ler, ser sociável. É vaidoso, até. Gosta de se vestir bem, aprecia um bom perfume. Ele só não pode se deitar. Dorme sentado com a cabeça entre os joelhos. Sua cabeça é tão grande que se ele se deitar, pode sufocar e morrer.

Quando chega ao hospital, o retrato da falecida mãe (Phoebe Nicholls) é o único elo com suas origens e com algo parecido com humanidade. Ele diz que ela era linda, parecia um anjo e que ele a decepcionou ao nascer. O retrato lembra a foto de Laura Palmer como rainha do baile de formatura no colégio de Twin Peaks. O retrato da perfeição, da pureza celestial. A podridão do mundo não pode danificar aquela imagem. Quando Merrick faz amizade com a atriz Madge Kendal (Anne Bancroft) e ela lhe dá uma foto de presente, de certa forma ela assume o papel de mãe. A foto é importante, a imagem é importante. As fotos sobre a lareira da casa de Treves são importantes. Já o quarto de Merrick no hospital não tem espelhos. Certas coisas a gente prefere fingir que não existem.

A jornada de Merrick passa pelo mundo do espetáculo. Começa no circo de rua, entre outras aberrações de menor impacto como a clássica mulher barbada. Quando se muda para o hospital e se torna celebridade no jornal local, Merrick passa a receber a visita da alta sociedade. Não é de hoje que socialites lucram com a caridade. Até a Princesa de Gales aparece para apoiar a causa. O teatro onde Madge Kendal se apresenta tem a imponência de uma catedral, talvez um reflexo da catedral que Merrick recria no seu quarto como hobby. Em última instância, tudo termina conosco assistindo ao espetáculo de Merrick no cinema. Nós também fazemos parte do seu público.

Aí vem o tapa na cara: David Lynch mostra o público que se diverte com a desgraça alheia como mais monstruoso que o monstro em si. O bullying, a humilhação, o sensacionalismo. Ele reforça isso na cena do velho nojento que agarra duas moças ao mesmo tempo e força uma delas a beijar Merrick na boca, enquanto alguém derrama bebida alcóolica goela abaixo do personagem. A tortura a que Merrick é submetido é culpa de um funcionário dos baixos escalões do hospital que lucrava levando turistas para ver o monstro ilegalmente, até que uma dessas tours guiadas sai do controle e acaba devolvendo Merrick ao inferno das ruas, de volta ao velho dono Bytes.

A partir dali, o calvário de Merrick só piora. Agora mais debilitado por uma de suas inúmeras doenças, ele vai parar em outro país em uma jaula com macacos selvagens, viaja clandestinamente em um navio imundo e acaba perseguido por uma horda de supostos seres humanos na estação de trem. A caçada ao monstro, a tentativa de linchamento, os cidadãos de bem carregando tochas e sedentos por sangue… você conhece esse cenário. É o monstro de Frankenstein, é o Corcunda de Notre Dame. Encurralado no banheiro feito um bicho acuado, Merrick grita com o que resta de sua força:

“Eu não sou um elefante! Eu não sou um animal! Eu sou um ser humano! Eu sou um homem!”

O grito de socorro funciona e ele volta ao hospital para seus últimos dias de vida. É quando finalmente Merrick conhece o teatro de sua amiga e é aplaudido de pé pelo público. Nas melhores e piores fases da vida, ele nunca deixa de ser uma atração. É o seu destino. David Lynch mostra a peça de teatro como um filme surrealista de Buñuel e Dalí, com montagens de cenas sobrepostas. Ainda não existia cinema na época, mas Lynch dá um jeito de inseri-lo como parte do grande circo de horror que desfila em “O Homem Elefante” sob diferentes disfarces. Na ciência, na política e nas artes, todo mundo quer dar o seu showzinho às custas do nosso querido Merrick.

Ali no teatro (cinema?), o Homem Elefante vai se tornar humano. Os aplausos são o seu batismo. De besta selvagem escravizada à aceitação da sociedade em um templo sagrado. Depois de acompanhar toda a carreira de David Lynch, dá pra identificar em “O Homem Elefante” alguns dos símbolos que iriam se repetir depois. Por exemplo: é no teatro que “Mulholland Drive — Cidade dos Sonhos” revela seus segredos, quando as duas personagens de personalidades alternadas choram ao som de uma música do Roy Orbison cantada à capela. É um local de transformação. Depois de ser reconhecido como ser humano no teatro, Merrick se sente completo e decide morrer.

Como se dá o suicídio do personagem? Ele se entrega aos sonhos. Quando se sente humano o suficiente, ele vai se deitar e dormir para sempre. Nos sonhos, tudo é perfeito, como nos ensinou outra música de Roy Orbison em outro filme de Lynch, “Veludo Azul”. Em “O Homem Elefante”, o ato de se deitar e se entregar aos sonhos tem outra trilha sonora: o devastador “Adágio para Cordas” de Samuel Barber. Porque a situação toda já não estava triste o suficiente.

John Merrick morre e vemos sua mãe, no mundo etéreo dos sonhos ou da vida após a morte recebendo-o com um poema que termina com o mantra “nada vai morrer”. Gosto de pensar que Merrick não morreu, que ninguém morre de verdade, mas que mais cedo ou mais tarde todos se entregam a um sonho eterno. Que esse sonho é muito melhor que o pesadelo da vida e que por isso alguns o chamam de ceu. E que o David Lynch de alguma forma sabe disso melhor do que eu.

“O Homem Elefante” foi meu primeiro contato com a obra de Lynch e de lá pra cá minha admiração pelo artista só cresceu. Mais do que amar Roy Orbison, cafés e os mistérios da vida, mais do que criar a melhor série de TV do mundo e meia dúzia de filmes de fundir a cabeça, Lynch marcou a minha vida mostrando o estranho, o bizarro, o que não faz o menor sentido no mundo e, por que não, dentro de mim. Como diz Tyrion Lannister, o anão tratado como freak em “Game of Thrones”, “eu tenho um fraco por aleijados, bastardos e coisas quebradas”. Todos nós temos um fraco pelo Tyrion, pelo Rocky Dennis de “Marcas do Destino” ou pelo Grande Mutato de “Arquivo X”. Todos herdeiros de John Merrick.

Pensando bem, encarar essa experiência emocionalmente desgastante que é “O Homem Elefante” não é uma procura por alguém em piores condições para se sentir melhor. É sobre reconhecer os monstros que existem dentro de nós. Um monstro que é capaz de se sentir vítima porque é imperfeito, frágil e derrotado. E o outro monstro que é capaz de apontar um gordo na rua, tirar sarro de um nariz avantajado, inventar apelidos e judiar daquilo tudo que é diferente. Um monstro que vive com medo acuado no escuro e o outro que estica o pescoço para ver um acidente na rua. David Lynch sabe revelar os monstros que existem dentro de nós, mas olha só: pelo menos você pode deitar a cabeça de noite, dormir e sonhar.