Os Caça-Fantasmas e os heróis do marketing

("Ghostbusters", 1984, Dir.: Ivan Reitman)

Vi "Os Caça-Fantasmas" no cinema nas férias de 1985, antes de começarem as aulas da 1ª série, o primeiro degrau do nosso longo processo da educação. A pré-escola é só um teaser de toda a desgraça que vem pela frente. A 1ª série é pra valer, o começo de tudo. No recreio, a gente brincava de caça-fantasmas pelos corredores da escola, um casarão antigo, dos mais velhos da cidade, daqueles com pisos de madeira que rangem. Havia uma lenda sobre um homem que morreu no local e cujo espírito permanecia por lá. Diziam que ele chorava de noite. Nunca ouvi esse choro, mas deve ser verdade. O casarão do Liceu em Leme tinha toda a pinta de ser mal-assombrado.

Nas brincadeiras de caça-fantasmas do recreio eu sempre era o Ray. Não porque eu tivesse alguma preferência por coadjuvantes, muito pelo contrário, eu achava que o Ray era o protagonista. Baita herói, líder nato, mocinho destemido, um cara com a missão de eliminar os fantasmas do mundo. Nunca me passou pela cabeça que o fato de os meus amigos não brigarem para ser o Ray quisesse dizer alguma coisa. Levou um tempo para eu descobrir que o Ray não só não era o protagonista, como "Os Caça-Fantasmas" não era aquela aventura de terror com super-heróis que eu imaginava. Era uma comédia com três patetas (a partir de determinado momento, quatro) e o protagonista era o Peter (Bill Murray). Mal havia começado minha vida acadêmica e eu já estava entendendo tudo errado.

Em minha defesa eu digo que, para uma criança, "Os Caça-Fantasmas" era bem aterrorizante. Aquele prólogo na biblioteca municipal de Nova York com um poltergeist assustando a pobre senhorinha bibliotecária tem tudo que se convém chamar de terror. O humor ao longo do filme é cínico e sarcástico como Bill Murray, o cientista charlatão que logo na primeira aparição já está enganando um aluno trouxa enquanto dá em cima de uma aluna gata, aplicando um teste de Pavlov pra lá de safado que dá choque em quem não acerta uma adivinhação telepática. O Dr. Peter Venkman estava bem longe de levar qualquer coisa a sério. Já seus colegas, o Dr. Raymond Stantz (Dan Aykroyd) e o Dr. Egon Spangler (Harold Ramis), levavam tudo a sério demais. Por isso eu devo ter entendido que Ray era o protagonista: ele não estava ali para brincar, ganhar dinheiro ou pegar mulher. Na 4ª série, a professora chamou minha mãe de canto na reunião de pais e mestres para "reclamar" que eu era muito, nas palavras dela, "responsável". Talvez ela estivesse errada. Ou talvez eu sempre tenha levado tudo a sério demais, realmente. Como Ray e Egon, os nerds, os CDFs. Peter era o Ferris Bueller que sabia viver a vida, Ray era o Cameron, era eu, a criança responsável demais. Eu levei “Os Caça-Fantasmas” a sério.

Logo após descobrir que fantasmas não só existem como estão atormentando Nova York, o trio de cientistas é expulso do porão onde conduziam suas experiências paranormais na universidade. Um porão que lembra o escritório do "Arquivo X" no FBI onde Fox Mulder anos depois também estudaria fenômenos paranormais perdendo toda a credibilidade dos colegas e da opinião pública. Mulder também se identificaria mais com Ray e Egon. Sua mãe também deve ter ouvido críticas na escola. Dedicar-se a esses temas não vai alavancar a sua carreira. Não vai te levar a lugar nenhum.

Para se tornarem bem sucedidos na vida, os três patetas decidem então abrir um negócio. Os Caça-Fantasmas são um negócio com slogan ("who you gonna call?"), jingle (a música-tema de Ray Parker Jr.) e logotipo (o logo de filme mais marcante de que se tem notícia, uma ilustração certeira de um fantasminha preso, proibido). Venkman, Stantz e Spangler, como meu amigo Thiago Blumenthal uma vez bem observou, são sobrenomes judeus. Eles, assim como os grandes executivos judeus que ergueram a indústria cinematográfica, sabem criar e administrar um negócio. Eles também têm algumas coisas a nos ensinar sobre fantasmas, assombrações e demônios do passado. "Os Caça-Fantasmas" é todo recheado de referências à cultura judaica e em determinada cena, quando o inferno está prestes a tomar conta do planeta, um grupo de judeus ortodoxos aparece rezando de maneira exagerada para marcar presença, caso alguém não tenha notado nada antes. Fato é que os Caça-Fantasmas agora são empreendedores, com direito a um prédio (o quartel general que um dia pertenceu a outros heróis novaiorquinos, os bombeiros), um carro (o icônico Ecto 1, uma ambulância Cadillac ano 1959), uma secretária (a Janine interpretada por Annie Potts) e um funcionário negro (Winston Zeddmore, vivido por Ernie Hudson), contratado às pressas para completar o time. É o único sem qualificação profissional. Ninguém problematizou o fato na época porque não se fazia esse tipo de coisa em 1984, mas fica registrado aqui para futuros debates: Winston não tem diploma, mestrado, doutorado e vive pedindo aumento, é o representante da classe operária com três chefes judeus.

A primeira cliente do grupo é Dana Barrett (Sigourney Weaver), musicista que tem poltergeist em casa — sua geladeira, inclusive, é um portal para outra dimensão. O prédio fictício no qual ela mora fica ao lado do Central Park como o Edifício Dakota, aquele lugar maldito que deu a luz ao demônio em "O Bebê de Rosemary" e em cuja calçada John Lennon foi assassinado. Ali também mora Louis Tully (Rick Moranis), um contador atrapalhado que é apaixonado platonicamente pela vizinha Dana e dá festas bem pouco animadas para seus clientes infelizes. O fato de ele ser contador é mais uma prova de que "Os Caça-Fantasmas" está de olho no nosso dinheiro. Já o fato de Rick Moranis ser um alívio cômico mais uma vez comprova minha visão infantil de que o filme não era uma comédia. Uma comédia não precisa de alívios cômicos pois já tem comédia por toda parte, certo? Sério, você tem dois astros do Saturday Night Live no elenco principal, por que você precisa de um alívio cômico? A resposta é óbvia: porque a essa altura todos já sabemos que Bill Murray e Dan Aykroyd deixaram de ser comediantes para se tornar heróis, homens de negócios adultos. Nosso querido Louis não, ele continua sendo uma criança ingênua e bobalhona.

Na primeira missão de fato, no Hotel Sedgewick, os quatro caça-fantasmas entram em contato com o fantasminha nada camarada que futuramente seria chamado de Geleia, uma criatura verde gosmenta, um vapor flutuante classe 5 transformado em mascote da turma no divertido desenho animado que viria depois. Que tipo de gente Geleia foi antes de partir dessa pra melhor? Em que tipo de limbo ele estava antes de vir infernizar o nosso plano? Infelizmente, o filme não dá margem a nenhum questionamento espírita, mas a Bíblia tem o seu momento quando Ray e Winston relembram trechos do livro do Apocalipse com os mortos se levantando das tumbas e tudo mais, e também quando o Arcebispo da cidade é chamado para palpitar e, como é padrão em grandes catástrofes como o Holocausto, tirar a Igreja da reta. Quando o bicho pega, são três judeus e um negro que estão na linha de frente contra os demônios e nenhum deles carrega um crucifixo.

Os caça-fantasmas botam o hotel abaixo para capturar seu primeiro fantasma usando armas incríveis: o feixe de prótons e a armadilha. Os feixes de prótons são gerados por aceleradores nucleares nas mochilas dos nossos heróis e são disparados de maneira desgovernada por suas armas, uma espécie de paródia do sabre de luz de "Star Wars", uma arma deselegante para tempos nada civilizados. Os feixes imobilizam os fantasmas até que a armadilha os prenda de vez. Aqui na vida real, os feixes de prótons são usados em radioterapia para tratar o câncer, o maior fantasma que assombra a humanidade. Talvez os caça-fantasmas tenham sido criados para eliminar nossos maiores demônios: os medos, as angústias, os traumas de infância que nos assombram. Mediante pagamento justo, é claro.

Temos o tradicional clipezinho para mostrar outros casos bem sucedidos do grupo de maneira rápida e rasteira e a escalada rumo ao sucesso, com direito a capa da Time e participações em talk shows. Eles deixam de ser cientistas para se tornarem heróis, popstars, celebridades e passam a se comportar como tais porque isso faz parte do negócio. No meio do clipe, aquela breve cena que insinua o boquete de uma fantasma em Ray durante o sono, a única maneira de nosso amigo fazer sexo. Lembrando que, dos três protagonistas, Peter já se engraçou com a cliente e Egon com a secretária, ao Ray só restaram os espíritos zombeteiros que se aproveitam da gente nos sonhos. Trata-se da ousadia mais explícita do diretor Ivan Reitman e dos roteiristas Aykroyd e Ramis.

Os gárgulas do prédio de Dana começam a ganhar vida e "Os Caça-Fantasmas" muda de "Poltergeist — O Fenômeno" para "O Exorcista". O primeiro gárgula, o Porteiro, possui Dana justo na noite de seu encontro com Peter. Que brilhante é aquele diálogo no qual a Dana possuída diz:

"Quero você dentro de mim!"

E Peter responde:

"Já tem gente demais aí dentro."

O segundo gárgula, o Guardião da Chave, possui Louis depois de persegui-lo pelo Central Park em uma das cenas clássicas do filme, quando o pobre diabo implora por socorro do lado de fora de um restaurante chique e é ignorado pela alta sociedade novaiorquina. Nem o apocalipse poderia atrapalhar um jantar tão sofisticado. A explicação da mitologia por trás deste apocalipse é quase simples: Zuul, o Porteiro, precisa de Vinz Clortho, o Guardião da Chave, para preparar a chegada de Gozer, o gozeriano, Volguus Zildrohar, Lorde de Sebouille, o Viajante, o Destruidor, um semideus sumério de 6.000 a.C. que vai acabar com a humanidade. Imagine a diversão dos caras inventando esses nomes.

Quem proporciona o inferno a Manhattan é o departamento de proteção ambiental na figura do burocrata Walter Peck (William Atherton, sempre o babaca perfeito), que ordena o desligamento dos aparelhos no QG dos caça-fantasmas como a vigilância sanitária mandando fechar seu trailer de lanches favorito. Nossos meninos tiram sarro da preocupação ecológica com a mesma safadeza com que praticamos bullying contra veganos chatos, quer dizer, no fundo nós sabemos que eles têm razão, como é que alguém é capaz de matar um bicho para comer, como é que alguém mantém um reator nuclear funcionando no meio de Nova York? Hoje em dia seria legal aparecer um defensor dos direitos humanos para os fantasmas aprisionados, levantar um debate (fantasmas ainda podem ser considerados humanos?), mas nem isso o remake de 2016 teve as manhas de fazer.

O remake com as meninas no lugar dos meninos chamou mais atenção pela questão feminista do que pelo filme em si, que pouca gente parece ter visto. O filme que dependia da força da nostalgia 80’s para decolar foi lançado na mesma época que a série “Stranger Things”, que monopolizou o tema. Enquanto as novas caça-fantasmas lutavam para renovar o espírito do original no cinema, a turminha da Netflix enfrentava seus próprios poltergeists com corpo e alma 100% oitentista, sem medo de ser feliz. Foi um verdadeiro massacre.

Voltando a 1984, a sequência dos fantasmas libertados tocando o terror em Manhattan é ótima. Desde 2001, toda vez que vemos caos em Manhattan temos a obrigação de nos lembrar do 11 de setembro. A cidade ganhou muitos fantasmas novos naquele dia, entre vítimas e bombeiros, muitos deles com uniformes que lembram muito o dos caça-fantasmas. Mais um tema óbvio que o remake não teve coragem de tocar. Seria uma baita homenagem. Seria uma declaração de amor a Nova York, coisa que o filme de 1984 não se cansa de fazer. "Os Caça-Fantasmas" é um daqueles filmes que fazem a gente se sentir em casa quando vai a Nova York. A cidade é personagem do filme e talvez a única ideia interessante da sequência lançada em 1989 seja a da Estátua da Liberdade ganhando vida para combater o ódio acumulado da população. Cafona até o talo, é verdade, mas faz todo o sentido. Nova York é uma cidade cafona, uma Disneylândia para adultos. É esse o seu charme.

No clímax, os caça-fantasmas seguem até o prédio maldito e encaram a dura missão de subir até o topo. Quem jogou Phantom System sabe da dificuldade, o jogo vinha junto com o console. Lá em cima, o portal para o inferno parece palco de turnê de heavy metal farofa com pirâmide, neon e gelo seco. Direção de arte e efeitos especiais datados que entregam a idade, como o stop motion vagabundo dos demônios gárgulas e os figurinos da versão feminina de Gozer. Ray, como venho frisando, é muito herói e vai falar com a diaba, sendo recebido com raios de lorde Sith. Quando ela pede para que eles escolham uma nova forma para o Destruidor, é novamente Ray o responsável pela escolha. Ray é tão nós, tão bobão e imaturo que escolhe um personagem de infância, o Stay Puft, o Monstro de Marshmallow. Já tínhamos visto a marca de relance no apartamento de Dana, enquanto o poltergeist fritava ovos no balcão, mas agora o mascote Stay Puft da embalagem vai ressurgir grandioso pelas ruas de Manhattan feito um King Kong ou um Godzilla mais fofo, muito mais infantilizado e criado por alguma agência de propaganda. É comum no terror o uso de figuras inocentes de infância possuídos pelo mal, um brinquedo assassino, um palhaço, uma boneca, o Fofão e a Xuxa que matavam crianças durante a noite. Os traumas de infância que a gente precisa destruir para seguir em frente. Você esperava um demônio de chifres e tridente, você tem um boneco de marshmallow vestido de marinheiro. Ele é o capeta do marketing que possui a mente das crianças. Ele saiu da infância de Ray e passou a fazer parte da nossa. O Stay Puft é genial demais.

A solução encontrada para destruir o demônio é cruzar os raios das armas, algo que até então era considerado letal para a humanidade. Vamos ignorar qualquer tentativa do filme de soar cientificamente convincente e aceitar que o cruzamento dos raios é apenas uma maneira bem simples de mostrar que só a união é capaz de vencer o mal. Então os quatro caça-fantasmas salvam a cidade e são recebidos como heróis pela população. Uma vitória dos cientistas que usam conhecimento e inteligência em vez dos músculos, numa época em que os nerds eram virgens espinhudos de óculos que só babavam e apanhavam em cena. Em breve o mundo seria conquistado de vez por eles, de Steve Jobs a Harry Potter, dos super-heróis dominando o cinema ao último geniozinho da internet. "Os Caça-Fantasmas" previram esse futuro. Um filme à frente do seu tempo. Logo no começo, Janine está flertando com Egon e pergunta se ele gosta de ler. Ele responde:

"O papel está morto."

Estamos mais de três décadas depois ainda discutindo o futuro de revistas e dos jornais impressos, vendo os livros serem substituídos por e-books, e Egon determinou o fim do papel impresso em 1984! Os caça-fantasmas eram, por fim, homens de visão. Empreendedores de sucesso. Vale a pena estudar, crianças, para aprender a se vender, para se tornar um herói para alguém, mesmo que você seja o Ray e todo o resto da humanidade prefira as palhaçadinhas do Peter. E o que é ser herói? Um executivo bem sucedido, um popstar, um salvador da cidade, aquele que mata o bicho papão, o palhaço que te faz sorrir ou tudo isso ao mesmo tempo? Hoje em dia você vai ao cinema e é quase impossível não topar com um filme de super-herói em cartaz. Todos cheios de superpoderes, defendendo Nova York ou outra megalópole parecida. Mas não se engane, foram nerds da Marvel e da DC que colocaram eles lá e estão contando o dinheiro agora. "Os Caça-Fantasmas" mostrou que até cientistas fora de forma e sem superpoderes podem ser heróis caso se transformem em um produto muito bem embalado. Coisa que Nova York sabe vender como ninguém.